sábado, janeiro 23, 2016

A FÚRIA FEMININA



  Durante a sua revolta, com uma duração mínima de aproximadamente 15 segundos,

me ocorrera uma sublevação insuspeita. Desde as profundezas acima, acentuaram-se as

incertezas sobre um futuro provável, de clima ruim. O ruído dos ventos chocava-se com

um coração infeliz. Ademais, trovejavam escárnecidos, os gritos femininos de um lugar

incomum. Era ela, um gigante sem cérebro, infrene, enfrentando os perigos fugidios de

uma eminente revelação derradeira. Seu coração dilacerado não tinha nome, nem tinha

honrado uma posição no espaço. Sua cabeça não tinha formato, era um monstro

incólume, demolindo ferozmente as paredes do diálogo. Torpe, definitivamente. Dava

para notar que era ela quem vinha de longe, e  que sua vontade se entrelaçara às vísceras

ensanguentadas do destino. Sôfrega, a todos haveria de consumir no seu lamaçal, que

era também o mesmo da contígua miséria humana universal. Ela era feliz então. Mas, e

o lamaçal? Ao menos um dia alguém assim o quis, dessa maneira.

  O destino dessas verdadeiras musas flui subjacente ao infinito, nunca saberemos ao

certo qual o local, de fato, para onde o seu fôlego nos aponta. A vida torna-se rara,

porquanto insistirmos futilmente em nos amar, como animais que amam a próxima

porção de ração, como quem idolatra à uma concessão divina.

  Uma flor morta no elevador diante do espelho. Passivamente, aquele que observou o

dia passar, sentiu-se igualmente passivo. E é assim que se acaba o dia nos grandes

centros urbanos.  Como se não tivesse acontecido, como se não tivesse jorrado sangue

durante a jogatina das horas. É a fruição contínua dos pesares que agora vos desafia, o

troféu dos afetados quer de vocês uma nova liturgia.


João Pedro Braga Santana Santos

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