quinta-feira, abril 30, 2015

O INICIO DO FIM OU DESMEMORIAS DE UM ASSASSINO



Um gosto azedo faz dormir todos os meus sentidos. O relógio marca 6.33 e o sono não desgruda o amargor podre de cigarro que agoniza minha boca e eu sei que é hora de preparos e vigília. Não há mais tempo para espera aqui neste buraco fedorento e quente.
Meu cérebro insiste em recordações, e qualquer recordação se torna pesadelo em mim, sou um fardo de dor e gritos, e se antes nunca me incomodei, agora essas lembranças paralisam, em algum lugar de meu ser,  torturas involuntárias que se apegam em meu estomago como carrapato e fustigam incertezas.

Sou um assassino em sua reta final, digo a mim mesmo, e lembro das confidencias de outros assassinos. Foi na prisão que eu ouvi falar pela primeira vez no gosto azedo dos cigarros, e soube que era o fim de carreira, um sujeito assim fica lamentando mortes e buscando por todos os meios justificativas. E ai é o fim, o inicio do fim.

Tomei um banho, escovei os dentes e vomitei mortes por dois minutos, e novamente senti a minha perna tremer. Vomitar mortes é por demais perigoso, pessoas saíam de dentro dos meus escarros e deixavam mais amarga a minha boca.

Começo a pensar no que faço e isso é ruim, pensar sempre foi ruim, pensar é coisa de quem precisa do outro, de quem quer sorrisos, eu quero uma boa mira e campo livre para a fuga.

Agora já pronto me vejo sentado, ouvindo choros, pedidos de clemencia e envolvido ouço o passado. Tento inutilmente me concentrar em meu próximo serviço, naquele corpo que cairá e eu então poderei calmamente realizar mais uma marca em minha arma. Sete horas e vinte minutos, um silencio mortal ocupa tudo é hora de partir, verifico a munição, e então estou realmente pronto. O motor do carro anuncia a chegada do transporte. Aquele homem me levará, ele vai identificar o alvo e não sabe que também morrerá, ganhei pra isso. Alguém não confia e quando isso acontece eu trabalho. Sempre soube da sua importância. Em toda cidade, pequena ou grande meu trabalho alivia o tédio dos medíocres, o medo divulga a essas almas penadas que talvez eles foram EM UM PASSADO REMOTO, como eu. E uma sensação de vida percorre aqueles corpos por alguns dias e depois a morte reinará por entre risos falsos e metas sem metas.
Entro no carro e o homem já velho me olha como um morto e ri um medo que me da medo. Ele sabe, insisto em pensar, e o gosto de cigarro desaparece.
 Estou pronto para matar.
PARTE DOIS




Me concentro no trabalho e mentalmente refaço meus planos. A estrada é íngreme e cheia de buracos. Estou sentado no banco de trás e observo mais uma vez o homem que guia o carro, ele aparenta atenção total em dirigir, mas sei que o medo se instalou nele assim que me viu, to ficando por demais previsível, e o gosto azedo de cigarro se infiltra em minha alma.
Esqueço o homem e a minha atenção se volta para o campo verde em minha frente, logo-logo vamos encontrar a aridez da seca do sertão, estamos em Sapé e Castro Alves já se faz presente na falta de verde e sinais de mortes, estranho, eu um assassino não gosto dos sinais de mortes, nem mesmo na presença física. Na minha frente somente ossadas de bois e outros bichos e urubus marcam a terra seca, é o território do vivo e do morto. Só gosto da morte do homem, não como carne, sou vegetariano, não admito se matar animais, somente em um estado de desespero de fome eu comeria a carne.
O homem  do volante, diz, entre dentes, quase inaudível-
- Estamos muito perto -

Esqueço toda a geografia e sua economia, esqueço o gosto azedo grudado em mim e pergunto de forma doce, quase enamorado -
- Perto quanto?
- Meia hora. É logo após a cidade de Castro Alves.
E ele continua -
- O homem é um padre, ele estuprou a filha de um servente , coisa de dois anos. Ela já tinha sido vendida para o senhor Pedro e claro o meu patrão perdeu o dinheiro, mulher sem nada de nada vale, ele o Padre roubou o tesouro do meu patrão.
Sou forçado a rir, a filha de um servente, fugido da roça, deduzo, vem pra cidade e entre fazer massa para algum mestre, vende as filhas pros ricos, vende a virgindade, meu trabalho cresce, pois são tantas as razões para me contratarem. Fico feliz em ser um assassino, nunca faltará trabalho. Todos os bons homens sempre precisam de mim.
Mais doce ainda pergunto ao homem-
- Me aponte ele discretamente.
E continuo-
- Depois do serviço não voltaremos, iremos adiante, em direção a Feira de Santana, fazendo um circulo, depois de uma hora irei sozinho.
O homem me olha e com uma voz tremula-
- Meu patrão disse para seguir suas ordens, o senhor manda e eu obedeço-
Neste momento sinto uma raiva imensa daquele homem merda, “o Patrão me mandou obedecer”. Não gosto de homens que obedecem e nem dos que mandam, esse patrão morrerá também, estou ficando romântico e pensando e tomando decisões por certo e errado, estou morrendo.
A cidade fica para trás, o sol do meio dia crava minha espinha com gotas suarentas e pegajosas. Uma pequena capela surge em nossa frente, algumas crianças e duas velhas trabalham em frente da pequena igreja. O carro para, o homem fala –
- Não vejo o padre-
Não respondo desço do carro e me dirijo à mulher mais perto e com uma voz comovente e cristã, digo
- Senhora, onde posso encontrar o Padre Julião?
A mulher finge que não ouve e eu insisto –
- Por favor, senhora. É um caso de vida ou morte, aliás de morte mesmo, uma senhora em sapé ta morrendo e diz que só serve ele
Ela, aparentando dor e raiva e impotência e ainda sem dizer nada me aponta o interior da igrejinha branca, bela e realmente acolhedora.
Firmemente entro e dentro um homem de cinquenta anos acaricia uma menina de talvez dez. Não me importo com a cena, nada me importa, o gosto azedo sumiu, a menina deve ser irmã, com a mesma sina da filha do servente. O padre se assusta e de forma autoritária berra –
- Lucinda desgraçada, eu não disse pra não deixar ninguém entrar sem me avisar.
Eu apenas delicadamente pergunto –
- Padre Julião
E ele ainda eufórico e nervoso
-Sim e seja lá o que quer, saia e me espere lá fora, não ver que estou ocupado.


Retiro a minha arma e disparo uma única vez, a bala perfura sua testa e a menina corre, um cheiro de vida toma conta da igrejinha, sinto uma leve brisa e uma sensação de primavera e flores, o mundo parece sorrir, as vezes me sinto um homem que trabalha pro bem, Sacudo a minha cabeça, to enlouquecendo. Saio devagar passo pelas velhas que apenas fazem o sinal da cruz e agradecem sorrindo, ali fora sinto a mesma sensação bela e de festa, entro no carro e ordeno.
-- Vamos
O motorista suando demora para ligar o motor e eu passo a mão em sua cabeça e o encorajo. –
- Calma meu velho, calma.
O carro sai lentamente e depois em disparada, o velho coloca cem quilometro por hora e as sacudidelas faz meu cérebro pular. Por todo lado ossadas e cachorros magros e meninos nus e de barriga grande. A miséria ostenta o Brasil Carinhoso, ser politico é matar sem o medo da punição , eu mato, sou assassino e o Brasil carinhoso mata e é bondoso. Sinto raiva do mundo, de trabalhadores e dos políticos. 
Em minha frente uma placa gigante anuncia o combate da miséria e embaixo  meninos e meninas quase mortos de fome e de doenças se arrastam e pedem comida, quase são mortos pelo carro em alta velocidade.
A cidade sumiu e agora somente galhos secos e alguns urubus e carniças iluminam meu caminho. Peço para o velho parar e disparo a queima roupa dois tiros em sua cabeça. O sangue alegremente dança por todo veiculo. Saio e abro o porta - malas e retiro a gasolina, jogo no automóvel e acendo o fosforo, o fogo ganha proporções gigantes e eu então me orientando pelo instinto ganho a direção norte.

Uma sensação de dor e felicidade toma todo o meu corpo. O gosto azedo já não incomoda mais, agora tenho raiva de gente, raiva de mim, só me resta andar, pois tenho um serviço que fará a minha raiva passar. Um politico é a minha próxima renda, o matarei na cidade de Feira de Santana e desta vez não preciso de guias, já tenho a foto do homem e seu nome gravado em minha mente. Depois espero voltar e matar Pedro, o homem que compra virgindades.
Penso em minha mãe, em meu pai e em todos os tristes seres que eu deveria amar e que deveriam me amar e sei que o mal não ta neles e nem em mim, o mal ta na cabeça, naquilo que pensamos ou não pensamos e de novo o gosto azedo invade a minha boca, qualquer hora dessa não prestarei mais para o meu trabalho, to virando um maldito ser humano.

Olho o céu e um azul que eu sei que só existe em minha cabeça me faz sorrir.
Verifico a munição, reponho as gastas e penso que matar é um aprendizado, um oficio nobre e que poucos teriam capacidade, retiro frutas secas de minha mochila e me acomodo ao lado de uma ossada que parece de cabra e me alimento de vida e frutas.
Agora sim, sei que estou outra vez pronto para matar.


R.B.Santana

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