segunda-feira, novembro 03, 2014

O BOM TEXTO DE DANIEL LPOPES

Desculpe, Robin Williams

 Desculpe Robin Williams por não ter respondido a tempo ao teu olhar. De qualquer modo, tornei-me professor - Oh! Captain my captain - e deixo meu Folhas de Relva aberto sobre o criado mudo, feito um livro sagrado. Desculpe Robin Williams, por não ter respondido a tempo ao teu olhar, ao teu desencaixe, a tua maneira certeira de dizer a piada certa na hora certa. Só tem este timing quem sofre, só tem um sorriso como o teu quem sofre, quem presa o riso como um metal precioso porque não o tem fácil. Eu sou da América do Sul, eu sei... você nem vai saber, mas agora respondo, não para mim, nem para você, porque a gente não responde ao remetente, mas a um outro destinatário desconhecido. Assim como Vincent tentou responder a Millet, mas chegou a mim. Assim como Lô tentou responder a Lennon e McCartney, mas chegou a mim. Respondo agora, eu sei... você nem vai saber do menino que brincava de caubói com estrela de xerife... é que esta chama não se devolve, mas se passa adiante, Robin. É o fogo entregue aos homens e que os homens dividem entre si nas noites frias, de solidão, em que nem mesmo os dvds pornográficos parecem funcionar e então a gente, em nostalgia, volta ao velho Nostalgia do velho Tarkovsky, e se transforma no louco tentando atravessar a fonte com a chama acesa. Essa chama é o amor que tenta se manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica. A gente levanta a chama, velho, e espera que um outro solitário responda, aqui, acolá, do outro lado do mundo. Essa chama é a chama que Milton Nascimento protege, que Leandro assopra para que ganhe força, que Fernando recolhe no olhar das crianças que repartem a merenda. Essa chama é você tentando curar o gênio problemático, mantendo o mesmo olhar no teu último filme ruim, de bigodes e óculos de John Lennon em Uma noite no museu. Fala sério, este último você poderia muito bem ter passado. I´m so sorry, Robin, por só agora ter comprado meu uniforme de palhaço, meu quepe de vigia... é que a gente sempre só percebe quando perde. Não faz mal, também tenho uns truques na manga, umas piadas antigas que sempre funcionam e as novas que brotam a todo instante em qualquer conversa, mas que eu sei e você sabe, vêm, inapelavelmente, do pântano. Desculpe só agora ter me preocupado... é que você estava tão distante, mas este seu sorriso puro e triste, este seu olhar puro e triste, está também, agora e sempre, espalhado por aí, nos cabelos estranhos dos jovens tristes que se reúnem pelas praças em busca de compreensão, nos velhinhos que jogam dama nesta mesma praça enquanto a noite cai inevitavelmente. Desculpe a minha letargia, eu buscava outros, mais próximos de mim, para socorrer, meu pai e a próstata, e esqueci que, do outro lado da tela, você gritava por socorro. Desculpe a lágrima que escapa por um olho só enquanto todos dormem, é que sou homem e não pega bem chorar com os dois olhos. Desculpe, Robin Williams, desculpe. Desculpe a todos os que estão andando por aí... sofrendo, a gente se sente frustrado. É que nunca chegamos a tempo.


Daniel lopes
http://pianistaboxeador21.blogspot.com.br/

Meu comentário postado no blog do Daniel acerca do texto
Desculpe, Robin Williams

Desculpa Daniel Lopes, mas seu texto me pegou, assim de um jeito franco e rabiscando o passado com um viés no presente, você me mostrou com vigor que a tristeza não é uma doença, mas antes é uma condição de quem vive em busca da vida sem mal causar a outros, que a tristeza é uma segunda pele de quem busca vida com amor e sem agressão, que a alma entristecida só é triste pela procura de novidades e de afetos, não de uma pessoa sexual para outra, mas de uma forma que se pode viver e encontrar nas pessoas por serem apenas pessoas, de se amar o outro na diferença do outro e se querer crescer sem diminuir ninguém. Desculpe Daniel, mas como diz você que "Essa chama é o amor que tenta se manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica" eu sei que perguntas sempre faz nascer novas perguntas e o mundo que você vive, não é o mundo que você quer ou sonha, mas sei que sua teimosia não lhe faz desistir, mas sei que você não acusa aquele que desistiu. Desculpa Daniel mas eu lhe peço, não desista, pois se não fica difícil pra mim.
Desculpa Daniel eu lhe escrever estas palavras, mas sua literatura dói e acalenta e me faz ir em frente, então eu posso encerrar dizendo:
obrigado Daniel

R.B.Santana

Um comentário:

pianistaboxeador21 disse...

Ô, Braga, muito obrigado, meu querido. Também pelo comentário carinhoso e generoso!
Abração!