quarta-feira, maio 08, 2013

Viver é agora

Era quase meio dia e um sol fraco aquecia mais que aborrecia. Eu ia absorto pensando nos meus mortos quando me esbarro em um cara que diz a queima roupa.
- Braga - E já trazia a mão estendida. Eu permitir o contato enquanto tentava pescar um nome àquele rosto gordo.
E o cara falava mansinho e bastante educado mas demonstrando uma intimidade que já me deixava embaraçado. Então ele falou em poesia e o nome veio acompanhado de diversas lembranças-
-Vai poieta - Declamei à moda antiga - E completei - Gilberto Costa!
O poeta tinha colocado um i no meio da poesia e levantava o povão nos coletivos recitando seus poemas e tinha um que tinha um refrão que era repetido por todos -
- Vai poieta - Ele pintava o cabelo com cores fortes e era uma atração na década de 90 na cidade de Salvador. Nos cumprimentamos, falamos de nossos cabelos brancos e ele me falou de Eduardo Teles, um poeta que estava sofrendo um processo corrosivo de uma doença degenerativa que há dez anos o fazia lentamente encolher.
Resolvemos juntos visitar o Eduardo Teles que morava ali perto, Largo Dois de Julho, perto do antigo Cine Capri.
Eu sabia da doença do poeta mas nunca lhe fiz uma visita e então, encontrar Eduardo foi de uma dor sem tamanho, ele não anda e nem move as mão e começa a perder a fala.
O poeta chorou e o Poieta declamou vestido branco, uma poesia de Eduardo Teles que fizera sucesso entre as meninas da década de 80. Ali naquele buraco limpo e com um lápis na boca para fazer uso do computador eu lembrei o Eduardo Teles vaidoso, paquerado e paquerador, com seus cabelos enormes e bem cuidado a cair nas suas costas e um sorriso enigmático a abrir portas e fazer amigos, principalmente das meninas.
A vida cruel não manda recados e nem aceita lamentos, na sua dureza pede guerreiros e sem piedade te lança na cara as verdades, onde a ideologia não faz acento e o contradito é apenas passar tempo.
Não sei o que dizer a Eduardo Teles, sei apenas que voltarei a lhe visitar e lerei pra ele textos novos de poetas novos e falarei do passado como uma história das mil e uma maravilhas.

ronaldo braga

Nenhum comentário: