terça-feira, janeiro 29, 2013

a poesia de leila maria


Ainda encontro o que esqueci de te falar
No setor de perdidos a achados do meu quarto

E intimarei minha voz
A dizer tudo aquilo que preciso
Soltar esse grito contido
Ler seu espanto em um sorriso.

Ainda enfeito uma caixinha de presente
Com bombons e propostas indecentes

Canto em seu ouvido
Uma canção de amor bem brega
E me escondo em sob seus braços
Até que o mundo se esqueça de nós.

Leila Maria

- Infâmia (1961) com Audrey Hepburn

Um filme grandioso, roteiro ótimo, atores impecáveis, e acima de tudo um força nas tomadas simples que surpreende, e que me desculpe Quentin Tarantino, filme é isso, muita mais, bem mais sensacional que Django livre. Assistam e sinta o que é qualidade




segunda-feira, janeiro 28, 2013

DESMEMORIAS DE UM ASSASSINO

Eu um louro musico, estou saindo do prédio velho e em ruínas, um conhecido ponto de prostituição e lá uma puta dorme desmaiada. 
Pego um táxis que me leva até o bairro da Pituba, onde um músico louro tem um apartamento, pago e deixo o troco com o motorista e comento sobre minha apresentação no teatro Vila Velha, entro em um prédio pela porta da frente e depois de um bom banho e limpar todas as digitais no apartamento, retiro a peruca, observo o musico amarrado, ele me olha sem entender o bem que o faço, ele com a mesma altura e o mesmo porte, se parece comigo, falo docemente, lhe garanto que não sofrerá, faço parecer suicídio. Deixo a foto da mulher em suas mãos e saio pelos fundos, meu carro tá me esperando duas ruas depois, coloco no porta malas minha arma e vou direto para a praia, encontro uma boa mesa numa barraca e vou para a água onde mergulho e sinto invadir minha alma, uma forte onda de poder.
As pessoas são para mim neste momento luzes, e suas bocas soltam faíscas emocionantes e eu sou feliz e taciturno. 
A água gelada, traduz meu coração: sou um homem sem dor e em seu melhor momento,.
A linda jovem esposa, foi a minha oitava vitima. À noite irei para Sergipe, onde uma senhora de oitenta anos morrerá, ela tem saúde de ferro e os filhos não aguentam mais tanta espera, querem logo a herança, é essa a razão da minha existência: ajudar, fazer as pessoas felizes. Sou um homem bom e eficiente, resolvo problemas e me sinto bem. (TRECHO DE DESMEMORIAS DE UM ASSASSINO de ronaldo braga)

terça-feira, janeiro 08, 2013

HOJE EU QUERO FALAR DE UM LIVRO NÃO ESCRITO


Eu hoje queria escrever sobre um livro que eu não li e tenho certeza absoluta que ele nem mesmo chegou a ser publicado. E isso me inquieta, não o fato de eu não ter lido e sim de ele não ter sido publicado, por que, por que ele não foi publicado? Será que ele não foi nem sequer escrito? Ou se algum autor maluco o escreveu ele não foi aceito pelo mercado literário? O mercado determina a minha não-leitura desse livro ainda não publicado e provavelmente ainda não escrito.
Mas esse livro vem me fazendo pensar, primeiro na principal característica desse livro que é ser um não-livro e existir na sua não-existência, segundo o fato desse livro tratar de assuntos importantes para a minha vida e ainda o fato de ser de autoria, pelo menos para mim, desconhecida.
E assim hoje, eu resolvi que esse livro será amplamente discutido e para mim pouco importa o fato que ninguém leu ou mesmo viu o tal não-livro, mas eu já sei com certeza que ele não foi publicado.
Aí será o começo. Por que ele não foi publicado?

ronaldo braga

a todos os autores ainda inéditos, principalmente devido a escolha do mercado literário, que ninguém viu, ninguém conhece mais sabe demais o que ele quer:
vender verdades prontas

terça-feira, janeiro 01, 2013



O INICIO DO FIM OU DESMEMORIAS DE UM ASSASSINO

( PARTE DOIS)

Me concentro no trabalho e mentalmente refaço meus planos. A estrada é íngreme e cheia de buracos. Estou sentado no banco de trás e observo mais uma vez o homem que guia o carro, ele aparenta atenção total em dirigir, mas sei que o medo se instalou nele assim que me viu, to ficando por demais previsível, e o gosto azedo de cigarro se infiltra em minha alma.
Esqueço o homem e a minha atenção se volta para o campo verde em minha frente, logo-logo vamos encontrar a aridez da seca do sertão, estamos em Sapé e Castro Alves já se faz presente na falta de verde e sinais de mortes, estranho, eu um assassino não gosto dos sinais de mortes, nem mesmo na presença física dela, em minha frente somente ossadas de bois e outros bichos e urubus marcam a terra seca é o território do vivo e do morto. Só gosto da morte do homem, não como carne sou vegetariano, não admito se matar animais, somente em um estado de desespero de fome eu comeria a carne.
O homem diz, entre dentes, quase inaudível-
- Estamos muito perto -

Esqueço toda a geografia e sua economia, esqueço o gosto azedo grudado em mim e pergunto de forma doce, quase enamorado -
- Perto quanto?
- Meia hora. É logo após a cidade de Castro Alves.
E ele continua -
- O homem é um padre, ele estuprou a filha de um servente , coisa de dois anos. Ela já tinha sido vendida para o senhor Pedro e claro o meu patrão perdeu o dinheiro, mulher sem nada de nada vale, ele o Padre roubou o tesouro do meu patrão.
Sou forçado a rir, a filha de um servente, fugido da roça, deduzo, vem pra cidade e entre fazer massa para algum mestre, vende as filhas pros ricos, vende a virgindade, meu trabalho cresce, pois são tantas as razões para me contratarem. Fico feliz em ser um assassino, nunca faltará trabalho. Todos os bons homens sempre precisam de mim.
Mais doce ainda pergunto ao homem-
- Me aponte ele discretamente.
E continuo-
- Depois do serviço não voltaremos, iremos adiante, em direção a Feira de Santana, fazendo um circulo, depois de uma hora irei sozinho.
O homem me olha e com uma voz tremula-
- Meu patrão disse para seguir suas ordens, o senhor manda e eu obedeço-
Neste momento sinto uma raiva imensa daquele homem merda, “o Patrão me mandou obedecer”. Não gosto de homens que obedecem e nem dos que mandam, esse patrão morrerá também, estou ficando romântico e pensando e tomando decisões por certo e errado, estou morrendo.
A cidade fica para trás, o sol do meio dia crava minha espinha com gotas suarentas e pegajosas. Uma pequena capela surge em nossa frente, algumas crianças e duas velhas trabalham em frente da pequena igreja. O carro para, o homem fala –
- Não vejo o padre-
Não respondo desço do carro e me dirijo à mulher mais perto e com uma voz comovente e cristã, digo
- Senhora, onde posso encontrar o Padre Julião?
A mulher finge que não ouve e eu insisto –
- Por favor, senhora. É um caso de vida ou morte, aliás de morte mesmo, uma senhora em sapé ta morrendo e diz que só serve ele
Ela, aparentando dor e raiva e impotência e ainda sem dizer nada me aponta o interior da igrejinha branca, bela e realmente acolhedora.
Firmemente entro e dentro um homem de cinquenta anos acaricia uma menina de talvez. Não me importo com a cena, nada me importa, o gosto azedo sumiu, a menina deve ser irmã ou uma com a mesma sina da filha do servente. O padre se assusta e de forma autoritária berra –
- Lucinda desgraçada eu não disse pra não deixar ninguém entrar sem me avisar.
Eu apenas delicadamente pergunto –
- Padre Julião
E ele ainda eufórico e nervoso
-Sim e seja lá o que quer, saia e me espere lá fora, não ver que estou ocupado.
Retiro a minha arma e disparo uma única vez, a bala perfura sua testa e a menina corre, um cheiro de vida toma conta da igrejinha, sinto uma leve brisa e uma sensação de primavera e flores, o mundo parece sorrir, as vezes me sinto um homem que trabalha pro bem, Sacudo a minha cabeça, to enlouquecendo. Saio devagar passo pelas velhas que apenas fazem o sinal da cruz e agradecem sorrindo, ali fora sinto a mesma sensação bela e de festa, entro no carro e ordeno.
-- Vamos
O motorista suando demora para ligar o motor e eu passo a mão em sua cabeça e o encorajo. –
- Calma meu velho, calma.
O carro sai lentamente e depois em disparada, o velho coloca cem quilometro por hora e as sacudidelas faz meu cérebro pular. Por todo lado ossadas e cachorros magros e meninos nus e de barriga grande. A miséria ostenta o Brasil Carinhoso, ser politico é matar sem o medo da punição , eu mato, sou assassino e o Brasil carinhoso mata e é bondoso. Sinto raiva do mundo, de trabalhadores e dos políticos. 
Em minha frente uma placa gigante anuncia o combate da miséria e embaixo dela meninos e meninas quase mortos de fome e de doenças se arrastam e pedem comida, quase são mortos pelo carro em alta velocidade.
A cidade sumiu e agora somente galhos secos e alguns urubus e carniças iluminam meu caminho. Peço para o velho parar e disparo a queima roupa dois tiros em sua cabeça. O sangue alegremente dança por todo veiculo. Saio e abro o porta - malas e retiro a gasolina, jogo no automóvel e acendo o fosforo, o fogo ganha proporções gigantes e eu então me orientando pelo instinto ganho a direção norte.
Uma sensação de dor e felicidade toma todo o meu corpo. O gosto azedo já não incomoda mais, agora tenho raiva de gente, raiva de mim, só me resta andar, pois tenho um serviço que fará a minha raiva passar. Um politico é a minha próxima renda, o matarei na cidade de Feira de Santana e desta vez não preciso de guias, já tenho a foto do homem e seu nome gravado em minha mente. Depois espero voltar e matar Pedro, o homem que compra virgindades.
Penso em minha mãe, em meu pai e em todos os tristes seres que eu deveria amar e que deveriam me amar e sei que o mal não ta neles e nem em mim, o mal ta na cabeça, naquilo que pensamos ou não pensamos e de novo o gosto azedo invade a minha boca, qualquer hora dessa não prestarei mais para o meu trabalho, to virando um maldito ser humano.
Olho o céu e um azul que eu sei que só existe em minha cabeça me faz sorrir.
Verifico a munição, reponho as gastas e penso que matar é um aprendizado um oficio nobre e que poucos teriam capacidade, retiro frutas secas de minha mochila e me acomodo ao lado de uma ossada que parece de cabra e me alimento de vida e frutas.
Agora sim, sei que estou outra vez pronto para matar.


(obs: parte um em ronaldobragas.blogspot.com)