domingo, agosto 19, 2012

fragmentos


A poesia de Pedro Vianna

Fragmentos

ele pintava nuvens cinzentas para alegrar o azul monótono do céu
para romper a euforia dos gestos cada dia repetidos...

ele semeava cacos de espelho nas vias enviesadas de sua vida [...]
mas o tempo murcha torna-se algodoado desespera de recobrar sua consistência
recusa-se a avançar perde-se nos atoleiros lamaçais do esquecimento
geme como a hora que chega a seu fim
o nada mudado em ser vazio que se enche de outrem até extravasar
a morte não é outra coisa senão um… já não poder mais de aprender
[senão] arquivos transbordantes
lembranças espalhadas pelo chão
leito onde a morte engendra a vida
germinação teimosa
fragmentação desenfreada
tenacidade regressiva

jamais [de]ver voltar [a]o que foi sua vida
o que será [...]
o imposto de vida o preço a pagar o custo do poder de imaginar
invenção [...] eterna lengalenga que vale a ida sem volta
para a única verdadeira destinação conhecida

o desconhecido

nu como a pedra de lava do primeiro vulcão
frágil como a aurora da primeira jornada
poderoso como a precariedade do primeiro eu te amo

o desconhecido frente ao silencio que o rodeia
perdido nos confins do nunca dito
sofrendo cada fronteira franqueada
confessor das horas mortas apagadas pelos instantes sublimes
por este único segundo em que se troca o último olhar

e estranhos sobressaltos sacodem o partir
enquanto ao longe passam os tanques arrastando a desgraça esmagando o horizonte

e o estrupo do tempo prolonga-se o segundo torna-se século


de angústia e paixão
de uma realidade em verde-oliva



* Os colchetes e os pontos que figuram no texto não correspondem a cortes ou a supressões. Este longo
poema de 24 páginas foi voluntariamente escrito de maneira “fragmentária”, como uma reconstituição
de um texto descoberto com lacunas e versos truncados, permitindo assim criar ambigüidades e
duplos sentidos. O texto completo do poema, enquadrado por um pseudo-prefácio e um pseudo-postfácio,
pode ser lido (em francês) em : http://poesiepourtous.free.fr/poesiepourtous/poesiepourtous/FRG.pdf
                                                
1
Em francês, o adjetivo  généreux pode ser singular ou plural, o que significa que no original pode aplicar-se
tanto à “ele” quanto a “gestos”.
2
Em francês, o jogo de palavras é feito entre  “poder” (pouvoir) et “ver” (voir). Para restituir a ambigüidade, 
respeitanto as regências dos verbos, foi necessário optar pelo uso dos verbos “dever” e “ver”.
3
Em francês,  vert-de-gris quer dizer literalmente “azinhavre”. Mas o termo designou, por analogia de cor, o 
uniforme dos soldados alemães durante as duas guerras mundiais e, por metonímia, o ocupante nazista de 1940 a 
1944. Como a imagem do verso se refere a um golpe de Estado militar, pareceu-nos melhor traduzir o termo 
pour “verde-oliva”, preservando assim a conotação militar, esta cor sendo a dos uniformes do exército brasileiro



Fragments

il peignait des nuages gris pour égayer le bleu monotone du ciel
pour briser l’euphorie des gestes chaque jour répétés...

il semait des éclats de miroir sur les voies de traverse de sa vie [...]
mais le temps se fane devient cotonneux désespère de retrouver sa consistance
refuse d’avancer se perd dans les fondrières bourbiers de l’oubli
gémit comme l’heure qui touche à sa fin
néant mué en être vide qui s’emplit d’autrui jusqu’au trop plein
la mort n’est qu’un…
n’en plus pouvoir d’apprendre
[qu’] archives débordées
souvenirs éparpillés sur le sol
couche où la mort engendre la vie
germination entêtée
fragmentation débridée
ténacité à rebours

ne jamais [pou]voir revenir [à] ce qui fut sa vie
ce qui sera [...]
l’impôt sur la vie le prix à payer le coût du pouvoir d’imaginer
invention [...] éternelle rengaine qui vaut l’aller sans retour
vers la seule vraie destination connue

l’inconnu

nu comme la pierre de lave du premier volcan
fragile comme l’aurore de la première journée
puissant comme la précarité du premier je t’aime

l’inconnu face au silence qui l’entoure
égaré aux confins du jamais dit
souffrant chaque frontière franchie
confesseur des heures mortes effacées par les instants sublimes
par cette seule seconde où s’échange le dernier regard

et d’étranges soubresauts secouent le départ
tandis qu’au loin passent les chars charriant le malheur écrasant l’horizon

et le viol du temps se prolonge la seconde devient siècle


d’angoisse et passion
d’une réalité en vert-de-gris


* Les crochets et les points qui figurent dans le texte ne correspondent pas
à des coupures ou à des suppressions.
Ce long poème de 24 pages a été volontairement écrit de manière “fragmentaire”,
comme une reconstitution d’un texte découvert avec des lacunes et vers tronqués,
permettant ainsi de jouer avec des ambiguïtés et des doubles sens.
 Le texte complet du poème, encadré par une pseudo-préface et une pseudo-postface,

peut être lu à : http://poesiepourtous.free.fr/poesiepourtous/poesiepourtous/FRG.pdf


pedro vianna
Paris, Albarraque, Paris,
in Fragments


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