segunda-feira, junho 25, 2012



Santa Sangre de Alejandrod Jodorowsky  1989




domingo, junho 24, 2012





Este texto já foi postado aqui e agora ele volta em um são joão onde a justiça que trata adultos como crianças resolveu proibir as espadas de rasgarem os ares cruzalmenses, deveria a justiça proibir a corrupção que é alta no meio judiciario.

leiam e lembre.

 A fogueira, os amores e as espadas de São João




O sol ainda não nascera e eu acordei e me levantei de um pulo, era 23 de Junho de 1972 e eu tinha muita coisa pra fazer.
Fui até o Karrate, comprei pão e manteiga, já em casa observei minha mãe acender o fogão e preparar o café, tomei o meu com pão e sair e fui pro trabalho de meu pai e ali fiquei até o final do dia.
Foi o dia mais longo de minha vida, eu completamente afobado e somente pensando em sair na noite gritando:
São João passou por aqui?
Era sempre garantido que em cada três casas duas atendesse. Eu,LauBeneuFau (o sofá) e o Nem, duas horas depois já bebados, trocávamos as pernas.
Depois de tomar mais um licor, saímos da casa do senhorGodofredo, localizada na praça Senador Temistocles, e enfrentamos a grande batalha de espadas.
Seu Sampaio colocava fogo em mais uma e o assobio ganhou a noite e nos fez correr pra trás de uma árvore. Ali protegidos a gente gritava a todo pulmão:

- É agua. É agua. É agua.
Estávamos todos atentos e assim que uma daquelas espadas se enroscava em alguma fenda corríamos e pegávamos e jogávamos de volta pro lugar de origem. Essa festa era de alegria e alguma morte, mas nem somente pelo álcool, e sim e principalmente a raiva e a impotência de alguns que se utilizavam deste momento festivo e se vingavam de algum desafeto.

Toda a cidade estava rodeada de fogueiras, casas ricas, casas pobres.
Havia sempre uma fogueira acesa, um licor de jenipapo e uma laranja já descascada pra quem chegar bater palmas e alto ou baixo gritar:
- São João passou por aqui?
A cidade fervilhava alegrias e prazeres, e em cada cantinho casais faziam crescer todas as empolgações. Era barulhenta a noite, e as promessas, os urros e os gemidos lutavam contra os gritos de meninos e meninas de todas as idades correndo atrás de uma espada fumegante a subir e a descer e a bater em casas e arrombarem portas e vidros e janelas.
A minha cabeça já completamente tonta e cheia de zunidos, pensava na rua Assembléia de Deus, que ficava longe do centro e bem junto da pista, mas ainda era cedo e eu precisava ficar mais bêbado e então ser o homem de ferro e olhar aquela menina e quem sabe beijá-la. Eu tinha um plano e só era preciso chegar perto dela, eu o olharia como o Django olhou aquela morena no ultimo filme que eu tinha visto e de repente e sem aviso prévio daria um beijo bem na boca e então o mundo todo seria azul, verde, lilás e quem sabe apenas vermelho como as brasas das fogueiras que impiedosamente queimavam lenha e iluminavam fielmente todos os bêbados.
Mas ainda era cedo e eu apenas um menino de 13 anos e bêbado não o suficiente.
Era meia noite e depois que as espadas começaram a rarearem o grupo então ganhou a direção da pista, e por sorte eu tinha encontrado a turma do Coelho, irmão da mulher dos meus sonhos e então o grupo agora maior era somente esperança de comer queijo, bolos, galinha assada e mais licores, eu somente pensava nela que na casa deveria sorrir e me ignorar como sempre.
Coelho foi amável e atencioso e ao chegar me avisou:
- Cara a minha mana te detesta, acha sua poesia ruim e tocou fogo na ultima que você me mandou entrega-la.
Ao ouvir isso em vez de desabar eu sorria e pensava:
Ela me ama e de verdade, só que não sabe ainda.
O Coelho preparou um prato com tudo o que tinha na casa, algumas espadas corriam pelo passeio queimando o chão delicadamente, todos corriam pra tentar segurar uma, eu ali somente pensava nela e a esperava e quando ela veio eu quase desmaio, como estava bela naquele vestido verde com linhas azuis e detalhes caipira. Ela me olhou e simplesmente chamou um nome e um rapaz que devia ter 18 anos apareceu a agarrou e a beijou.
Eu bebi quase que um litro de licor de pêssego, e depois um outro de jenipapo, comecei a passar mal e vomitei bem em cima do sofá da casa de minha amada, o pai dela me levou até o banheiro e depois nos mandou embora de forma dura e educada. No passeio segurando uma espada que acabara de acender o Coelho ria e ria e ria, ele não tinha me dito que o tal do fora da lei estava na cidade e eu então fui dormir e ali encontrar toda a felicidade que uma cidade inteira me negava.
Hoje trinta e sete anos depois, eu me lembro desses momentos e eles me parecem inexistentes, pois já não há mais fogueiras acesas e os corações frios se aquecem na base de porradas e mentiras, a espada já não podem mais deslizar delicadamente e os bêbados sangram na noite depois dos bolsos revirados e as portas agora fechadas e os ouvidos surdos.
Aquela frase mágica já não tem mais nenhum efeito e ao contrário pode ser um grande perigo, pois de dentro dos lares cristãos ouvimos algumas vezes vozes muito zangadas:
- Vai roubar o diabo filho da puta. São João não passa por aqui.
Bom se você estiver em Cruz Das Almas, no dia 23 de Junho no século 21, não diga essa frase, pois o pior pode acontecer.
-São João passou por aqui?
um dia magica e que embalava meus sonhos, hoje na melhor das hipóteses piada ou meramente lembranças.

ronaldo braga
para aquela cruz das almas que um dia eu amei

quinta-feira, junho 07, 2012

Se Gozou Pague


Ultimamente, ele tem feito um esforço sobre humano para continuar seguindo rumo ao tão sonhado objetivo, sumo-utópico-niilista, prosaico e um tanto quanto informal, desimportante aos olhos do mundo. Não há necessidade de sua função e caminhada, ou se há, longe objetivo, caminho torturante, vulgar... esquerdista, sem porto-anseio para soma, ou poucos portos-anseios para a soma. Paga pelo gozo que teve há quase dez anos e ao decorrer deste manifesto procura o culpado.
Analisando a vida em retrospecto, procura com a mesma força tenaz dos espíritos inquietos o dia em que se deixou delirar, vislumbrar uma possibilidade longínqua, que se permitiu gozar ao ver o que foi mágico, o que poderia ser encantatório aos seus olhos. O que faz passa há um patamar de constância que incomoda todos os seres vivente do mundo de meu deus, logicamente por não saber a necessidade antropológica de suas atitudes. Tudo se torna uma verdadeira comédia dos netos do homo erectus, quando, ao necessitar de uma forte relação monológica com seus condescendentes, teme, desconfia, maltrata, queima em fogueiras de nova era o que se necessita dar em troca como se vêm nas cirandas, em tempos ainda menos remotos, medievais. 
Perdido na estrada da procura depara-se com o que para ele era origem. A ação de contemplar, em dia de seus quinze anos, a entrada de uma luz, a entrada de pessoas, duplos dele e dele mesmo, fez surgir em sua mente fenomenal a possibilidade de estar ali, comungando... não sendo ele. O seu olhar se preocupou com o simples treinamento do olhar. Seus olhos, encharcados de vitamina A, passaram a ansiar a vivência de uma composição. 
Neste dia de ação contemplativa refletiu consigo mesmo que o necessário seria estar com seus múltiplos duplos fazendo duplos de outros. Seus olhos não piscaram. Sua barriga produzia a sensação típica dos que têm medo, sua boca a toda hora entreaberta. A visão proporcionou o gozo fatal que o levaria para arte das relações humanas, a arte da pessoalidade, a arte da luta contra o ego, contra ele, contra os seus duplos que estavam ali, em sua frente, em seu olhar, no seu extremo e simples dom, naquela época de olhar
Sem nenhum fino treinamento, naquele dia de contemplação e naquele espaço escuro que agora se iluminava ele matou tudo o que era ele, o que tinha construído durante quinze anos e seu enterro aconteceu logo quando tudo voltou a escurecer. Percebeu que ele precisa ser muitos, ser duplos de outras crenças, precisa das relações. Ele precisava da complexidade do informalismo, no artificialis da techné, precisava que alguém varase a sua alma colocando-a em transcendência das relações, do humano, da ferida do mundo. Precisava provocar o auto conhecimento que tinha alcançado em outros seres artificialis. O mesmo autoconhecimento provocado pelo gozo, pelo olhar pedindo treinamento.
Hoje, surra a própria alma pelo desgaste das relações, pela não existência de porto-ânsia para a soma e pela obcecada ânsia sua em seu objetivo sumo-utópico-niilista. As almas parecem não se entranharem, mas o somatório ainda não é crível e viável. Deprimido, grita que quer uma ideologia. Culpa do dia contemplativo que, naquele espaço escuro se ouviu um "Se gozou, pague!", em alto e bom som. Pago por isso todos os meus dias e não tenho vislumbre de largar meu quinhão. E ao mesmo tempo que culpa Ronaldo Braga por aquele dia contemplativo de 2002, agradece pelo autoconhecimento, pela vida que foi dada e por caminhar combatendo os seus duplos e sendo combatido por outros. Por causa da sensação desse dia ele continua caminhando.
Diego Pinheiro

sexta-feira, junho 01, 2012



 Critica ao livro do poeta Linaldo Guedes Metáforas para um duelo no sertão, publicado pela editora Patuá.



DUELO E LINGUAGEM NO SERTÃO QUE SONHA O MAR

André Ricardo Aguiar


Não se deve ter medo de abrir um livro, ainda mais este artefato estranho: o livro de poemas. Por extensão, não se deve sugerir aqui que o poeta fala uma linguagem tão cifrada, nem aérea demais, nem abaixo da terra, das raízes intercambiáveis só para os acadêrmicos. Não, poesia ainda é comunicação. Claro, linguagem elevada ao potencial máximo de expressão, musicalidade, ritmo, estas geografias contam muito. Mas não é só isso. Poesia é sortílégio, cabala, runa. Poesia é tempo, memória, dimensão familiar e arquétipa. E o poeta, um homem qualquer que também ama, sofre, descobre, analisa, perfura, voa. O projeto de Linaldo Guedes na feitura deste seu Metáforas para um duelo no sertão, publicado pela editora Patuá é um apanhado de peças que traçam sua genealogia à maneira de um mestre do entalhe: quer gravar na madeira, no chão e na pedra sua odisséia particular pela família. A palavra “sertão”, no entanto, expande seu sentido em várias rotas: a do matuto preso à paisagem de origem, do retirante que vai em busca de outras fontes, outro modos de viver e a do ser duplo, campo e cidade, que olha a tudo com espanto e com competência no artesanato de viver, sobreviver.

Linaldo Guedes tem uma obra que acompanha um ciclo já muitas vezes apontado como recorrente em poetas inquietos. Parte de um ponto de aproximação com a sua voz, ao estabelecer, no seu primeiro livro Os zumbis também escutam blues (1998), a procura de seu labirinto de referências culturais, existenciais. Em seguida, publica Intervalo Lírico (2005), mais consciente dos caminhos e criando novas possiblidades, agora com uma mirada mais coesa, de temário amoroso, mas sem regras, criando aqui e ali pontos exteriores.

Agora, com o mais recente trabalho, como que faz uma súmula de suas linhas mais pessoais, Linaldo coloca seus artefatos líricos em várias direções: a terra (e o exílio dela), a herança familiar, os temas amorosos, sua visão de mundo, tudo isto compondo um painel sincero e de espanto, um espanto múltiplo onde a linguagem parece se mover com uma  liberdade consciente do caminhante. Em outros casos, adota um rigor, ma non troppo. Em todo caso, é um composto de muitas influências permeado de ironias, irreverências, provocações. Ecos de boitempo com alguma poesia drummonianos. O registro lírico pode nos dar peças como 2 velhos:

sentados
na calçada

jogam conversa fora

é fim de tarde!

e às vezes
só querem jogar olhares fora

(o silêncio fala
sobre a vida que já veio)


Linaldo Guedes é um poeta boêmio, um companheiro que numa mesa pode ser visto com Vinícius e Bandeira entre copos. O flagrante não destoa, porque ele faz um uso afetivo do verso livre como um telescópio manso, impregnando sua poesia de um olhar de viés: ele vê por sugestão e alumbramento aquela zona magoada da memória, onde poucos arriscam. Não tem medo de soar naif, nem antiquado. Sentimos como se litoral e sertão estivessem ali, na linguagem, ora abertura, amplidão, ora fechamento, foco, o flagrante da intimidade devassado pelo olhar pouco inocente do exilado, do livre-pensador, do desiludido que voltou a descobrir a felicidade das coisas simples, urbanas ou não.

O motivo amoroso é reincidente, como aponta no prefácio o poeta Antônio Mariano. Lubricidade e malícia. Arroubos, paixões: “Amor quando chega / não faz toc toc toc / /  simplesmente derruba a porta / invade nossa aorta”.  Há um bom apanhado de poemas deste calibre, muitos com imagens que reforçam as motivações que o poeta persegue mesmo com os riscos do lugar comum. Coisa que é herança que nenhum abismo intertextual há de negar. Poesia é ponte elevadiça.

  Metáforas para um duelo no sertão indica caminhos possíveis. Aliás, depois de uma lacuna de muitos anos, a centena e uns quebrados de poemas dá a sensação de testamento e resgate. Ou a marca que não sai:

“sou um homem marcado

marcado para doer

gado preso no curral
quando não, abatido

comendo Baudelaire
na erva daninha do meu capim”


Poesia de miradas, feixe de caminhos, sertão e mar. O poeta Linaldo Guedes resiste assim, fingindo o tempo em que acredita e por ele transformado. Todo lugar, acidentado ou plano, é terra fértil para a linguagem. Quem tem sua lavoura que a produza e faça dela o melhor uso. Este já a fez.

(Texto publicado no jornal Contraponto, de João Pessoa, edição de 01 de junho de 2012. André Ricardo Aguiar é poeta paraibano)

Em tempo: O livro Metáforas para um duelo no sertão, de Linaldo Guedes, pode ser adquirido no site da editora: www.editorapatua.com.br