quinta-feira, dezembro 22, 2011

A menina queria ser como as outras.








A menina era linda, tinha um belo sorriso e era muito delicada, mas ela não podia ouvir falar em sua mãe, ouvir falar nela cortava todos os anéis dos anjos caídos e fazia transbordar os uivos secretos de sua alma. A MENINA QUERIA SER COMO AS OUTRAS, TER UMA MÃE QUE LHE RECLAMASSE, encontrar a comida na mesa no horário e mais ainda encontrar comida. Mas a menina desabafava com os demonios e dormia em gelidos sonhos envoltos em medos e sabia que o que era certo era a sua vergonha por aquela mãe.
Naquela manhã cinzenta de abril, a menina acordou os diabos e ainda sorrindo, sua beleza desaparecia enquanto seus olhos avistava sua mãe no computador. Naquela manhã tudo poderia ser diferente, o sol era distante, mas era belo o frio que delicadamente se infiltrava nos lábios da menina, um cinza quase marron tomava conta dos ares e a menina disparou palavras que para sempre lhe magoou. Chorando e ainda a espera de um abraço a menina gritou:
- Você é uma vagabunda, você é um lixo, um nada, eu sou feliz até lembrar que sou sua filha.
- Filha, não fale assim, você não gosta de você, por isso que fala assim, por isso que não estuda, e por isso que arranja esses namorados traficantes. Mas você é uma menina boa...
- Cínica, foi você quem me prejudicou, além de tudo é uma tremenda cínica- A mãe então comenteu um erro, rindo passou a mão no cabelo da menina e disse
-Você é uma completa imbecil- A menina sentiu o mundo escurecer e sem pensar arremessou o cd de chico buarque em sua mãe e acertou em cheio o pescoço e então seu belo sorriso ficou calmo e mais belo e ela sentou-se perto da mãe e começou a cantar cantigas de ninar enquanto sua mãe tentava em vão dizer alguma coisa, a menina calmamente colocou o cd ainda sujo de sangue no aparelho, acendeu um baseado e em um sorriso terrificante ouvia chico burque cantar:
- Pai afasta de mim esse cálice.
A menina foi ficando cada vez mais bela e olhava a sua mãe que imovel na sala era apenas um maravilhoso vermelho e a menina passou primeiro os dedos no corpo gelado de sua mãe e depois as mãos, e mais adiante todo o seu corpo. E como se agora tudo fosse para ela muito claro, a menina foi buscando o solo e aos poucos estava na posição fetal e com os dedos escreveu no chão da casa com o sangue materno :
- Eu te amo mamãe.

ronaldo braga


esse texto é antigo mas eu senti uma tremenda necessidade dele aqui de novo
rb

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