segunda-feira, outubro 10, 2011

ARBITRIO, a peça imperdivel

Arbítrio, peça teatral com direção e encenação de Diego Pinheiro e dramaturgia de Bárbara Pessoa, é um convite a um mundo estranho e mesquinho, o mundo de uma matriarca que tenta a todo custo manter a tradição cristã dentro de sua família, mesmo diante da gravidez de sua filha de forma não convencional e pecaminosa para os princípios rígidos do cristianismo fundamentalista.
Um enredo aparentemente simples, mas que, aos poucos, se revela complexo e cruel, com a velha mãe afirmando o poder do homem (marido/filho/neto) que, na verdade, é manipulado e conduzido por ela para as realizações de seus desejos e da afirmação de seu poder.
A direção conduz a peça como um jogo de gato e rato e, nesta bestial e econômica existência, cresce cena à cena a tensão entre os membros da família. A relação familiar é fraca e determinada por valores morais, mas esconde desejos ocultos que, sob pena de uma degeneração total da família, se tornam tabus. Nessa realidade religiosa sufocante e sufocada, a mentira, a falsa moralidade e a crueldade moldam os “gestus” e os sentimentos de todos os envolvidos nesta tragédia da incompreensão e do medo.
A encenação coloca a platéia não como um observador que espiona a peça por um buraco de fechadura, antes como fantasmas que assistem a tudo de perto e nada podem fazer além de acompanhar e refletir sobre a religiosidade marcada pela doença da mãe.
A naturalidade das personagens se fortalece em um cenário artificial, natural e não realista, no qual a escassez do mobiliário fortalece a teatralidade em detrimento de um aparente realismo desenhado no fato do local da apresentação ser em uma casa velha e que bem poderia ser a própria casa das personagens. A genialidade da encenação/direção acontece justamente porque, apesar do local da apresentação, saímos dali com a certeza de que aquelas personagens existem em uma realidade exclusivamente teatral.
O figurino tem por objetivo nos transportar para o mundo interior das personagens, pois não são roupas o que elas vestem, e sim dores, medos e defesas. A iluminação realça as almas transtornadas daquela família que, vivendo em um passado nojento e infeliz, busca no isolamento social, em uma casa cerrada sem ar e nem sol, a manutenção de uma pureza que nunca existiu.
A movimentação da platéia por entre os cômodos e as cenas sempre em meia luz reforçam a idéia de fantasmas que tudo vêem de perto.
Não existe personagem principal, nem centro e nem periferia e sim uma batalha que não tem vencedores, na qual a dor e o ódio são sustentados por uma incapacidade de viver.
Cada cena vai cortando, como um golpe de espada, toda a possibilidade de solução que não seja o fim trágico do assassinato e do desespero. A família entrecortada pelo medo e por desejos impotentes, tem no imperativo dos acontecimentos presentes uma volta forçada ao passado e cada vez que tudo é escondido, tudo volta em um confuso acerto de contas de um passado mascarado a ferro e fogo e de um presente torturado e torturante .
É torturante a atmosfera para a platéia e é uma luta desigual das personagens com suas próprias insignificâncias, tentando a todo custo um auto reconhecimento que só é mantido na crueldade de cada um consigo próprio.
A peça teatral ARBÍTRIO é antes de mais nada uma realidade ficcional e, como tal, se afirma na própria forma de andar e de falar das personagens. Os atores estão a todo momento, com sua forma de interpretar, a informar para o público:
- Aqui tem muito súor, tem uma montagem, uma artificialidade, aqui é um jogo e cada um sabe o que vai fazer, não somos as personagens e sim as personagens são a nossa visão de mundo e estamos mostrando como vemos esse mundo e agora queremos saber como você vê o seu próprio mundo. Até onde você, platéia, sucumbe em seu próprio veneno?
Posso afirmar sem medo de errar que ARBÍTRIO é uma peça que não pode ser perdida e que é, antes de mais nada, teatro universal e não teatro baiano.
É uma peça que não passará em branco.


ronaldo braga

SERVIÇO ARBÍTRIO
Um espetáculo do Teatro BaseDireção: Diego PinheiroAssistência de Direção: Sandro Souza e Ricardo SantanaCom Alex Barreto, Laís Machado, Laura Sarpa, Luísa Muricy, Naia Pratta e Yuri TripodiDramaturgia: Bárbara PessoaTextos: Federico Garcia Lorca, Calderón de la Barca, William Shakespeare, Guimarães Rosa, Fiódor Dostóievski, Johann Wolfgang von Goethe, Gilles Deleuze, Sto. Agostinho,Voltaire, Diego Pinheiro e Bárbara PessoaRealização: Teatro Base - Grupo de Pesquisas sobre o Método do AtorQuando: De 30 de setembro a 30 de outubro, sexta a domingoHorário: Sexta 20 horas; sábado 18 e 20 horas; domingo 18 horasOnde: Casa Preta (Rua Areal de Cima 40, Dois de Julho, Centro, Salvador (71) 9967-1342)
Quanto: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia)
Maiores informações: www.oteatrobase.blogspot.com / oteatrobase@gmail.com

Um comentário:

TEATRO BASE - Grupo de Pesquisas sobre o Método do Ator disse...

Muito obrigado, Braga!!!
Que ARBÍTRIO tenha muito chão pela frente.

Abraços
Diego Pinheiro