domingo, setembro 25, 2011

Brasileiro: ser ou não ser? Militar-limitar? Eis a questão!


Vou escrever o que penso sobre o assunto e desde já sei que serei atacada, pois sou branca e por isso mesmo tenho limites bem delimitados para falar sobre. De certa forma estou de acordo quantos aos limites delimitados, mas como venho trabalhando minha ilimitação trato de transcender essa barreira e exporei aqui o que penso sobre. E obviamente estou falando em uma posição muito cômoda, pois eu nunca sofri na pele várias coisas: eu nunca sofri na pela o racismo que negros e índios sofrem, nunca senti na pele o que homossexuais, travestis, sofrem, que meninas e mulheres violentadas pelo desconhecido, pelo conhecido, pelo marido, tio, irmão, pai, avô, amigo, cunhado, padre, sofrem, de crianças submetidas ao trabalho e a exploração, de mendigos que sofrem por frio, de pessoas que passam fome, enfim, em uma séria de questões eu não sofri na pele.
Mas como todos vivemos num mesmo espaço e tempo, se pensarmos que tudo está interligado e que ninguém sai ileso nessa relação, ou seja, de uma forma ou de outra, estamos todos no mesmo barco: cada um tem sua razão para estar no barco, uns afundam, uns saltam, e muitos não desistem, como eu, que sou brasileira e não desisto nunca. Não desisto nunca dos valores universais, tão esquecidos hoje em dia.
A meu ver o atraso está nisso: ao esquecimento de valores universais, de princípios básicos. Estes que são comuns a todos, que nos une. Porque por todas as causas que lutamos, cada qual luta por seu tal, elas só nos desune. Porque a luta de um é sempre contra o outro. Estamos em eternas guerras, e isso não é evolução.
No Brasil, por exemplo, ainda nos falta uma questão básica: não temos sentimento de pertencimento, por terra, pelo país. Nossa identidade nunca foi definida e cada vez mais se torna mais confusa. A questão é, para além de futebol, samba e carnaval, ninguém quer ser brasileiro. O branco sempre busca a sua origem lá na Europa, luta pela dupla-nacionalidade, é no nome ou no tataravô que ele nunca conheceu, enfim, ele precisa encontrar a sua razão de ser branco lá na Europa. De tal forma, que o branco não representa o brasileiro e inclusive este se nega ser representado como tal.
Assim também passa com o negro, que também busca sua razão de ser negro na África, seja no nome, numa origem familiar, na cultura, na religião. Reivindicam para si o direito de se auto afirmar como afro, afro brasileiro. De tal forma, já não existe mais o negro, e sim o afro brasileiro, ou seja, é melhor ser afro do que ser negro? Não.?! É apenas uma questão de identificação, assim como o branco se identifica com a Europa o negro se identifica com a África, faz sentido. O que não faz sentido para mim é porque não assumir isso como uma coisa/identidade brasileira? Eu sou negro, pois no Brasil existem negros, então não sou afro, sou brasileiro e negro. Sou brasileiro e branco. Sou brasileiro e índio. Sou brasileiro e caboclo. Sou brasileiro e mestiço, etc., etc.
Somos o resultado de uma tríplice mistura, ou seja, uma genética purificada em três continentes, que resultou no povo que somos nós. Não sei se tem povo igual, melhor não tem, mais purificado não tem. Já dizia Darcy Ribeiro. Mas nós lutamos para ser estrangeiros em nosso próprio país, nosso próprio país? E para mim quando cada qual está lutando por seu quadrado isso é um atraso! Pois, se não partimos de princípios básicos não podemos avançar. Por isso a revolução nunca chega, mas a reparação ainda que tarde sempre chega. Queremos resolver o imediato, e é digno, aliás, quando se tem fome o mais importante primeiro é comer, depois vem o depois. Não é mesmo? Basta algumas horas de fome para se chegar a esta conclusão.
Pensar em ser “brasileiro” com todas as diferenças que elas existem é pensar universal. Mas porque não conseguimos unir-nos pelas causas universais? Porque não pensamos universalmente, não vivemos universalmente. Construímos desde sempre a individualidade. Aprendemos desde cedo “ado ado cada um com seu quadrado”. Aprendemos desde cedo lutar por território, cada grupo no seu próprio espaço. Aprendemos desde cedo que somos melhor que os outros, mesmo que sejamos derrotados ou vencedores. O derrotado é o oprimido que luta para tomar o lugar do opressor. E vice-versa, é um ciclo vicioso. E não avança. Avançamos neste processo de individualidades, onde os princípios são restritos a cada grupo. A cada minoria-maioria. Fizemos-nos de tal forma que todos ou ao menos quase todos somos oprimidos e opressores numa só pessoa, e muitas vezes não nos damos conta. E quando uma luta se faz já deixando de lado o universal, aí está todo o atraso, pois suas preocupações – todas são legítimas – são limitantes, pois esta é incapaz de aceitar o outro, o bárbaro.
A militância é necessária, justa e legítima. Todas, pois todas têm suas razões. Defendo a liberdade total e plena, ou seja, o nazista pode pensar e expressar suas idéias, assim como o skinhead, os diversos movimentos negros, afros, indígenas, feministas, homossexuais, travestis, católicos, árabes, judeus, comunistas, capitalistas, enfim, todos têm o seu direto de existir e se expressar! E todos existem e lutam desde sempre entre si! E vão continuar existindo e lutando entre si. O que não dá pra engolir e aceitar é quando um skinhead mata um punk, quando um índio é queimado vivo ou assassinado por fazendeiros-latifundiários, quando os nazistas e os fascistas (qual é a diferença entre ambos?) exterminou milhares de judeus, negros, homossexuais, mulheres, comunistas... O que não dá para engolir e aceitar é que até hoje uma sociedade dominante ocidental branca cristã patriarcal vêm metendo pau em todos que estão fora do seu círculo. E assim estamos todos no jogo dos círculos. Não nos unimos, e lutamos por nossa individualidade, nosso espaço, nós entre nós, o outro é bárbaro. E por isso nunca vamos avançar já que fechamos cada vez mais nossos círculos de idéias e é por isso que muitas vezes o militante é limitante.
Hitler, Stálin, Che Guevara, Fidel Castro, e muitos outros que defenderam suas idéias “custem a que custar” são grandes exemplos dos militantes limitantes. Todos estes lutaram acima de tudo pelo poder sob o princípio de autoridade no qual o seu projeto de sociedade é o melhor. Para defender suas idéias estavam dispostos a tudo, a matar qualquer “inimigo” que estava em seu caminho. Por suas idéias revolucionárias não pouparam derramar sangue, e todos acreditavam que o faziam por um mundo melhor, que não é o do outro, por uma revolução, que não é a do outro. Este mundo melhor também não é o “meu”, esta revolução também não é “minha”. E poderá ser um mundo “nosso”? Mesmo com tantas diferenças? Não enquanto estivermos travadas nas lutas individuais, enquanto tivermos que nos afirmar negando o outro.

Maíra Castanheiro
Cidade do México, 14.09.2011 às 03:05 – ao som de Portishead.

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