sábado, agosto 27, 2011

a pedra: signo primeiro,







abre-se o baralho
sobre a madeira da mesa
repousa o fardo das cartas
descansam os dardos do acaso
na memória de uma madrugada de sábado
avoa um verso perdido
talhado num guardanapo
esquartejado em uma ressaca de quinta
sem esperança de sábado
no bar do Arlindo
na esquina um castelo
– um esquecimento um atalho –
dois jovens poetas abismados
sob o símbolo da onça parda
o obscuro e o claro
o silêncio e a algazarra
numa ânsia de alcançar
as cismas do outro lado
a pedra como destino
a lua dos afogados
nas torres da fortaleza
nem tudo é somente saudade
nem todos são sempre fantasmas
o tempo esgrima com a tempestade
a mais metafísica de todas as batalhas
o sono do morcego no teto
a sinuca solitária
faíscas de uma distração
recém saída de um cárcere
ganhando a forma de um cactos
fossilizado no pátio
antes que pisquem os olhos
se reproduzem em corujas
em espantados pios de pássaros
em flechas desnorteadas
ressuscitando o instante
no qual com perícia auscultávamos
com sagacidade rapina
e devoção verdadeira
os espasmos encardidos da pedra
suas convulsões imprevistas
seus movimentos alérgicos
imersos na atmosfera da lenda
nos perdíamos no firmamento
e o único que desejávamos
era tocar com a fúria dos astros
o corpo insano da pedra
a senhora das mil astúcias:
sua fenda, seu silêncio, suas pétalas...

nuno g.

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Braga, segundo o poeta, "as pedras cantam". Poema selvagem e belo.Abraço.