segunda-feira, agosto 22, 2011

CARA DE ESCORPIÃO


20 paus era tudo o que eu tinha no bolso. Fui a um sebo e ataquei o vendedor de primeira. Ator e método de Eugênio kusnet? Não,não temos. Então um cara que eu fingi que não vira na entrada.
- E aí cara como vai!
- Me deixa - disse eu - Não gosto de canalhas fidalgos, puxa saco de político, defensor de corrupto.
- Eu gosto de você.
- Não falo com falso cara de escorpião.
- Você é injusto, eu lhe tratei muito bem quando nos conhecemos.
O cara fizera parte do movimento poetas da praça em 1979 e eu também. O medíocre movimento acabara.
O cara dera entrevista para jornais e esquecera de citar o meu nome na relação de poetas. Os merdas me esqueceram, eu fiquei feliz.
- Eu sou o mesmo, eu gosto de você.
- Aí eu perdi a paciência e já com o diabo na mente retruquei.
- Aqui eu não parto a tua cara, mas lá fora eu posso conversar.
O dono do sebo me olhou como dizendo quebra a cara dele.
- Eu não brigo, sou poeta.
Então eu senti um nojo danado daquele falso poeta cara de Jesus e olhei em frente e vi notas de um velho safado, e era novo. O velho buk.
Respondi irado e determinado.
- Me deixa em paz senão eu vou te dar uma surra. O cara rapidamente foi para a sua mesa e eu para o vendedor.
- Quanto custa.18 paus. O onibus 2 paus. Comprei e aí me lembrei que eu estava esperando uma jovem gostosa atriz. Ela teria que pagar os cafés, eu não bebia mais álcool.
De primeira li a primeira página era sobre um jogo de cartas e terminava com o buk levando uma tremenda surra e acordando vomitado e de ressaca. Eu quase levara uma. Ela chegou. apertei seu corpo ao meu. Ela prolongou o aperto. Eu estava feliz e esquecera o imbecil cara de Jesus. Infelizmente papel não recusa palavras. O mundo está cheio de merdas que se autodenominam poetas. Uns boçais com discurso bonito para as meninas caras de cús enraivados e abandonados. Elas adoram merda no papel e copiam frases e repetem por aí.
Eu estava ali com uma garota de 23 anos gostosa bonita que cheira a mulher que gostava. o mundo agora era uma merda boa e confortante. Ela falou de seu namorado, de seus projetos e acertamos fazer juntos uma peça do Bergaman: cenas de um casamento sueco.
Eu com 47 anos casado e fiel. No palco com ela meu pensamento poderia ser mais ousado, mais ousado ainda. Lembrei de M.B uma grande amiga e voltei a me ocupar da bela mulher que eu ao meu modo gostava muito. Eu sou fiel e casado com uma bela mulher senão. Nem quis pensar o que ela achava de mim, vai me complicar. Tomamos um café, o meu sem açúcar, depois outro e outro. O cara de bosta de político e de Jesus disse de lá da sua mesa para mim.
- Você já foi visitar senhor X.
Eu nada falei e tive que explicar todo o acontecimento para Rita. Fiquei zangado de novo. Senhor X um reles poeta medíocre estava morrendo, ORA PORRA que morra, mas eu respeito a morte e não tenho piedade nem pra babacas. Não iria lá e dizer.
- Aí senhor X morra porra, veja se tem cabimento.
Ficava de longe e nem pensava na porra da morte dele. Voltei a bukowski, falei de melodia de agosto e de um grande poeta que eu descobrira, o Luciano Fraga, e fiquei feliz de novo. Ela me deu de presente um livro de Bergaman e um beijo. Eu estava nas nuvens. Babacas podem existir à vontade. Como é bom estar na merda desse mundo.
O cara de Jesus foi embora, o cheiro do lugar melhorou e o cheiro de Rita, a jovem atriz inteligente e gostosa dominou meu nariz e todo o meu existir, eu era a porra de um homem safado. Hein buk: sabemos viver.
Decidimos, eu e a Rita, ir visitar senhor K um poeta de verdade. Um cara que dava um duro danado pra pagar as contas, não entregava os pontos, um poeta que escrevia a melodia das ruas, do submundo e de toda a sinceridade da merda do viver e tinha beleza e ritmo. Ele desloca a bobagem do significado, a sua poesia cheira a vida, garra e coragem. Senhor K é casado com uma grande poetisa e contista de qualidade acima da média. Eu adoro ler senhora M. Ele demorou e chegou baforido é assim com o senhor K ele sempre chega baforido. E então ele chegou esbravejando e pregando o voto nulo. É isso aí senhor K bata forte nesses canalhas de esquerda e direita, parasitas e sugadores da vida.
A morte é o que eles amam, a morte e a doença, eu gosto da porra da vida, uma boa merda, eu gosto, a vida com tudo o que tem de perigoso e de merda e de bom, eu sou um forte, um cara de escorpião.
Rita me levou e esperou o meu ônibus chegar. Fui pra casa e no ônibus pensei em kerouac um viajante nem sempre solitario. Em Nietzsche muita além do bem e do mal. foucault e sua vontade de saber. Em heráclito e sua capacidade fenomenal. Em Bergman e sua maldita mãe. Em zinaldo e sua música que eu adorei ouvir em Alice. Em pablo um médico que sabia das coisas e no bom e surpreendente poeta Luciano Fraga, no bom poema de Patrícia Mendes e no meu especial amigo Nelson Magalhães, o filho. nos meus filhos e na minha bela mulher, em uma boa música clássica e no meu sobrinho Caio um músico para ouvidos refinados.
Pensei e pensei que eu não estava morrendo. Era somente a confirmação de que nos meus infernos preferidos cruz das almas e salvador existiam além das desgraças que se intitulam poetas, professor de filosofia e outras bostas de políticos, existia também gente que me dizia.
- R viver é bom, a merda do mundo cheira a merda e a vida, que bom, eu sou um cara de escorpião e amigo de lakarus e sei descobrir um bom sorriso em um cú, eu não sou ainda a porra de um homem oco e nem empalhado, eu tenho o que ler, amigos para uma conversa e os porras empalhados que se fodam ou não.
Cheguei em casa e beijei minha linda mulher, o mundo pode ser uma grande merda mas essa mulher é minha.

ronaldo braga.

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Braga, tá no O Nome do Livro, bom. O cara de escrpião foi vencido pelos poderes da irmã, abraço.