domingo, maio 01, 2011

corona bar: música ao vivo & salão de baile


havia um letreiro luminosos na porta. era o nome de uma marca de cerveja. a luz do letreiro era vermelha e rugia à noite convidando os passantes e espalhando pela cidade aquela radiação de imã que atrai todos os perdidos os de bobeiras e os de sempre. na porta ficava um velho com duas caixas de papelão, em cada uma delas um pedaço de cartolina branca pregada com durex e uma frase, a da esquerda dizia: deposite aqui sua alma, a segunda: desfaça-se o quanto antes da sua grana. no balcão ficava um outro velho com cara jeito e trejeito de personagem do velho oeste, só falava o necessário, odiava que cuspissem em seu bar e não ia te roubar uns centavos quaisquer. o lugar era sempre esfumaçado, mesmo quando estavam só os velhos. quando fomos lá a primeira vez atravessamos um rio, da segunda já não. creio que fomos por outro caminho, estava escuro. estava frio. batizamos o velho do balcão de Joe, tínhamos certeza que era gringo embora seu sotaque fosse o portunhol falado nas fronteiras. vez ou outra aparecia um terceiro velho, um que tocava realejo, trazia papagaios com bilhetes da sorte e tudo. custava um trago; por dois, três músicas. esse letreiro nunca saiu da minha cabeça. se transformou em mosca e se perdeu no labirinto dos meus neurônios. estava lá quando um poeta louco tentou mais uma vez apunhalar deus, as coisas que falou de cristo nem eu tenho ganas de contar, ainda mais que estamos ainda na ressaca da semana santa é melhor deixar de aí, a ver quem pesca o quê nesse sonho, a ver quando.

um dos caras que andava lá toda noite, era um cara que tava sempre falando que ia escrever uma tese sobre sei lá o quê e enchendo a cara e chapando o coco no quintalzinho onde os velhos cultivavam uma horta: coentro, cebolinha, tomate, pimentão, malagueta e alho. os velhos eram cuidadosos e tinham as mãos boas, se via bem bonita a horta, as folhas tinham bom colorido de verdes vivos. na porta da entrada tinha uma moeda pregada no chão, era um chamariz, um tira-onda com os novatos; mas também era um bem-vindo. esse cara não sei se escreveu a dita tese ou não, nada sei, escafedeu. a vida tem essa de meter as pessoas umas nas vidas das outras, nos corpos das outras e depois se sair com vendavais, espalhando o que ajunto, destroçando as piramidezinhas que fabricam os namorados. tinha outro cara que andava lá que quando pirava entrava numas viagens que tinha sido preso numa galé e que escapou da KGB por um milagre, uma promessa de sua tia-avó feita ao padre Cícero Romão batista. tinha de tudo: um pouco de circo um pouco de hospício, era um zoológico divertido.

os homens não deram trégua, abafaram os velhos em seis meses. tomaram tanta memória deles que se lhes via parecendo zumbis. os malditos fizeram feitiço sem saber, assassinaram o espírito dos velhos. foi assim. foi mais ou menos assim. muita gente louca passou por aquele lugar.


nuno gonçalves.

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