quarta-feira, março 02, 2011

talvez as bolas de gudes também amem.MPG




Saturday, February 19, 2011
andanças de um eu poético rebelde I
-meu eu poético tem tomado certas liberdades...
chegou ao ponto de se dizer apaixonado
- um verdadeiro absurdo ousar tamanha independência. sabe-se por quem?
-aí é que está, sequer é por outro alguém, mas sim por outro eu poético.
- que ultrajante, que quer ele? iniciar um movimento pela liberação dos eu poéticos? não já criamos a liberdade/licença poética e oferecemos isso como consolo pela sua semi escravidão? damos a mão, querem-nos os braços, pirandelo já alertara isso...
- sim sem dúvida, mas ali tratava-se de uma revolta de personagens.. seis personagens a procura de um autor, execelente texto, altamente inspirador, não concordo com alguns que o tacharam de subversivo.
- pois é meu caro, foi um texto polêmico na época, mas falando em polêmica deixar seu eu poético com tamanha liberdade poderia tbm lhe criar problemas, que pensa em fazer?
- você não acha que... você acha que eu devo tentar esconder isso de todos?
- meu caro, quem sou eu para julgar o que é revolucionário, ou subversivo, inofensivo ou mesmo fatal, sou um simples poeta não um crítico, e ademais por via das dúvidas não dou muita liberdade a meus eus poéticos, tomo tudo para mim, não lhes dou crédito de nada, digo que faço uma poesia auto biográfico,
- mas nós dois sabemos que...
- nós dois sabemos e ninguém mais.. o mundo não sabe, deixe o mundo pensar que sou realmente autoficcional. melhor do que perceberem que fraquejo.
- vc fraqueja? não acredito, mas sempre foi meu espelho, minha inspiração em continuar escrevendo...
- e vejo que segues realmente o meu caminho, o que os outros confundem com genialidade vc pode agora perceber que é falta de tato, de controle, vc percebe agora que o que alguns chamam genial pode em verdade ser fatal,pode ser sua ruína.
- por isso vc se escondia atrás dessa história toda de auto biográfico? na verdade tudo fachada para que não percebessem que vc , que vc.. nem sempre controla o que escreve...
- ei, psiu.. fale baixo.. tá louco, vamos com calma nessa conversa ai, pois eh pegue a coisa nas entre linhas mas não diga nada assim de forma tão expressa, e se nos ouvirem?
-ok me desculpe. achei que vc só fazia isso por brincadeira.. para se divertir a custa dos criticos, dos leitores, de toda uma sociedade hipócrita que nos cerca.. nunca achei que vc fizesse isso por medo.
-pois eh agora já sabe. caiu seu muro de berlim? um dia as ideologias morrem, que elas morram antes de vc ao menos.mas esqueçamos de mim. e vc. o que pretende fazer a respeito?
- não sei. vamos pensar, hipoteticamente apenas, qual o grande perigo em darmos liberdade a nossos eu poéticos?
-não percebe a grande contradição em sua própria fala?
- não, não percebo, mostre-me.
-ora meu caro, como pode o eu poético ser livre e ao mesmo tempo ser nosso. há momentos em que temos de fazer escolhas e não vejo como conciliar a liberdade que pensas em conceder a teu eu poético e continuar a considerá-lo como teu. onde há posse não há liberdade. quando acabou a escravidão dos negros no brasil eu não poderia mais considerar nenhum ex escravo como meu. ao menos em tese não poderia mais ter posse ou propriedade sobre nenhum deles, no máximo sobre sua força de trabalho, sobre sua dignididade humana, mas tdo isso com o tempo tbm foi rediscutido e lançado a novos parametros...
- o que vc quer dizer é que...
- quero dizer que precisa ser homem e assumir as consequencias de sua escolha.. se quiser dar liberdade a teu eu poético, teu ele não será mais.. dá medo isso? essa incerteza sobre onde vc começa e onde vc termina? sobre o que o define? a indefinição sobre o que vc realmente é? agora é o eu poético que se livra de vc, e depois o que mais?
- prefiro não pensar sobre isso. não vejo como algo possa ter uma exata compreensão sobre si mesmo. creio que só possamos ter vislumbres do que somos, a partir de uma compreensão daquilo que nos cerca, não queria soar mto sarte aqui e nem é um tema sobre o qual me debruce mto.
-ok, ok, mas então o que pensa em fazer, com essas liberdades todas de seu eu poético?
- não quero perdê-lo. gosto dele. meu ou não meu, quero-o por perto. mas tbm não quero prendê-lo. mas não quero me arriscar, não sou revolucionário nem subversivo.
-fidel castro não queria ser comunista dizem as más linguas, mas o contexto histórico o empurrou para isso.
- enfim realmente não sei o que fazer.
- vc pode criar uma censura.. vc pode selecionar o que publicar, o que deixar a mostra, o que permitir manifestar-se... ou vc pode fazer como eu, diz que mudou de estilo e percebeu que para ser um verdadeiro artista, para se tornar realmente honesto precisa pôr seu sangue nos textos, precisa se tornar mais autoficcional.
- não quero censurar, gosto de meu eu poético já disse. se censurá-lo, se prendê-lo, se moldá-lo o que será dele? não, não, gosto dele desse jeito, impulsivo, guiado pela inspiração, o problema é que até então achava que a inspiração vinha de mim, e agora estou atônito com tamanha liberdade, sem saber ao certo o que de tão ruim essa liberdade representa.
- pq não finge então? já pensou em chegar pra pessoa e dizer, ei meu eu poético está apaixonado pelo seu, vamos tomar um sorvete, um drink ou quem sabe fazer amor?
- rsrs.. vc está confundindo a coisa.. nem conheço essa moça.. só li uns textos dela e sei lá meu eu poético resolveu buscar musa própria e se afeiçou a eles... até acho eles legais mas não, não acho essa uma boa saída não.. ademais só aumentaria os riscos, não seria dificil dela perceber a situação em que me encontro. se não fosse isso até pensaria em seguir sua dica, rsrs
- hum eh verdade,seria uma manobra muito arriscada, ela poderia perceber e sabe como são as mulheres não? acharia que vc a estava enganando, ficaria magoada e contaria tudo para o mundo. cara já tive diversas vezes de ouvir amigos relatando suas "dores de cotovelo", mas dores de cotovelo de um eu poético foi a primeira vez.. desculpe por fazer graça com uma situação tão delicada...
- é que não é sua vida que está em risco
- ou como diria o miranda, pimenta na bola de gude dos outros não doi..
-na bola de gude?
- é uma piada que ele fazia com uma capa de disco do tom zé... da época da ditadura.. outro dia te conto... ou te mostro.. tenho algumas cópias das fotos que foram tiradas até concluirem a capa...
-eu acho que sei o que vou fazer.
- e o que seria?
- vou dar uma de crítico literário....
- precisa mesmo se corromper? mas não entendo em que isso te ajudaria...
- vou fingir que trata-se tdo de metalinguagem.
-hã?
-conhece aquele livro, o mundo de sofia?
- conheço.
- pois bem, vou tratar todos como personagens, meu eu poético, o eu poético dela, ela, eu..
-sei...
- e então isso não seria nada novo. já temos um caso paradigmático aceito tranquilamente.. e vc mesmo o citou, brilhante como sempre vc achou minha saída..
- o do pirandello?
-exatamente.
- sei mas então vc vai fingir que todos são mero personagens, quem escreve então?
- o meu verdadeiro eu poético.
- ah claro.. o seu verdadeiro eu poético que está por trás do seu eu poético personagem, do vc personagem, do ela personagem, do eu poético dela personagem e etc... enfim várias camadas narrativas superpostas.
- exatamente.. várias camadas, assim como mundo de sofia.
- bem pensado, quase brilhante, acho que pode dar certo. mas e seu eu poético, acha que vai se sentir enganado?
- não creio nisso. ele seguirá livre, pra se apaixonar por quem quiser, e ainda torno-o personagem de si mesmo, de sorte que ele pode criar sobre si mesmo, pode fantasiar-se, pode se ver feliz, triste, pode se reinventar...
-sei...
- exato e com isso espero conquistá-lo e mantê-lo junto a mim, quero que ele se sinta bem junto a mim. não o quero meu, não o quero amarrado... quero servir-me da liberdade dele, quero que a liberdade dele me inspire, e me impulsione, e quero de alguma forma inspirá-lo tbm.
- tdo isso soa mto bem, só não escreve sobre nossa conversa, ou estaremos em apuros. e tome cuidado com os contatos de seu eu poético com o eu poético dela.
- pq?
- ora ele pode começar a pensar coletivamente, que não basta que ele seja livre, mas que ela tbm deva ser, e daí para iniciar um movimento pela libertação de todos os eu poéticos seria um pulo.
- é verdade.
- e vc sabe bem qual o meio mais rápido e prático de se matar um eu poético não sabe?
- sim. matando o ser de onde ele provem.
- com toda a certeza. e exemplos não nos faltam.

texto
nilo trindade braga santana

2 comentários:

nilo trindade disse...

o link do texto aqui

http://vc-aqui.blogspot.com/2011/02/andancas-de-um-eu-poetico-rebelde-i.html

glauber disse...

Pela libertação dos EUs POETICO!!!!VivA!!!!!