sábado, fevereiro 05, 2011

FUTEBOL

A verdade é que eu amo demais a humanidade, meu amigo, e por isso me considero uma pessoa de maldade eterna. Sonhei ontem com um mosteiro... um mosteiro de tamanho colossal. Liguei imediatamente a meu sonho de infância.

E qual era o sonho?

Eu queria... ser monge.

Os monges são pessoas inteligentes, e possivelmente amam a humanidade como cristo amou, como São Francisco amou... como Diderot...

Diderot, não.

Sim... Diderot... não!

É comprovado que amar a humanidade é digno de pessoas más. Cada vez que eu penso em uma ato de amor para com a humanidade eu começo a odiar as pessoas ao meu redor, todas elas, sem nenhuma restrição.

Estou me sentindo odiado.

Eu sei. Eu estou te odiando cada vez mais.

Mas tem toda e absoluta razão, caro amigo, e você não sabe como isso me agrada e me faz um bem. Ora, claro, não amar a humanidade nos leva a um paraíso a esquerda de quem vem pilotando o Mundo, a Via Láctea, o Universo... E ele pilota o mundo vagarosamente, como se estivesse a pilotar um patinete. Na verdade seguimos uma via negativa a dele... e nos encontramos com os querubins... voamos... nos sentimos pessoas boas, pois não amamos a humanidade. Pois ela se distancia, como o seu piloto a dar gás com o seu patinete. Uma total e maravilhosa, esplêndida, falta de humanidade!

Como eu posso ser um homem tão mal! A vontade que eu tenho é de dar um tiro em você, bem no meio de sua testa.

O patinete está desgovernado. Na verdade creio que o piloto nunca se preocupou em dar gás no patinete... é um esforço físico/mental muito difícil, caro amigo. Por isso que as pessoas boas estão se distanciando, mas sempre em sua esquerda, em uma diagonal, um platô... arredondado.

Sei... isso significa que não existe outras pessoas a testemunhar esse tipo de movimentação astral. Onde isso ocorre?

No Universo, onde mais?

Não existem espectadores para esse espetáculo.

Os marcianos.

Um confronto extrematizado entre a humanidade e a marcianidade... Entre o nosso piloto do patinete e o piloto do patinete deles...

O piloto deles pilota uma motocicleta, quente e feroz, venenosa, e nenhum marciano tem marcianidade, por isso são marcianos de uma bondade invejável.

Estou deseperado preciso fazer caridade...

Me ajude a levantar aqui.

Mas você eu anseio em matar, pela sua total e maravilhosa, esplêndida, falta de humanidade. Como eu posso ajudar você se tenho repulsa a você? Tenho tanto medo de ajudar... e sofrer de ingratidão.

Alguns monges morreram de ingratidão...

Como é não amar a humanidade?

Como é amar a humanidade?

Odiar o homem.





diego pinheiro



Fragmento da peça Futebol (Peça em ato único, sem rubricas e personagens)

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