quarta-feira, janeiro 26, 2011

VERÃO DE 1966( já postado aqui antes)

"Quando os mortos encontram a vida saltitante e feliz, intensas dores de impotencia e raiva exalam de si e então a destruição da vida é o unico objetivo dos mortos" rbraga





1966 era o ano dos meninos em Cruz das Almas, dos domingos sol ouro a invadir pulmões e desejos clareando sentidos e risos em babas corridos à povoar os tempos e nos intervalos a imaginação sexo a exigir punhetas. Nestor cansado cantava aos deuses e Agripino contava as novidades de meninas em nuas palavras.
Todos sorriam diabólicas transas imaginadas e em 1966 éramos belos e desejados em nossos sete anos de uma vida sonhadora de jardins eternos e flores galantes, tudo era permitido e até estimulado, catecismos circulavam e meninas jogavam saias aos ventos e era delícia olhar o tempo.
Frestas e muros baixos e moças nuas embalavam nossas tardes de verão. Mas Julieta, a menina dos olhos azuis, e do sexo faminto, era a temeridade do grupo, com a realidade exposta e nua que nos amedrontava e pedia distâncias. Queríamos sonhos, e a menina a exigir corpos e um saber tudo, isso irritava nossos suspiros perfeitos, e postulavam segredos loquazes a fragmentar certezas e denunciar crianças.
Corríamos e então de longe olhávamos a menina a cantar prazeres em homens barbudos no canavial. E de longe sorríamos felicidades e podíamos sonhar desejos e segredos de futuros. E a menina soltava uivos de dor e prazer e nos fazia tremer até os pés. E à tardinha dourada iluminava seios ausentes em uma menina precoce, bela e bruxa. A tarde ganhava cores da noite e pouco a pouco só nós e a menina nua a chorar alegrias e dormir cansada na noite de estrelas e pássaros verdes, e nós assustados e felizes olhávamos aquele corpo feminino e nos imaginávamos dentro dele e éramos reis numa terra distante e sabíamos a hora de casa e o caminho de volta era lamentações e silêncios.

Na casa da menina gritos e correria, a menina sumira. Nestor medroso e apressado contava tudo.

O erotismo da menina era visível a todos os cruéis sorrisos, e imanentes maldades desenhavam agruras florais, e odiavam a menina que sorria sempre, e de suas pernas, tremores acalentavam esperanças, enquanto nas camas, meninos imaginavam bundas, e lá fora a chuva amainava impulsos e a menina, com seus olhos azuis, era metodicamente cuidada. A mãe em infinitesimais passos implorava aos céus e permitia o exame em um desesperado alento: imergir devaneios e salvá-la do fogo carnal precoce. A menina sem entender, ouvia canções de dor e de limpeza.
Tudo nela era difração e sexo em seu olhar azul. O médico sorria desejos e anunciava receitas e recomendações.
Vizinhos em todas as frestas disputavam fofocas e falavam verdades, na rua, um corre-corre de sentenças, zumbiam rancores: a menina era o diabo de saia nas bocas de sapos.
A noite inelutável resguardava segredos de lençóis, e em tristes namoros, moças garantiam normalidades decoradas, em um repetir de tolas negativas constitutivas de vazios, e em tédios insistentes o povo festejava o corpo da menina em estranhos desejos perdidos em suspiros, que agigantavam pensamentos eróticos e irritavam seios e mãos numa cidade de cores mortas.

A covardia ensaiava a não-vida e saltava horrores nas mentes obscenas, e a menina, calada e distante, da janela, a olhar vazio um mundo abandonado de seus olhos, que outrora azuis, agora opacos fitavam o nada, enquanto excrementos escorriam de sua boca aberta, e puniam desejos infantis, numa tristeza que engendrava vidas e obliterava canções.
A menina era a noite perdida.
E as rezas agradeciam o calmo sorriso doente.

Ronaldo Braga

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