quarta-feira, janeiro 26, 2011

QUATRO




Sobre o meu nascimento me contaram muitas coisas até eu completar dez anos, depois disso silencio total, eu nunca soube o motivo, mas dez anos pareceu um limite para os adultos de minha casa falar do meu nascimento.

O que uma tia sempre me disse, era que chovia e trovejava intensamente e que quando eu dei meu primeiro berro já era madrugada e era exatamente quatro horas da manhã do dia quatro de Junho de 1959. Na verdade contaram muitas historias, mas somente essa que eu lembro com exatidão.

Toda lembrança de minha infância começa a partir dos meus quatro anos, nenhuma recordação anterior existe, eu lembro com clareza de um fato que me marcou muito naquele ano de 1963, eu estava na Tapera, um povoado da zona rural de Cruz Das Almas, na venda de meu avô Augusto e ele completamente bêbado começou uma discussão com um cigano e pouco depois os dois sacaram suas armas de fogo e começaram a atirar um no outro, eu estava entre os dois e eles, depois de dois ou três disparos me viram e resolveram parar o tiroteio e voltaram a beber e rir, meu avô pediu pra eu não dizer nada a minha mãe e eu nunca contei a ninguém sobre este fato, o curioso é que eu me senti bem no meio daquele tiroteio e não sentir medo, ao contrario senti uma atração forte e uma intensa felicidade, hoje eu percebo que eu tinha total noção do que ali acontecia.

Este dia foi muito bom pra mim, pois terminado o tiroteio meu avô me deu tudo o que eu desejei de sua venda (quitanda) e depois disso eu ficava sempre esperando um novo tiroteio, mas nunca mais testemunhei outro, soube que dois duelos desta natureza aconteceram envolvendo meu avô, mas pro meu azar eu não estava por perto. Meu avô não feriu e nem foi ferido nestes embates com armas de fogo, lembro dele como um homem forte, bruto e que com 70 anos subia em qualquer árvore e não temia nada, ele sempre foi o meu super-herói preferido.

Outra lembrança com meu avô eu já tinha 8 anos e estávamos almoçando em sua casa e depois do almoço eu disse que ainda tinha fome, meu avô então pediu a Nenzinha, sua mulher, que não era minha , pra fritar uma dúzia de ovos de galinha e depois com um rebenque na mão me obrigou a comer todos com farinha arroz e feijão. Fui direto pro hospital, mas isso em nada manchou a imagem que eu tinha dele, apenas me fez ter maior cautela. Todos os meus irmãos adoravam ir pra casa dele e nós o chamávamos de pai da roça.

A minha história é triste e alegre, eu sempre escondi quem eu realmente era, tinha muito medo dos adultos, mas nunca cumpri suas ordens. Eu lembro que tudo o que meu pai dizia eu concordava, mas era ele dar as costas e eu fazia somente o que eu queria. Eu apanhava muito e aquilo pra mim era apenas o dever de meu pai me bater e eu nem ficava zangado e depois dos sete anos eu achava que a surra só era ruim na hora que acontecia, depois era até gostoso, eu dormia um sono bom e bem quente. Apanhei dos 5 anos até os 15 todos os dias. Meu pai assim que chegava em casa dizia:

- Ninguém hoje me deu queixa de você, mas eu tenho certeza que alguma maldade o senhor cometeu. Então me olhava firmemente e pedia em voz alta e autoritária:

- Vá pegar a palmatória - E me dava uma dúzia de bolo com uma palmatória de madeira bem solida e pesada, eram seis em cada mão.

Aos seis anos escrevi a minha primeira poesia, eu completamente apaixonado por uma vizinha de 26 anos, o pai dela era açougueiro e todos os garotos da rua tinha muito medo dele. Toda tarde ela nos chamava e pedia pra nós, meninos todos entre seis e sete anos, seus vizinhos, puxar uma corda e retirar água da cisterna e encher o tanque da casa, depois ficava completamente nua e transava com a gente, na verdade ela apenas esfregava aquele monte de cabelo umido em nosso sexo duro e a gente podia também cheirar.

Mas assim que ela dizia meu pai ta chegando todos nós corríamos e íamos pro campo e lá deitávamos na grama e riamos e riamos e nos sentíamos homens e belos e vigorosos, eu era o único que dizia que ia me casar com ela. Manezinho com sete anos falava bem alto e mexendo comigo:

- N você é otário, ela é puta, faz isso pra todo mundo.

Aquilo pra mim não era problema, eu apenas queria ser um desses muitos que ela esfregava aquela coisa cheirosa, molhada e quente e que me deixava maluco.

ronaldo braga

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