sábado, janeiro 01, 2011

A fogueira, os amores e as espadas de São João




O sol ainda não nascera e eu acordei e me levantei de um pulo, era 23 de Junho de 1972 e eu tinha muita coisa pra fazer.
Fui até o Karrate, comprei pão e manteiga, já em casa observei minha mãe acender o fogão e preparar o café, tomei o meu com pão e sair e fui pro trabalho de meu pai e ali fiquei até o final do dia.

Foi o dia mais longo de minha vida, eu completamente afobado e somente pensando em sair na noite gritando:
São João passou por aqui?
Era sempre garantido que em cada três casas duas atendesse. Eu, Lau, Beneu, Fau (o sofá) e o Nem, duas horas depois já bebados, trocávamos as pernas.
Depois de tomar mais um licor, saímos da casa do senhor Godofredo, localizada na praça Senador Temistocles, e enfrentamos a grande batalha de espadas.

Seu Sampaio colocava fogo em mais uma e o assobio ganhou a noite e nos fez correr pra trás de uma árvore. Ali protegidos a gente gritava a todo pulmão:


- É agua. É agua. É agua.

Estávamos todos atentos e assim que uma daquelas espadas se enroscava em alguma fenda corríamos e pegávamos e jogávamos de volta pro lugar de origem. Essa festa era de alegria e alguma morte, mas nem somente pelo álcool, e sim e principalmente a raiva e a impotência de alguns que se utilizavam deste momento festivo e se vingavam de algum desafeto.


Toda a cidade estava rodeada de fogueiras, casas ricas, casas pobres.

Havia sempre uma fogueira acesa, um licor de jenipapo e uma laranja já descascada pra quem chegar bater palmas e alto ou baixo gritar:

- São João passou por aqui?

A cidade fervilhava alegrias e prazeres, e em cada cantinho casais faziam crescer todas as empolgações. Era barulhenta a noite, e as promessas, os urros e os gemidos lutavam contra os gritos de meninos e meninas de todas as idades correndo atrás de uma espada fumegante a subir e a descer e a bater em casas e arrombarem portas e vidros e janelas.

A minha cabeça já completamente tonta e cheia de zunidos, pensava na rua Assembléia de Deus, que ficava longe do centro e bem junto da pista, mas ainda era cedo e eu precisava ficar mais bêbado e então ser o homem de ferro e olhar aquela menina e quem sabe beijá-la. Eu tinha um plano e só era preciso chegar perto dela, eu o olharia como o Django olhou aquela morena no ultimo filme que eu tinha visto e de repente e sem aviso prévio daria um beijo bem na boca e então o mundo todo seria azul, verde, lilás e quem sabe apenas vermelho como as brasas das fogueiras que impiedosamente queimavam lenha e iluminavam fielmente todos os bêbados.

Mas ainda era cedo e eu apenas um menino de 13 anos e bêbado não o suficiente.

Era meia noite e depois que as espadas começaram a rarearem o grupo então ganhou a direção da pista, e por sorte eu tinha encontrado a turma do Coelho, irmão da mulher dos meus sonhos e então o grupo agora maior era somente esperança de comer queijo, bolos, galinha assada e mais licores, eu somente pensava nela que na casa deveria sorrir e me ignorar como sempre.

Coelho foi amável e atencioso e ao chegar me avisou:

- Cara a minha mana te detesta, acha sua poesia ruim e tocou fogo na ultima que você me mandou entrega-la.

Ao ouvir isso em vez de desabar eu sorria e pensava:

Ela me ama e de verdade, só que não sabe ainda.

O Coelho preparou um prato com tudo o que tinha na casa, algumas espadas corriam pelo passeio queimando o chão delicadamente, todos corriam pra tentar segurar uma, eu ali somente pensava nela e a esperava e quando ela veio eu quase desmaio, como estava bela naquele vestido verde com linhas azuis e detalhes caipira. Ela me olhou e simplesmente chamou um nome e um rapaz que devia ter 18 anos apareceu a agarrou e a beijou.

Eu bebi quase que um litro de licor de pêssego, e depois um outro de jenipapo, comecei a passar mal e vomitei bem em cima do sofá da casa de minha amada, o pai dela me levou até o banheiro e depois nos mandou embora de forma dura e educada. No passeio segurando uma espada que acabara de acender o Coelho ria e ria e ria, ele não tinha me dito que o tal do fora da lei estava na cidade e eu então fui dormir e ali encontrar toda a felicidade que uma cidade inteira me negava.

Hoje trinta e sete anos depois, eu me lembro desses momentos e eles me parecem inexistentes, pois já não há mais fogueiras acesas e os corações frios se aquecem na base de porradas e mentiras, a espada já não podem mais deslizar delicadamente e os bêbados sangram na noite depois dos bolsos revirados e as portas agora fechadas e os ouvidos surdos.

Aquela frase mágica já não tem mais nenhum efeito e ao contrário pode ser um grande perigo, pois de dentro dos lares cristãos ouvimos algumas vezes vozes muito zangadas:

- Vai roubar o diabo filho da puta. São João não passa por aqui.

Bom se você estiver em Cruz Das Almas, no dia 23 de Junho no século 21, não diga essa frase, pois o pior pode acontecer.

-São João passou por aqui?

um dia magica e que embalava meus sonhos, hoje na melhor das hipóteses piada ou meramente lembranças.


ronaldo braga

para aquela cruz das almas que um dia eu amei

2 comentários:

telma brites disse...

Oi Ronaldo,
desculpa a falta de noticias, passei uns mese com alguns probleminhas, mas ja passaram. Linda lembranca de um tempo que nao volta
mais, mas somos premiados pela vida, pois ainda guardamos lembrancas de uma infancia, adolecencia, juventude . A magia de uma vida
a magia e liberdade de viver, é realmente unico e maravilhoso.
UM ANO 2011 MAGICO E CHEIO DE SONHOS; DE LEMBRANCAS INESQUECIVEIS DE PLANOS E PROJETOS PRA QUE NO FUTURO TENHA LEMBRANCAS COMO AS DE HOJE.

Um beijo e saudades...
da alemanha
Telma

geraldo maia disse...

Pô, cara, clap, clap, clap, lindo, lindo, lindo, ternura, fino humor e força poética, me fez viver tb os meus S. Joões, perfeita descrição, fui parar no meio da rua, batendo nas casas, "S. João passou por aqui?". Só não tinha "espadas", mas muita "bomba", "traque", "cobrinhas", "estrelinhas" e alguns "rojões" que nem fazia questão, bom mesmo era acender uma bomba, colocar uma lata por cima, e esperar o "foguete" subir, era uma delícia, rapaz, e pular fogueira?, tomar licor, comer canjica, amendoim e assar batata nas brasas de fim de festa, e essa coisa da menina, será que é "mal" de poeta?, também passei por isso ( como passo), meu caro, como as meninas judiam dos poetas, por quê?, a gente cheio de paixão e elas nem aí, e geralmente ligados num babaca desmiolado, vai sofrer assim por essas coisas lá longe, vôte, parece praga, óxi, muito obrigado, caro Ronaldo, por me transportar aqui de longe, nesse exílio de Vinhedo, para momentos tão puros, belos, inocentes e cheios de vida da minha infância que teimo em guardar certos recortes como esse que S. João nos proporcionava quando ainda se deixava passar gostosamente por dentro de nossas vidas.

Parabéns, caro amigo.

Abraço,
grato,
Carinho,
Geraldo