terça-feira, novembro 02, 2010

CONDIÇÃO TERRÍVEL


RISONHO – Por que não procuramos o Menino?

SONOLENTO – É verdade. Eu vou!

RISONHO – Você vai?

SONOLENTO – Eu vou!

RISONHO – Então vá!

SONOLENTO – Eu vou!

RISONHO – Então vá!

SONOLENTO – (Continua sentado.) Estou indo! (Mantém o olhar no horizonte.)

RISONHO – Está vendo ele?

SONOLENTO – Ainda não.

RISONHO – E agora?

SONOLENTO – Ainda não.

RISONHO – E agora?

SONOLENTO – Ainda não.

RISONHO – E agora?

SONOLENTO – Ainda não.

RISONHO – (Gargalha, mas não sai nenhum som.) E agora?

SONOLENTO – (Em felicidade eufórica.) Estou, é o Menino!

RISONHO – Onde, onde?

SONOLENTO – (Aponta para frente.) Ali, olha ele ali!

RISONHO – (Olha na direção.) Grite! Chama ele!

SONOLENTO – (Sussurra.) Menino... Ei... ei... Menino... Menininho...

RISONHO – Grita! Diz que quer bolo.

SONOLENTO – (Sussurra.) A-há, u-hú, Menino eu quero comer seu bolo...

RISONHO – Mais alto!

O Sonolento tenta levantar um braço, mas ele cai. Tenta levantar o outro, mas ele cai. Levanta os dois, mas os dois braços caem.

SONOLENTO – Os meus braços não me obedecem mais. (Sussurra.) Menino...

O Risonho tenta se levantar, mas cai. Tenta se levantar novamente. Fica de pé, meio que desequilibrado, mas desaba no chão com o traseiro para o ar e a cara no chão. Mantém os braços fazendo sinais.

RISONHO - Pronto, eu estou fazendo os sinais com as mãos, agora grita... “Eu quero bolo!”

SONOLENTO – (Sussurra.) Eu quero bolo!

RISONHO – “Eu quero bolinho!”

SONOLENTO – (Sussurra.) “Eu quero bolinho!”

RISONHO – Bolinho de uva!

SONOLENTO – (Sussurra.) Bolinho de uva... Mas bolo de uva não existe!

RISONHO – (Fica sentado.) Claro que existe. Já disse que sou sensitivo. (Olha na direção do Menino.) Olha, lá, o bolo é azul anil, claro que é de uva.

SONOLENTO – Como você sabe que a cor do bolo de uva é azul anil?

RISONHO – Ora, essa... É tão óbvio!

SONOLENTO – Claro que não é óbvio... (Pausa.) Olha, lá...

RISONHO – O que foi?

SONOLENTO – O Menino... Ele foi embora... (Horrorizado.) Foi levar o bolo para outra pessoa... (Funga.)

RISONHO – (Gargalha, mas não sai nenhum som.) Que bosta de dia! (Fala mais baixo. Sorrindo.) Uma bostinha!

Silêncio.

SONOLENTO – Depois me dizem que não temos perspectiva.

RISONHO – Hã?

SONOLENTO – Depois me dizem que não temos perspectiva.

RISONHO – Mas o que tem haver?

SONOLENTO – Ora, essa... Eu só vejo uma coisa, o Menino, e a única coisa que quero é que ele traga o bolo. O que custa? Atravessar a pista? Só tenho esse desejo... (Pausa.) Quero ir para Pasárgada!

RISONHO – Eu também!

SONOLENTO – Comer o Lendário Bolo de Beterraba com Hortelã.

RISONHO – (Suspira.) Hum...

SONOLENTO – (Pausa. Olha para o Risonho.) Eu podia te comer!

RISONHO – Sai pra lá, ô!

SONOLENTO – Eu podia te comer. Depois... eu te como de novo.

RISONHO – Eu, hein... Que coisa estranha.

SONOLENTO – Você é um bolo. O Lendário Bolo de Beterraba com Hortelã. O Lendário Bolo de Beterraba com Hortelã de aniversário!

RISONHO – (Sorrindo.) Então você é o bolo de caju... ou de uva... ou de maracujá, ou de...

Ouve-se um ronco. Eles ficam quietos, subjugados. Silêncio. O Risonho funga e limpa o nariz, logo em seguida o Sonolento funga e limpa o nariz também.





Fragmento da peça "O Bolo de Aniversário do Menino Ranhoso (Peça em ato único para crianças)" de Diego Pinheiro.

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