sábado, junho 26, 2010

Eu: pó, pedra e sal e maria callas








Eu,
desespero nos escombros da solidão.
Eu
guerreiro entre pantanos
e rochedos,
eu,
pó, pedra e sal,
esperado e fugido da morte.


Eu ganancia rota
circulando vida infame nos beijos adocicados das tristezas.

Eu
que ferindo espinhos esparramados
em noites de alcool e fumo
acalento
deslumbrantes pensamentos assassinos.

Eu
transtornado em teus beijos vampirescos
canto a morte em doce melodia perdida.


ronaldo braga

domingo, junho 13, 2010

Adeus ao Partido dos Trabalhadores

Amigos,
diante da decisão tomada de apoio ao Hélio Costa, nada mais me restou fazer. Envio artigo que sairá amanhã no OTEMPO. Abraços. Sandra


MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO”

Adeus ao Partido dos Trabalhadores




Sandra Starling



Ao tempo em que lutávamos para fundar o PT e apoiar o sindicalismo ainda “autêntico” pelo Brasil afora, aprendi a expressão que intitula este artigo. Era repetida a boca pequena pela peãozada, nas portas de fábricas ou em reuniões, quase clandestinas, para designar a opressão que pesava sobre eles dentro das empresas.

Tantos anos mais tarde e vejo a mesma frase estampada em um blog jornalístico como conselho aos petistas diante da decisão tomada pela Direção Nacional, sob o patrocínio de Lula e sua candidata, para impor uma chapa comum PMDB/PT nas eleições deste ano em Minas Gerais.

É com o coração partido e lágrimas nos olhos que repudio essa frase e ouso afirmar que, talvez, eu não tenha mesmo juízo, mas não me curvarei à imposição de quem quer que seja dentro daquele que foi meu partido por tantos e tantos anos. Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982. Lá se vão vinte e oito anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para aquele amontoado de gente de todo jeito: pobres, remediados, intelectuais, trabalhadores rurais, operários, desempregados, professores, estudantes. Íamos de casa em casa tentando convencer as pessoas a se filiarem a um partido que nascia sem dono, “de baixo para cima”, dando “vez e voz” aos trabalhadores. Nossa crença abrigava a coragem de ser inocente e proclamar nossa pureza diante da política tradicional. Vendíamos estrelinhas de plástico para não receber doações empresariais. Pedíamos que todos contribuíssem espontaneamente para um partido que nascia para não devermos nada aos tubarões. Em Minas tivemos a ousadia de lançar uma mulher para candidata ao Governo e um negro, operário, como candidato ao Senado. E em Minas (antes, como talvez agora) jogava-se a partida decisiva para os rumos do País naquela época. Ali se forjava a transição pactuada, que segue sendo pacto para transição alguma.

Recordo tudo isso apenas para compartilhar as imagens que rondam minha tristeza. Não sou daqueles que pensam que, antes, éramos perfeitos. Reconheço erros e me dispus inúmeras vezes a superá-los. Isso me fez ficar no partido depois de experiências dolorosas que culminaram com a necessidade de me defender de uma absurda insinuação de falsidade ideológica, partida da língua de um aloprado que a usou, sem sucesso, como espada para me caluniar.

Pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa: participei de uma prévia para escolher um candidato petista ao governo, sem que se colocasse a hipótese de aliança com o PMDB. Prevalece, agora, a vontade dos de cima. Trocando em miúdos, vejo que é hora de, mais uma vez, parafrasear Chico Buarque: “Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde.”


Sandra Starling

quinta-feira, junho 03, 2010

O ESCANDALO D A TERRA DOS AFRO DESCEDENTES





MOÇÃO DE REPÚDIO AO III BAFF

Em defesa da luta negra e quilombola por terra, justiça e liberdade!
Nesta edição do Ill Bahia Afro Film Festival (BAFF) que ocorre nas dependências do
Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) em Cachoeira, mais uma vez o corpo e
as representações culturais das populações negras estão sendo tratadas como
mercadoria.
O filme Maria do Paraguaçu, de Camila Dutervil, que retrata a luta de uma
comunidade localizada no recôncavo da Bahia, mais precisamente em Cachoeira, tem
como objetivo a divulgação de um povo que luta pela permanência em seu território,
sendo este a base das suas práticas culturais, que dão fundamento a existência desse
grupo enquanto comunidade tradicional.
Denunciamos que no ato de exibição do filme este teve sua legenda em português
substituída pelo inglês numa clara intenção de evitar que fossem evidenciados os
processos de luta da comunidade, bem como os conflitos provocados pelos fazendeiros
locais. Esta atitude desrespeitosa impediu que os telespectadores tivessem acesso às
informações centrais do filme pelo fato de que se tratava de uma linguagem que acabou por descontextualizar o mesmo. '
Salientamos que a luta pela sobrevivência desta comunidade, ganhou' maior
visibilidade após a certificação de auto-reconhecimento da comunidade como
remanescente de quilombo expedida pela Fundação Cultural Palmares (FCP). Como
decorrência, foram iniciadas, por parte dos fazendeiros, perseguições e várias
investidas para desmobilizar a luta desta população que reivindica o seu direito ao
título do território garantido pelo art. 68 do ADCT - Constituição Federal de 1988.
Em meio a este conflito fundiário que foi iniciado em novembro de 2005{ duas lideranças da comunidade morreram em 2009, (vitimas: Maria das Dores e Altino da
Cruz). Outras tantas são constantemente ameaçadas de morte.
Este festival que era visto como meio de divulgar a luta desta comunidade
quilombola, decepciona. O filme não alcançou o objetivo de fortalecimento desta
comunidade, uma vez que, o final deste foi exibido em inglês, perdendo seu sentido,
pois, é exatamente neste momento que a informação é visualizada.
Considerando as tamanhas contradições, arbitrariedades e desrespeitos, nós
assinantes viemos por meio desta Moção de Repudio, exigir que o filme em sua versão
original (em Português) seja exibido neste Festival; bem como cobrar uma postura da
Direção do Centro e da Reitoria da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia -
UFRB.

Em solidariedade e rebeldia,
- Acampamento Remanescente - Embarracados no CAHL
- Núcleo de Negras e Negros Estudantes do CAHL - NNNE
- República Quilombo
- Associação dos Remanescentes do Quilombo do São Francisco do
Paraguaçu - BOQUElRÃO .
- Associação Quilombo do Orobu - Quilombo Educacional
- Coletivo de Mobilização do CAHL

BRAGA E POESIA

a poesia de NUNO GONÇALVES

sou o que sei e o que sinto
o que como e o que visto
o que penso e tudo a que atino

sou o que não sei e o que não sinto
o que bebo e o que fumo
o que não penso e todo desatino

sou a beleza no colo do destino
o piar da foice e a desgraça do divino
sou antes de tudo o menino
lambendo a lua azulejada do instinto

sou sem saber como o peixe de luto
talvez não seja nada mais que um menos
ou a corda emparedada no alpendre

meu verso é rito de um grito alucinado
e na capoeira desta noite espreita
a vereda de uma incerteza anunciada.



NUNO GONÇALVES