segunda-feira, março 01, 2010

SEM MATAR EU ESTOU MORRENDO e Caio Braga - Please Let Me Wonder (The Beach Boys Cover)

A chuva e o vento forte martelavam a madrugada do dia 25 de maio de 1965. O barulho infernal e o frio me faziam tremer, e, diante da inutilidade da capa agora completamente molhada, eu caminhava todo torto e tentando me encolher o mais que pudesse.
A cidade das sombras estava mergulhada em um interminável temporal. Nenhuma viva alma humana a circular nas ruas.
Depois que eu sair da pista e passei pelo cemitério, dois cachorros cruzaram comigo e macabramente me acompanharam. Quando eu adentrei a Avenida Alberto Passos, meus sentidos caminhavam em um mortal silencio solitário. Olhei aqueles dois animais e vi como ardiam os olhos dos bichos, eles me fitavam e eram como o peso do mundo dentro de minha cabeça e ao mesmo tempo ali, na minha frente.
A tempestade enchia de sons assustadores, uma madrugada dura e decisiva. Mas agora, não somente o frio, me cortava a alma, também um sentimento angustiante me sufocava por inteiro.
Eu caminhava calmamente e bem devagar numa briga insensata contra as gotas de água e o vento forte, passando a mão pelos olhos e enxergando entre as frestas da chuva constatei que nesse momento eu já estava na porta do bar de seu René, então atravessei a rua e na frente da farmácia do pai de Godofredo ao lado do Baneb, ascendi um charuto. Os cães, ao meu lado, pareciam ora parceiros ora policiais.
Àquela hora da noite, exatamente 3.15 da madrugada, somente um ou dois personagens poderia aparecer, um seria com certeza o seu Vivi, alfaiate e viciado em velórios, ele poderia vim de qualquer lado, sua Alfaiataria, ficava no sobrado dos Cury, na esquina com a rua que dava pro mercado e era a entrada da rua dos poções.
Ouvi passos vindo do lado direito à frente, exatamente da rua dos poções, corri de volta às avenida Alberto Passos e pulei o muro do consultório de dentista do Dr. Aloísio e me escondi no jardim. Era Nem com seu charuto e um radio sintonizado na sociedade, e em seu volume mais alto. Quando o Nem passava por mim o Jotaluna convidava os ouvintes para o seu programa Vamos Acordar que começava às cinco horas da manhã.
Esperei o distanciamento de Nem e de volta à Pça Senador Temístocles, andei em direção à rua da Vitória.
A chuva estava mais forte e mais intensa, e mais violenta, parecia que ia me engolir, passei a mão por dentro da calça e senti o revolver enrolado em um saco de borracha, apalpei imediatamente a faca presa a minha cintura direita e pensei que se o revolver falhasse devido as fortes e constantes chuvas, eu teria que usar a peixeira, e isso era algo que me repugnava. Usar a faca me cheirava a amadorismo e mesmo a questão sendo pessoal e ainda envolvendo sérios sentimentos, eu agiria da melhor forma possível, seria limpo e cordial em minha ação. Seria de forma preciso: elegante e educado.
Ela se sentiria impelida a aceitar com resignação e silencio a minha ação. E somente o seu intenso e desacreditado olhar imploraria perdão.
Mas era sempre assim, elas sempre pediam perdão e sempre diziam que aquilo não era certo.
- Como elas se ousam? Determinar ou pensar o que é o certo?
O que elas pensam que são?
Estalei os dedos, ascendi outro charuto e andei mais rápido em direção à rua Manoel Vilaboim, exatamente onde morava a Valeria, e bati levemente na porta uma ou duas vezes mais e então uma voz perguntou e eu respondi serena e amorosamente:
- Vitorino.
A voz voltou a falar e pediu um tempo. Cinco minutos depois a porta foi aberta e eu entrei.
Ela perguntou se eu estava com fome e me pediu silencio, pois suas três filhas estavam dormindo. Eu aceitei a comida e no quarto dela vesti roupas secas do seu marido, guardei as minhas roupas molhadas em um saco de farinha que ela me deu. Sentei na cadeira e esperei a comida.
A chuva ainda era forte e tinha diminuído um pouco, eu percebi que deveria ser rápido, pois a chuva seria minha proteção. Então trazendo a comida ela me deu um beijo, me olhou profundamente e disse tristemente
- Você me olha como se fosse me matar. –
- Só se for de sexo – eu disse.
Ela sorriu ainda mais triste e sentou em meu colo, eu retirei a sua calcinha e a penetrei com carinho, ela começo a suspirar e gemer e dizer que tava gostoso. E bem devagar apanhei a faca e bem devagar e bastante força enfiei toda em seu pescoço, ela ainda gemia quando sentiu a dor e percebeu a morte, seus olhos me olhavam do nada, perplexa com ela mesma. A penetrei mais duas vezes e com cerimônia, dor e respeito, a carreguei e a deixei no sofá. Eu sofria. Voltei a mesa comi a minha comida e voltando pra ela, disse
- comida muito saborosa.
Comi, lavei os pratos, bati a porta delicadamente e com passos rápidos e largos corri até a escola de agronomia passando pela rua das flores, e sumi em direção ao povoado de Laranjeiras que fica na cidade de Muritiba.
Em Muritiba eu queimei as roupas do marido, vesti as minhas molhadas mesmo, comprei um cavalo e já eram 9 horas da manhã do dia 25 de maio de 1965, quando finalmente pensando em Santo Amaro eu pude sorrir,.
Eu tinha alcançado o meu intento e mais uma vez eu executara o serviço de forma primorosa, não deixara nenhuma pista, os vizinhos falariam em Vitorino, mas quem é Vitorino?
-Eu não conheço Vitorino algum - Eu disse em voz alta e gargalhando.
Ao meio dia almocei em Cachoeira. Comprei novas roupas e me preparei para o meu próximo serviço:
Um padre na cidade de Sapeaçú. Eu teria que ir até Santo Amaro da Purificação receber o dinheiro e as informações.
Eu estava vivo, a velha sensação de vida a todo vapor correndo por todo o meu corpo estava de volta.
Sem matar eu estava morrendo e a Valeria tinha que morrer.
No principio eu achava que era brincadeira, mas depois aquilo tinha ficado serio, logo após o meu serviço em Catité, quando matei uma garota de seis anos a mando de um deputado de esquerda, ela endoidou de vez, e me fez prometer não mais matar e me disse que se ela desconfiasse avisaria a policia.
Ali naquele momento a Valeria decretou a sua morte, era só questão de tempo.
Os pássaros cantando ao lado de minha janela, revigora agora o meu mundo sombrio.
O canto dos pássaros e um café de rei me espera nessa manhã linda e cheia de possibilidades.
O dia 26 de maio de 1965 seria o dia do padre.


Ronaldo braga



Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Braga,certamente muitas coisas, fatos, figuras e cenas devem ser erradicadas ou mortas do nosso cenário de nossas mentes, principalmente neste roteiro que bem conhecemos e que tanto transitamos, muito bom, até mesmo para recordar certos lances, talvez imperdoáveis...Abraço.