quinta-feira, março 11, 2010

a poesia de LINALDO QUEDES


Livro sagrado




sou um louco



sim, eu sei que você sabe disso

afinal, sou um louco desde que em tempos imemoriais cruzei mares e atlânticos em busca de suas pernas e do tufo de pelos morenos que habita entra elas



um louco que sempre faz o sinal da cruz

na hora genuflexória de penetrar a tua luz



na fé de que espamos e orgasmos

se perpetuem além do apocalipse:

gênesis de um prazer que tem origem no silêncio incondicional.







Boato



dizem: quando se está amando a pele fica igual a seda,

manchada, até



mancha no coração não sai, também comentam



cardiologistas procuram a cura

em bisturis que buscam cirugias impossíveis



em vão:

feito um bicho-de-seda, o coração

se enrosca numa tênue teia de aranha

asfixiado



: procurando o bote salva-vidas

para respirar tua pele morena

















Amém



amor quando chega

não faz toc, toc, toc



simplesmente derruba a porta

invade nossa aorta



transforma o amador

na coisa sagrada



depois, ora pelo santo espírito insano

para que todo dia, todo ano



a oração se repita

com suor, sexo e libido.







Rapunzel pós-moderna



seus cabelos:

fios

que escorrem pelo dorso nu



e eu,

à espera das tranças

que você,

rapunzel pós-moderna

não vai jogar em lugar nenhum.





Fetiche



adoração ao seu corpo,

na cama



prazer com o seu cheiro,

até mesmo na lama



é quando os pássaros cantam



enquanto você aprisiona outro pássaro

entre as pernas



que escondem mundos de borges

e todas as minhas odes

ainda não escritas



- versos de magia morena traduzidos em seus olhos graúna.





Insônia



enquanto você dormia



seu corpo se abria



para o eros esfomeado



e o amor foi feito



(seu corpo movediço se movia

sonâmbulo, em direção ao prazer).





Metáforas para um duelo no vazio



é quando você está quieta

enroscada no próprio umbigo

feito uma concha

- manto sagrado em saga profana –



e eu, emboscado na selva

escura de sua pele

feito um eunuco, perdido

nas fronteiras do absurdo



é quando duelamos em silêncio

em busca de nossos próprios ardis

que criamos ciladas para nossos próprios pés

enquantos mãos e bocas engendram armadilhas

- ilhas de solidão, protegidas pela carícia da dor.







Alforria



mucama :

ama-de-leite para os lábios



amarrada no tronco

faz-se escrava, concumbina



na verdade,

faz é do seu senhor, menino

escravo liberto a lambuzar-se, obediente, em seu corpo

- vítima do chicote e de seus açoites amorosos.







Tato



pele por pele

vou tocando com a ponta dos dedos



como se estivesse a cavar minas

em busca de algum mineral precioso

escondido nos subterrâneos de teu sexo


- jazida inexplorada à espera do garimpeiro de clitoris




LINALDO QUEDES

2 comentários:

Marcia Barbieri disse...

RONALDO,

Desculpe pela falta de comentários, é que estou sem tempo ultimamente, às vezes, tb bate o desanimo, mas sempre leio seus textos e vejo seus vídeos, mas acabo não comentando...me perdoe.

beijos e a admiração de sempre

Luciano Fraga disse...

Braga, sou admirador da poesia de Linaldo, parabéns pela publicação, abraço.