sexta-feira, fevereiro 19, 2010

ABSTINÊNCIA e PEROLA NEGRA

( Este texto já foi postado aqui)


ABSTINÊNCIA


Eu agora, com um copo de vinho na mão, caminhava livre e tentava refazer em minha mente os acontecimentos dos últimos três dias.
E era difícil.
Eu me lembrava perfeitamente que eu estava dentro de um casarão imenso, numa imensa sala, e que o piso era branco e brilhava ofuscando os meus olhos, portas para todos os lados, e além de mim nada, nem móveis e nem uma pessoa. Eu e a sala vazia. Tentei gritar e nada, eu não ouvia o som de minha voz.
Cansado de tanto gritar, andei de um lado para outro e falei baixinho e como num passe de mágica a sala ficou cheia de gente.
Operários e suas fardas e ferramentas.
Vigilantes e suas caras de vigilantes.
Funcionários administrativos e médicos e muita gente que se vestia de forma importante e mesas e cadeiras e atendentes com suas folhas de papel e canetas.
Um funcionário olhou sorridente para mim e então uma voz vindo de todo lado roucamente disse.
- O senhor R entrou. Agora, sair? Bem, talvez. Primeiro o senhor R terá que visitar todos os quatrocentos e quinze quartos, e depois veremos se o senhor R sai ou não sai.
Eu tentei gritar e de novo minha voz não existia.
O funcionário sorridente e amável falou.
- Baixinho senhor R.
- Baixinho? Como? - Eu disse bem baixinho.
O funcionário ainda sorridente-
- O senhor precisa se acalmar, comece a visitar os quartos e com um pouco de sorte o senhor pode receber alta. Confiança, senhor R, confiança.
- Alta? -
Pensei em quebrar aquela cara sorridente, mas olhando para os lados percebi que o melhor era manter aquele rosto sorridente sorrindo para mim. Todas as outras pessoas me censuravam com o olhar e eram olhares cruéis, canibais. Sorri de volta e empurrei a primeira porta e então tremi.
Quatro mulheres, ou o que parecia ser quatro mulheres, devoravam com ternura e em câmara lenta um senhor que aparentava mais de 80 anos e enquanto comiam os pedaços do velho, sorriam.
Voltei para a porta e já não havia porta. Melhor, havia agora uma outra porta; corri para ela e encontrei um imenso corredor cheio de portas por todos os lados. Uma tinha o numero dois, fui direto para ela, e quando abri a numero dois, nada encontrei além de neblinas.
Eu não conseguia saber se era um quarto, um corredor, ou uma sala, onde eu me encontrava. Neblinas e neblinas, nada mais que neblina existia por ali e era tudo o que eu via, mais uma vez olhei a porta, e ela continuava lá, olhei para o lado esquerdo e notei outra porta, fui direto até a porta e abri e em minha frente, vindo do nada, um imenso jardim cheio de homens estranhos e com roupas por demais esquisitas, eles surravam umas flores também estranhas para mim, e o pior, elas riam e pediam mais. Um pouco à frente do jardim, carros em altas velocidades sumiam e reapareciam, dando voltas em uma pista inexistente, como se estivessem indo pra lugar nenhum. Suspirei e tentei encontrar em minha mente uma referência para aquele local-
- Será que eu estava livre?
Já começava a desistir de entender o que acabara de acontecer quando milhares de pessoas com todo tipo de anomalia tomaram a minha frente e os meus lados e sussurraram:
- Senhor R, senhor R –
E continuaram falando o meu nome como se acariciassem o meu corpo.
Eram figuras totalmente depravadas:
Leprosos, cegos, esqueletos, pessoas sem cabeça, sem perna, sem pernas, sem um olho e sem os dois.
Eu recuava e eles avançavam, e a cada momento eles ficavam mais rápidos, como se não tivessem anomalia nenhuma, e foram me empurrando, empurrando até um outro quarto e eu só percebi quando já estava dentro do mesmo. Olhei em volta e de repente eles sumiram, o quarto era completamente branco: teto, parede, piso, porta, tudo branco neve. Não havia nada no quarto além dos óculos escuros, no canto esquerdo; peguei-o e coloquei em cima dos meus olhos e duas belas mulheres sorriram para mim.
- Pode tirar os óculos - disse a moça mais próxima de mim, então tirei.
- O senhor R é muito bonito - disse a segunda, que estava mais ao fundo do quarto, e o seu olho esquerdo caiu. Senti que ia desmaiar, e as duas mulheres agora eram quatro e envelheciam e rejuvenesciam em uma velocidade atordoante, até que uma bem jovem me olhou e disse –
- Faça a nossa nosografia - e cada vez mais baixo repetia:
- Nosografia, nosografia. Não desmaiei e então, certo que o fim estava próximo, caminhei duramente para a porta enquanto as quatro repetiam:
- Nosografia –
Abri a porta e encontrei o funcionário. Eu disse –
- Quero ir embora.
- Ir embora? Mas por quê?
- Porque se não eu vou enlouquecer.
O funcionário, como se nem tivesse me ouvido, perguntou –
- Tá com fome?
- Sim, estou.
- Vem, vamos almoçar, o senhor R tem dois dias que não come nada, e o senhor deve estar bem alimentado, pois o seu dia é amanhã.
- Amanhã? - Perguntei assustado.
- Sim. O senhor já visitou todos os quartos.
- Como? Todos os quartos? Eu só entrei em dois e em um jardim.
- O senhor me chamou de mentiroso?
- Não, não, tudo bem. Nesse momento surgiu em minha frente um imenso portão e pessoas entravam e saiam em um ritmo frenético, eu olhei para ele e ele sorridente falou.
- Ali é a saída e a entrada, agora é o turno da entrada, mas alguns podem sair para cumprirem missões externas - E eu via belas mulheres, rapazes vigorosos e vencedores, operários e todo tipo de graduação de funcionário, então perguntei –
- O que é isso aqui?
- Melhor não saber. Ganha mais pontos –
- Isso é uma fabrica de ilusões terríveis - Afirmei e ele me olhou profundamente e então eu estava com um prato de comida na mão e quando comecei a comer joguei longe o primeiro bocado, mas a fome aumentou e aumentou. Comi aquela maldita comida, ele sorria e também comia, vários comiam, ou melhor, todos comiam. Ao término do meu almoço, coloquei o prato em um balcão e o sorridente funcionário me perguntou -
- Gostou?
- Gostei.
- O senhor acabou de comer carne de leproso do milênio passado, guardado com sangue de rato e bosta de velha - Eu tentei vomitar. Mais nada consegui além de cuspir um dente fora.
O funcionário sorridente disse –
- O processo está começando - eu me desesperei.
- Que processo? – e todos sorriam e eu percebia que podia ser o meu fim o tal processo e então comecei a gritar –
- Eu quero sair. Sair, sair. Sair - Ele suavemente me pegou pela mão abriu o portão e falou com uma voz macia –
- Vai, ingrato, fora! – rapidamente ele se transformou e completamente transtornado dizia -
- Fora. Fora agora - ele gritava e sua cara parecia de um macaco zangado.
- Fora. Fora - eu corri muito, e depois de muito correr parei e verifiquei que eu estava a três ou quatro metros distantes da casa, e que ela era linda e de arquitetura barroca.
Eu precisava de um trago. Parar de beber, estava me enlouquecendo.

Ronaldo Braga


7 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Acho que já li, mas depois vou voltar pra ler de novo e comentar.

abraço

Luciano Fraga disse...

Braga, já conhecia esse texto.O caminho (da) e para a felicidade é insondável,para encontrarmos a satisfação, idem e ainda assim muita gente abstem-se de muitas coisas por conta de dogmas, regras,até mesmo por uma falsa segurança e terminam mantendo-se em locais(trabalhos) que trazem apenas insatisfação e torna-se no fim uma droga como outra qualquer, abraço.

. fina flor . disse...

querido, sem tempo, agora, para ler um texto tão grande, mas depois passo com calma.

adoro essa música!

beijos

MM.

pianistaboxeador21 disse...

Já tinha lido.
Muito bom.

pianistaboxeador21 disse...

Já tinha lido.
Muito bom.

anjobaldio disse...

Muito bom Ronaldo. Grande abraço.

Marcela Isis disse...

Excelente, Ronaldo, belo (como de praxe). Fico muito feliz e ter acesso a teus textos, obrigada.

=)