sexta-feira, junho 12, 2009

Seus vestidos vermelhos não molham mais o meu coração.

Usar as minhas botas velhas? Você?
Eu não estou surpreso pela linha de raciocínio que você se me entrega, eu sei que sempre foi assim em suas intermináveis conversas, tudo começava com uma calça ou mesmo uma camisa e até uma meia, e aquele cueca era típica de homens menores ou você descobria de repente que aquela minha bermuda predileta não era roupa de uma pessoa de bem e que as mentes vazias, não possuem uma classe pra se vestir, e depois de soltar todos os seus fracassos em minhas roupas, a senhora continuava a falar, falar e falar.
A senhora nunca mudou, toda sua festa resume-se em anunciar ao mundo, a descoberta da existência de um lado escuro em mim, como você me dizia, antes de recusar o almoço.
Mas na verdade depois dessas aparências, a real intenção surge em seu horizonte: viver pra me difamar.
Mas como diz o seu texto, as minhas botas velhas, desnudam, não um andarilho, antes, um corredor, uma pessoa que buscou o tempo todo fugir das desilusões dos cosmopolitas do terceiro mundo e que não teve medo de silenciar diante da pequenez dos que se acharam gigantes.
Sim é bom você reconhecer, eu vivi esse tempo todo embrutecido pelo caldo vicioso de suas veias e ainda cuidando de suas banalidades, e mesmo sabendo de seu estado doentio, eu tudo fiz pra lhe manter digna, ignorando conselhos até mesmo de sua família.
Outra vez surpreso, não sei a que chama você se refere.
Na verdade, a senhora nunca teve paciência com nada além dos elogios à sua beleza ou aos seus belos vestidos e acessórios, você sempre foi fútil, exatamente isso: superficial.
Racional?
Você?
Delirando como sempre, toda vez que você faz alguma feitiçaria você se autodenomina de racional, e de amante. Saiba que seu amor impossível é realmente totalmente impossível, uma vez que amor em sua pessoa é um engodo, ou uma brincadeira de terror, só a senhora é que não sabe disso e continua a cantar o amor como tempestade, e depois cansada, deprava o mundo com suas lamentações reativas.
As nossas conversas sempre foram as ultimas e não há nada nelas que mereça ser recordada.
È, eu sei de sua mania por símbolos, eu já lhe informei que novos encontros se tornaram improváveis, não por seu vestido vermelho, ou mesmo pelos seus sapatos azuis, não, mas sim pelas fechaduras de sobrepor dos pobres, com seus cuidados para entrarem em suas casas e não ferirem o ombro. Você sabe que sou sentimental e que a presença de um pobre me faz chorar e lembrar, até hoje não sei por que, das fechaduras de sobrepor.
Você pensa que eu me importo com suas bebedeiras ou danças ou orgias, o meu pequeno mundinho conhece a verdade dos seus sonhos, toda a sua fantasia se reduz em me destruir, em repetir sua canção de morte por toda a minha beleza, que você não limitou em diminuir, e agora pretende fazer crer que nunca houve.
Eu sempre soube da sua busca incansável ao meu outro lado e dos seus rompantes como esse de me perguntar se é repetitiva? A sua musica sempre foi de uma nota só.
Eu estou no único lugar pra onde você nunca olha: dentro de você, e seu vestido vermelho apenas é a sua esperança de me afastar pra sempre, de me fazer ir, sair de você e finalmente você poder me encontrar lá dentro de sua guerra suja, indolor, inocente e silenciosa.
Há dias que acordo e vejo sua sombra encardindo meu sorriso e sei então de suas dobras e espero o vir a ser de suas dores, com a certeza dos cortes resistentes das minhas memórias.
Nada espero senão encontrar-te em tua ausência.
Sem mais deste que não mais te ama.

Hoje reli esta carta, que eu não tive coragem de enviar ao correio.
A carta que é endereçada a uma mulher que há muito tempo azucrina o meu coração, não sei como hoje a li em uma revista especializada em amores fracassados e para a minha surpresa ela ta assinada por nada mais e nada menos que a própria azucrinadora da minha vida. Essa senhora que eu respeito, mas pelo visto não se respeita, não sei como teve acesso a minhas coisas e eu desconfio muito da minha secretaria e vou demiti-la. Eu a escrevi e não a enviei.
Qual a intenção dessa senhora em publicar a minha carta não enviada, por que ela não publicou a carta que ela me enviou, onde entre outras perolas ta lá escrito:
- Você vai me encontrar de vestido vermelho, e completamente sensual, coisa que você nunca aprovou em mim, seu medo de me perder te faz ser assim: Tolo e ultrapassado, a minha beleza tornou-se um tormento para um homem menor como você.
Ela escreve isto entre outras tantas mentiras, pois eu sempre a incentivei a se embelezar, uma vez que ela se vestia, foste em festa ou em casa, com roupas que a deixava velha. Ela altera tudo. O que diz, depois fui eu quem disse, é só interessar que o meu discurso passa a ser o dela e o dela o meu.
Ela deveria se não fosse uma doente, postar o texto dela, e revelar para os amigos e para o mundo quem ela é de verdade; Uma camuflada. Lembro com terror de muitas noites passadas. Quando ao lado de nossos amigos ela sempre era amorosa comigo, me beijava e deixava no ar uma certeza de uma longa noite de amor e sexo, mas bastava estarmos a sós pra ela dizer:
- É melhor não acreditar em nada do que eu disse, eu falo essas coisas por que eu gosto de você e quero que todos pensem que você é um homem de verdade e não essa coisa pobre e podre que na verdade o senhor é.
Ela dizia isso e se trancava em um silencio mortal e nada do que eu dissesse abalava ela deste mundo silencioso. Agora ela me surpreende publicando uma carta que eu escrevi pra ela e não a enviei.
O que mais me impressiona é que ela ainda me cobra como se fossemos marido e mulher. Mesmo estando separados por mais de dez anos, todo dia ela me liga e me cobra coisas, me dar ordens e fala como se ainda estivesse dormindo comigo. Ela é completamente maluca.
Relendo esta carta que eu não enviei, resolvi que hoje vou mandar flores e chocolate pra ela e um cartão dizendo assim:
- Meu amor, eu estou com saudades de teus agrados.
Os senhores pensam que eu estou louco, pois saibam que ela odeia flores e mais ainda chocolate e muito mais ainda cartão no meio de arranjo romântico de flores.
O único prazer dela é me aporrinhar.

ronaldo braga

9 comentários:

Thiago Cerqueira disse...

olá Ronaldo, estou passando pra deixar o link do meu blog com vc.
Acompanho sempre seu blog.
Abraço!!!

/blogalemdoqueseve.blogspot.com

Luciano Fraga disse...

Braga, decretada a falência.Lembrei-me de um certo trecho de Crepúsculo dos Idolos, onde o Sr F. N. diz que certos individuos deixam-se seduzir por motivos desinteressados,quase como uma fórmula para a decadência.Assim culpa e pune o mundo, quando poderia muito bem simplesmente admitir: "eu não presto".E isso contagia.Coincidentemente,parece até com uma certa bandeira vermelha que a gente conhece.Grande abraço.

. fina flor . disse...

uau, texto grande, hoje tô sem tempo, volto com calma depois, mas deixo meu beijo

MM.

Marcia Barbieri disse...

Seus textos me fascinam, eu sei me repito e nunca me explico com sua maestria, sou dessas críticas que só distingue dois tipos de textos: os ruins e os indescritíveis, nem preciso dizer em qual deles o seu se encaixa. Seus símbolos são perfeitos e imperfeitos qdo necessário. Amei, pena que não sei ser clara o qto gostaria.

beijos sempre ternos

anjobaldio disse...

Caro Ronaldo, já tinha lido teu texto antes. Cara, tá na hora de você publicar este livro de contos-crônicas (talvez registros deste louco caos em que nós nos entranhamos e ao mesmo tempo nos deliciamos). Você sabe que o livro é um objeto artístico e mágico. Grande abraço.

Ruela disse...

Concordo com o Nelson, os seus textos merecem o registo "eterno" do papel.



Abraço.

. fina flor . disse...

querido, hoje eu li.

espero que seja literatura, rs*, porque não tem nada pior nessa vida do que ter nossa privacidade invadida.

beijocas

MM.

pianistaboxeador21 disse...

Que legal velho, gostei em primeiro lugar do título. Uma cvoisa meio brega, mas aquele Brega bonito dos anos 70 de Fernando Mendes, E Balthazar e Roberto Carlos. Uma coisa meio escrachada, com cara de bolero e dor de cotovelo. Se for ficcção é das melhores, se for verdade, vc tá fodido pq ainda conseguiu esquecer da mulher ou se desvencilhar dela. De qualquer forma, ainda que seja verdade, é um dos preços que a Arte cobra. O cara tem de se foder pra criar uma coisa bonita como essa. Gostei da estrutura. Carta roubada, resposta, trechos da carta dela. isso cria um mundo. E quando ele, o narrador, ainda quer aporrinhar flores, chocolates e tal e se deixa aporrinhar por ela é prova que ainda há amor.

Abraço

Anônimo disse...

Roni,

Estes vestidos devem ser sempre coloridos, preferencialmente no tom vermelho, cor da paixão, de sangue, de vida. Conhecia o texto e, é claro que a identidade é imediata.

beijinhos carinhosos,

Maria Branco