domingo, junho 07, 2009

Ausências

Procuro e não identifico a sua presença no filme, sei que é você, mas a voz lenta faz com que seja efetivado o descolamento entre a imagem e o som, a lembrança do seu rosto ou o tom da sua voz me parece tão distante que não consigo alcançar...

Eu sabia que esta imagem ia ser decisiva para a sua partida, era voce indo e eu sentindo uma ausência absurda, um vazio tão grande que não cabia em mim....

Era a sua irreverência expressa na lentidão das articulações do primeiro minuto da cena do filme...

A Ausência em que voce expressa o sentimento da ausência, é vista de forma muito absurda porque você não tinha a referência da Presença...

Sei que é humanamente impossível sentir a falta de algo que nunca se teve, chega a ser um exercício do sobrenatural, onde a relatividade passa para um segundo plano e voce assume o primeiro plano de cena.

Você quer saber da credibilidade e eu instigo a veracidade, acho mesmo que você não é um monstro, acho que voce não pode ser um monstro, ainda mais, um monstro produzido em laboratório.

Você até pode ser um monstro, mas do tipo que se formou sozinho, não motivado pelas ausências, mas sim, pelas presenças dos seus fantasmas mal resolvidos... dos fantasmas que você não conseguiu delinear, não conseguiu fotografar e agora tenta me assombrar nesta noite infame!

Não irei me deixar levar pelas suas loucuras, a sua ausência de juízo sempre me importunou... eu que sempre tive a lucidez suficiente para nós dois...

Você foi minando a minha confiança em você, depois foi minando a minha confiança em mim e, finalmente, tenta me apresentar um monstro como fiel parceiro para as noites insones...

Eu não me identifiquei com o Frankie, porque não lhe vi nele, porque não conheço equipe de cientistas que fosse capaz de produzir algo tão absurdo, algo tão latente em mim, algo tão distante de você...

Eu não vou voltar para a sua casa, enquanto ele estiver por lá, eu vou estar ausente durante todo o período da exibição da ausência, e vou estar presente quando voce me presentear com o seu presente isolado do futuro, sem sombras de passado.

Só peço que me entenda, pois se não lhe reconheço, não posso pedir perdão, seria o mesmo que rezar sem a fé necessária, sem as crenças, sem as velas, sem a luz, sem a fala, sem você.

Estarei ausente por um longo período, portanto, procure me manter viva em suas lembranças mais remotas, de forma que no dia seguinte, você possa me reconhecer no primeiro olhar e no último beijo.

Esta é a sua única chance de recuperar a maternidade perdida, inexistente, inócua, incolor e inodora, porque, uma vez que voce não mais bebe, de que adiantaria rolar um mar de lágrimas?

Procurarei, ao acaso, me manter mais próxima durante a minha ausência, assim você terá ao menos a mim, quando sair desse transe.

Eu ainda vou ter que lhe reconhecer, portanto, não demore muito para ir embora, assim corre o grande risco de que eu finalmente decida fugir com voce.


MARIA BRANCO

2 comentários:

Guí disse...

...Fantastico

Luciano Fraga disse...

Braga, muitas vezes estamos fisicamente nos lugares, nos ambientes, nos relacionamentos,mas no fundo , no fundo, estamos totalmente ausentes, muito bom, abraço.