sexta-feira, junho 26, 2009

luciano fraga, nelson magalhães filho e ronaldo braga

Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho


GUERRA DAS ALMAS


No princípio era apenas

o homem.

E do sopro

fez-se uma espada,

com a boca de cor

e um juízo

de barro...


Luciano Fraga

SÃO JOÃO E O DINHEIRO DA PETRO


A espada cresce na noite e o meu cerebro examina como um louco os lados desta tão mal e bem dita festa. O licor estremece os timidos, os fracos, e os faz rir um riso solto besta e babaca nas fumaças dos dolares da petrobras: financiamento a curto prazo, enriquecendo bolsos cruzalmenses ou não.
Eu estou em pé diante da fogueira e já não ouço a famosa frase:
- São João passou por ai.
Cansado de tanta euforia invertida, de tanta falsa seriedade de doutores e doutoras sociais, eu simplesmente arranco mais um pedaço do meu nariz e o arremesso contra todos os muros e canto a derrota do povo mais uma vez em silabas garrafais.
São João: a derrota ou a vitoria cantada e sentida em licores, fogos e incendios mentais.
O caos re-instalado em minha mente-casa se rebela e pede uma organização urgente e linear. Eu sou um homen sorridente e sem dentes a cantar a vitoria do meu inimigo em sorrisos colgates. Eu sou a besta alegre a me vestir de vermelho e chorar os mortos alheios, eu sou a falsidade a declarar morta a mentira e a dizer em alto tom:
- O brasil é feliz e cresce a todo vapor. Afinal que me importa a pessima educação, a saude publica, e os miseraveis a receber a esmola mensal do governo federal, é são joão e eu vou soltar espadas, tomar licor e dizer viva a corrupção, viva a direita que me apoia e nem me importa a que preço, e viva o povo boi que me diz: eu quero o terceiro.
É são joão em Cruz das Almas e as espadas ferem os corações ladinos, ASSUSTAM bois e espantam moças pra lá de donzelas.
É são joão e a alegria é o dinheiro da petrobras.

ronaldo braga

sexta-feira, junho 12, 2009

Seus vestidos vermelhos não molham mais o meu coração.

Usar as minhas botas velhas? Você?
Eu não estou surpreso pela linha de raciocínio que você se me entrega, eu sei que sempre foi assim em suas intermináveis conversas, tudo começava com uma calça ou mesmo uma camisa e até uma meia, e aquele cueca era típica de homens menores ou você descobria de repente que aquela minha bermuda predileta não era roupa de uma pessoa de bem e que as mentes vazias, não possuem uma classe pra se vestir, e depois de soltar todos os seus fracassos em minhas roupas, a senhora continuava a falar, falar e falar.
A senhora nunca mudou, toda sua festa resume-se em anunciar ao mundo, a descoberta da existência de um lado escuro em mim, como você me dizia, antes de recusar o almoço.
Mas na verdade depois dessas aparências, a real intenção surge em seu horizonte: viver pra me difamar.
Mas como diz o seu texto, as minhas botas velhas, desnudam, não um andarilho, antes, um corredor, uma pessoa que buscou o tempo todo fugir das desilusões dos cosmopolitas do terceiro mundo e que não teve medo de silenciar diante da pequenez dos que se acharam gigantes.
Sim é bom você reconhecer, eu vivi esse tempo todo embrutecido pelo caldo vicioso de suas veias e ainda cuidando de suas banalidades, e mesmo sabendo de seu estado doentio, eu tudo fiz pra lhe manter digna, ignorando conselhos até mesmo de sua família.
Outra vez surpreso, não sei a que chama você se refere.
Na verdade, a senhora nunca teve paciência com nada além dos elogios à sua beleza ou aos seus belos vestidos e acessórios, você sempre foi fútil, exatamente isso: superficial.
Racional?
Você?
Delirando como sempre, toda vez que você faz alguma feitiçaria você se autodenomina de racional, e de amante. Saiba que seu amor impossível é realmente totalmente impossível, uma vez que amor em sua pessoa é um engodo, ou uma brincadeira de terror, só a senhora é que não sabe disso e continua a cantar o amor como tempestade, e depois cansada, deprava o mundo com suas lamentações reativas.
As nossas conversas sempre foram as ultimas e não há nada nelas que mereça ser recordada.
È, eu sei de sua mania por símbolos, eu já lhe informei que novos encontros se tornaram improváveis, não por seu vestido vermelho, ou mesmo pelos seus sapatos azuis, não, mas sim pelas fechaduras de sobrepor dos pobres, com seus cuidados para entrarem em suas casas e não ferirem o ombro. Você sabe que sou sentimental e que a presença de um pobre me faz chorar e lembrar, até hoje não sei por que, das fechaduras de sobrepor.
Você pensa que eu me importo com suas bebedeiras ou danças ou orgias, o meu pequeno mundinho conhece a verdade dos seus sonhos, toda a sua fantasia se reduz em me destruir, em repetir sua canção de morte por toda a minha beleza, que você não limitou em diminuir, e agora pretende fazer crer que nunca houve.
Eu sempre soube da sua busca incansável ao meu outro lado e dos seus rompantes como esse de me perguntar se é repetitiva? A sua musica sempre foi de uma nota só.
Eu estou no único lugar pra onde você nunca olha: dentro de você, e seu vestido vermelho apenas é a sua esperança de me afastar pra sempre, de me fazer ir, sair de você e finalmente você poder me encontrar lá dentro de sua guerra suja, indolor, inocente e silenciosa.
Há dias que acordo e vejo sua sombra encardindo meu sorriso e sei então de suas dobras e espero o vir a ser de suas dores, com a certeza dos cortes resistentes das minhas memórias.
Nada espero senão encontrar-te em tua ausência.
Sem mais deste que não mais te ama.

Hoje reli esta carta, que eu não tive coragem de enviar ao correio.
A carta que é endereçada a uma mulher que há muito tempo azucrina o meu coração, não sei como hoje a li em uma revista especializada em amores fracassados e para a minha surpresa ela ta assinada por nada mais e nada menos que a própria azucrinadora da minha vida. Essa senhora que eu respeito, mas pelo visto não se respeita, não sei como teve acesso a minhas coisas e eu desconfio muito da minha secretaria e vou demiti-la. Eu a escrevi e não a enviei.
Qual a intenção dessa senhora em publicar a minha carta não enviada, por que ela não publicou a carta que ela me enviou, onde entre outras perolas ta lá escrito:
- Você vai me encontrar de vestido vermelho, e completamente sensual, coisa que você nunca aprovou em mim, seu medo de me perder te faz ser assim: Tolo e ultrapassado, a minha beleza tornou-se um tormento para um homem menor como você.
Ela escreve isto entre outras tantas mentiras, pois eu sempre a incentivei a se embelezar, uma vez que ela se vestia, foste em festa ou em casa, com roupas que a deixava velha. Ela altera tudo. O que diz, depois fui eu quem disse, é só interessar que o meu discurso passa a ser o dela e o dela o meu.
Ela deveria se não fosse uma doente, postar o texto dela, e revelar para os amigos e para o mundo quem ela é de verdade; Uma camuflada. Lembro com terror de muitas noites passadas. Quando ao lado de nossos amigos ela sempre era amorosa comigo, me beijava e deixava no ar uma certeza de uma longa noite de amor e sexo, mas bastava estarmos a sós pra ela dizer:
- É melhor não acreditar em nada do que eu disse, eu falo essas coisas por que eu gosto de você e quero que todos pensem que você é um homem de verdade e não essa coisa pobre e podre que na verdade o senhor é.
Ela dizia isso e se trancava em um silencio mortal e nada do que eu dissesse abalava ela deste mundo silencioso. Agora ela me surpreende publicando uma carta que eu escrevi pra ela e não a enviei.
O que mais me impressiona é que ela ainda me cobra como se fossemos marido e mulher. Mesmo estando separados por mais de dez anos, todo dia ela me liga e me cobra coisas, me dar ordens e fala como se ainda estivesse dormindo comigo. Ela é completamente maluca.
Relendo esta carta que eu não enviei, resolvi que hoje vou mandar flores e chocolate pra ela e um cartão dizendo assim:
- Meu amor, eu estou com saudades de teus agrados.
Os senhores pensam que eu estou louco, pois saibam que ela odeia flores e mais ainda chocolate e muito mais ainda cartão no meio de arranjo romântico de flores.
O único prazer dela é me aporrinhar.

ronaldo braga

a poesia de alyne costa

Terra Mater


Entre hortências e pés de café
Sonho virar parteira
E as raízes que sugam o néctar do solo me sussurram segredos antigos
Que no coração da natureza tanto faz bicho ou gente
Flor ou semente
Beija-flores rodopiam
E entre um ou outro ninho de passarinho
Um vaga lume percorre a noite sozinho
Sinto cheiro de vida
E uma brisa leve acalanta qualquer receio
Aprendo manha de serpente
E a mata ganha forma de gente
Já nada mais sou que parte deste ciclo da vida
Vida campesina possível e real
E a mão do poeta colhe as hortaliças viçosas
A mão da poeta prepara um café
E tudo passa a ter um sentido que a mente não compreende
Porque nem tudo é passível de compreensão
Basta os sinais lidos pelo coração
Que atravessa a mata e escala as montanhas
Que rocha, bicho, água, flores e ervas dão a lição
Terra Mater, mãe da vida
Da flora e fauna, da gente oprimida.
Mãe de acalanto profundo.
De respeito à natureza e ao mundo.




Alyne Costa

domingo, junho 07, 2009

Ausências

Procuro e não identifico a sua presença no filme, sei que é você, mas a voz lenta faz com que seja efetivado o descolamento entre a imagem e o som, a lembrança do seu rosto ou o tom da sua voz me parece tão distante que não consigo alcançar...

Eu sabia que esta imagem ia ser decisiva para a sua partida, era voce indo e eu sentindo uma ausência absurda, um vazio tão grande que não cabia em mim....

Era a sua irreverência expressa na lentidão das articulações do primeiro minuto da cena do filme...

A Ausência em que voce expressa o sentimento da ausência, é vista de forma muito absurda porque você não tinha a referência da Presença...

Sei que é humanamente impossível sentir a falta de algo que nunca se teve, chega a ser um exercício do sobrenatural, onde a relatividade passa para um segundo plano e voce assume o primeiro plano de cena.

Você quer saber da credibilidade e eu instigo a veracidade, acho mesmo que você não é um monstro, acho que voce não pode ser um monstro, ainda mais, um monstro produzido em laboratório.

Você até pode ser um monstro, mas do tipo que se formou sozinho, não motivado pelas ausências, mas sim, pelas presenças dos seus fantasmas mal resolvidos... dos fantasmas que você não conseguiu delinear, não conseguiu fotografar e agora tenta me assombrar nesta noite infame!

Não irei me deixar levar pelas suas loucuras, a sua ausência de juízo sempre me importunou... eu que sempre tive a lucidez suficiente para nós dois...

Você foi minando a minha confiança em você, depois foi minando a minha confiança em mim e, finalmente, tenta me apresentar um monstro como fiel parceiro para as noites insones...

Eu não me identifiquei com o Frankie, porque não lhe vi nele, porque não conheço equipe de cientistas que fosse capaz de produzir algo tão absurdo, algo tão latente em mim, algo tão distante de você...

Eu não vou voltar para a sua casa, enquanto ele estiver por lá, eu vou estar ausente durante todo o período da exibição da ausência, e vou estar presente quando voce me presentear com o seu presente isolado do futuro, sem sombras de passado.

Só peço que me entenda, pois se não lhe reconheço, não posso pedir perdão, seria o mesmo que rezar sem a fé necessária, sem as crenças, sem as velas, sem a luz, sem a fala, sem você.

Estarei ausente por um longo período, portanto, procure me manter viva em suas lembranças mais remotas, de forma que no dia seguinte, você possa me reconhecer no primeiro olhar e no último beijo.

Esta é a sua única chance de recuperar a maternidade perdida, inexistente, inócua, incolor e inodora, porque, uma vez que voce não mais bebe, de que adiantaria rolar um mar de lágrimas?

Procurarei, ao acaso, me manter mais próxima durante a minha ausência, assim você terá ao menos a mim, quando sair desse transe.

Eu ainda vou ter que lhe reconhecer, portanto, não demore muito para ir embora, assim corre o grande risco de que eu finalmente decida fugir com voce.


MARIA BRANCO