domingo, maio 31, 2009

ela chupava com avidez e amadorismo

A fila e o silencio marcava um ritmo macabro àquela cena. O que será que tem ali? Todos na fila eram homens acima de 40 anos e tinham na mão um pequeno pote de sorvete, vários sabores. Caminhei então, até o inicio daquele aglomerado de homens taciturnos e então eu a vi, ela era uma menina de dois anos e segurada pelo pai, chupava avidamente o sorvete que cada um daqueles homens colocavam em seus pênis. Parei e fiquei a observar a cena e admirado estrangulei toda ontologia, e o meu ser era agora uma besta a observar uma profissional. Profissional? E percebi que não somente era o sorvete que ela chupava, com uma avidez e sem técnica, ela satisfazia cada um, e seus olhos revirados em latejantes espirros consumiam lagrimas em espôrros constantes, enquanto seu pai, sorridente, recebia quatro reais de mãos caladas e tremulas, que saiam parecendo de um inferno, com olhos tristes e atentos a vomitarem sorrisos em passados inumanos. Eu em um andar cambaleante gritei raivas impotentes numa insatisfação contraditória. Aqueles homens sorriam sangue e eu vomitava humanidade em meu cerebro combalido, eles gozavam e sorriam e ainda pediam descontos ao pai.
Fiz um rápido estudo da situação e resolvi ir embora, eu não seria um bom cliente, primeiro: gosto de conversar e me embriagar com as minhas parceiras; e depois um enojado sentimento assassino contorcia todo o meu corpo. Cansado e perdido em axiomas moralistas, caminhei e ao lado da casa, outras meninas maiores ofertavam bundas e resmungavam sofrimentos e despiam odores em flagrantes desesperos. Mais adiante um bar recebia os transeuntes e marcavam os pontos.
Ali de frente pra vida, eu lembrei de minha filha, e um vazio inexorável preencheu meus mundos. A vida era a vida, e pronto, não há salvadores e nem salvações. O mundo um imenso laboratório, e os descartáveis podiam sorrir dores em esperas macabras e buscarem na morte, uma possível recompensa. Saí dali a engoli guerras, e ruminar merda nos amores do mundo, que ainda me permitia surpresas e pesos. Desistências povoavam a minha cabeça e era um copo o que eu queria.
Entrei no primeiro bar ou o que parecia ser um. Bar da Creuza. E uma sorridente e baixa mulher me atendeu. Tomei alguns conhaques e uma cerveja e pude observar o macho da Creuza, um cara de bunda de viado recusado, teimava em afirmar que estava sendo traído - ele dizia - Você fede a cigarro, sua cama fede a cigarro e eu sinto cheiro de homem na cama – ela respondia - Não meu bem, eu não já lhe disse, um amigo meu fez um filme aqui e usou a minha cama – ele insistia – Filme? Eu sei qual filme - ela dizia – Não – ele dizia – Sim - e então ele zangado saiu com passos pesados e cara de fuinha. A Crêuza era feia, mas o cara era realmente o seu par perfeito.
Sai dali para mais um vomito e um bom sono de um sobrante bêbado solitário. O mundo cada vez menor me pedia silencio ou morte, eu não era um heroi era apenas um bebado moralista e cheio de verdades prontas. ADORMECI CANSADO E SABEDOR QUE NUMA TARDE FRIA MENINAS AINDA EM FRALDAS DAVA DURO PRA SUSTENTAR A FAMILIA. Eu tava ficando velho.

Ronaldo braga

9 comentários:

Rafael Castellar das Neves disse...

Uma descrição muito bem feita...detalhes que dá pra sentir!
Abs..

Marcia Barbieri disse...

"O mundo cada vez menor me pedia silencio ou morte, eu não era um heroi era apenas um bebado moralista e cheio de verdades prontas."Sempre me sinto entre a cruz e a espada ao escolher trechos do seu texto,pois cada parte parece milimetricamente pensada e sentida.Meu eterna admiração

beijos ternos

Luciano Fraga disse...

Braga,ao ler esta maravilha de texto, fiquei me sentindo como se caminhasse por uma orla, ou uma beira de caís absurdo, entre meninas e meninos e crianças prostituídas e usurpadas por velhotes frustrados, enquanto imaginava o cenário do filme sendo rodado na cama de um amante amador e mal amado,grande abraço.

anjobaldio disse...

Muito bom Ronaldo. Literatura é isto, expor nossas vísceras para criticar a realidade medíocre e este absurdo cotidiano. A arte não precisa ser agradável. Abrs.

Zinaldo Velame disse...

Belo texto Ronaldo, forte e direto! Abraço!

Adriana Godoy disse...

Que beleza de texto, aproveito para lhe dar os parabéns e muitos anos de vida e criatividade. Bravo. Beijo de uma leitora quase assídua.

anjobaldio disse...

Ronaldo, FELIZ ANIVERSÁRIO, muita criatividade e vida longa. Grande abraço.

. fina flor . disse...

tenho pena dessas meninas que sustentam suas famílias =/

beijos, querido

MM.

Jurandy Boa Morte disse...

É tão lindo e veraz que incomoda. Estou boquiaberto com sua escrita e as possibilidades com que carregastes as metáforas. Lindo e angustiante como convém aos deuses.

Parabéns do pretendente a aprendiz aqui.