segunda-feira, abril 27, 2009

medo

TENHO UMA SENSAÇÃO, que nem sei se posso chamar de sensação, mas me parece a melhor forma de designar o que estou sentindo. Desde ontem que um frio estranho percorre o meu corpo e depois vem logo um esquentamento que parece que tudo vai explodir dentro de mim.
O mundo tem estado pesado, uma atmosfera agressiva apavora passaros e ventos, e essa sensação estranha agoniza fatos antes relevantes e até mesmo de importancia capital, ao redor olhares curiosos meditam fotos e deslizam memorias numa suposta operação de salvaguarda.
Andar tem se tornado uma tormenta, nas ruas o medo é tolamente engraçado e as pessoas dão gritinhos histericos quando os olhares se encontram, além da latente ordem do dia, os ombros caidos denunciam a humilhante derrota popular, o povo aos poucos toma con/ciencia de sua nenhuma importancia, e fundamentalmente de sua covardia e cabisbaixo ensaia um sorriso de deus sabe o que faz, e lamenta o dia pesado e cansativo.
A sensação de inutilidade passeia pelo meu corpo enquanto que o frio e o calor intenso se revezam, são exatamente 15 horas de uma tarde poeirenta, de ventos e chuvas fortes, e eu sei dos vulgos do norte e dos sermões papais, os jornais noticiam o encontro de um corpo de uma menina em um saco num congelador de uma igreja envangelica, desligo os jornais e a chuva em minha frente é noticia ruim de um encontro perdido.

terça-feira, abril 21, 2009

http://www.amalgama.blog.br/04/2009/frida-kahlo-maravilhosa-e-visceral/






Frida Kahlo, maravilhosa e visceral

por Daniel de Souza * -


“Que maravilha!” Consta nos diários de Cristóvão Colombo esta frase para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele.

Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal em nosso continente é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus, consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há uma divisão. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha do continente, basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização inca.

A mestiçagem também é um componente a mais para nos tornar um povo, de certa maneira, mais propenso, mais ligado à magia e ao “absurdo”. Basta ver a nossa religiosidade, misto de religiões africanas, européias e indígenas. O vodu haitiano, o candomblé baiano são testemunhos do quão arraigado está em nossa carne o ilógico, (ilógico aqui quer dizer aquilo que não obedece a uma lógica cartesiana) e o quão arraigado está em nós o onírico, o imaginado.

É neste sentido que o “maravilhosa” do título vem adjetivar Frida Kahlo (1904-1954), pintora “surrealista” mexicana. Diferentemente do que ocorre com os pintores surrealistas europeus, mais notadamente o expoente Salvador Dali, que têm uma grande influência e uma tremenda assimilação das teorias freudianas, em Frida o surrealismo parece ser algo intrínseco, quase que naïf, como se, para ela, aquela fosse a única maneira possível de se expressar e de pintar.

Em Frida o ilógico é a única lógica. Suas metáforas parecem brotar tanto do centro de sua Terra – observar os quadros Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949), Flor da vida (1943), e O Sol e a vida (1947) – quanto de dentro dela mesma – observar as telas O veado ferido (1946), Árvore da esperança (1946), A coluna partida (1944; ao lado), esta última uma das telas mais fortes de todos os tempos.

Para explicar o outro adjetivo, visceral – que vem de vísceras, e quer coisa mais subjetiva do que as próprias vísceras? – teremos que dar uma pincelada em alguns dados biográficos da artista.

Frida Kahlo teve uma vida recheada de dor (é possível criar sem sofrer?). Filha de um pai epiléptico e de uma mãe extremamente religiosa, Frida, aos seis anos, teve poliomielite, o que a deixou com uma perna mais fina que a outra e com o pé esquerdo atrofiado, além de lhe render o apelido de “perna de pau” na escola. Aos dezoito anos, a pintora sofreu um acidente de automóvel, que lhe esmagou a coluna vertebral e lhe deixou impossibilitada de ter filhos. Tudo isso, mais as dúvidas quanto à própria sexualidade e mais a questão da identidade são temas constantes em sua obra.

Para mim, que sou um romântico declarado, a grande Arte é movida muito mais pela paixão que pela razão, e… Frida faz isso. Sua Arte é tão íntima, tão pessoal, tão “ego” que se torna universal, humana, “self”. Suas telas são todas metáforas de fatos, opiniões, sentimentos e situações pessoais. Frida Kahlo nos seduz pelo coração e não pelo intelecto. É mais ou menos o que Vincent Van Gogh também procurava fazer.

Outro aspecto importante a seu respeito, e que não poderia ser deixado à margem, é a questão da arte feminina. Frida é uma das primeiras pintoras a abordar de fato questões relacionadas ao universo das mulheres, como a maternidade, ou a impossibilidade da maternidade, por exemplo (ver as telas Nascimento (1932), A cama voadora (1932) ou ainda a questão da violência contra a mulher, que a pintora retrata tão bem na tela Uns quantos golpes (1935; ao lado).

Toda a obra da pintora é fascinante, mas todo artista tem aquelas obras que de fato são fora do comum, realmente impressionantes e que nos deixam boquiabertos. No caso da mexicana, as duas obras de tirar o fôlego são a já citada A coluna partida e As duas Fridas (1939). Esta, pintada pouco depois do divórcio da pintora com o também pintor Diego Rivera, é um auto-retrato composto por duas personalidades diferentes. No trabalho, Frida trata das emoções envolvidas na separação. A parte de si que era respeitada por Diego Rivera é a Frida mexicana, com trajes pré-colombianos e com uma pequena fotografia nas mãos, enquanto a outra Frida, não tão respeitada assim, leva um vestido branco mais europeu. Os corações das duas mulheres estão expostos e são ligados, um ao outro, apenas por uma artéria e a parte européia de Frida corre o perigo de se esvair em sangue até a morte, uma vez que uma das veias de seu coração, embora meio que obstruída, ainda sangra, manchando de vermelho o belo vestido branco.

É difícil pra mim, quando estudo, ou apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção “Beatriz”, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura… / E se eu pudesse entrar na sua vida…”

Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada. E eu posso entrar na vida dela, mesmo com vinte quatro anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco, eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu / e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu…” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e palavras doces na língua pra dizer a ela.

Beijos, Frida.


* Daniel de Souza Lopes é formado pela UNESP e participou do curso de mestrado em Teoria Literária da USP. É professor de Literatura e Língua Portuguesa e Espanhola do Colégio Objetivo e da Rede Pública Estadual. Lançou recentemente seu primeiro romance, É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança, pela Editora Os Viralata. Blogue: pianistaboxeador21.blogspot.com.

segunda-feira, abril 20, 2009

a poesia de graciela malagrida



Remake de mis días líquidos
por graciela malagrida

"Entre agua y luces
ocurren los milagros
porque Dios
también es líquidoelemento
y fina hebra
encendida."
G.M.


1

Para que una palabra como "agua"
apague cierta sed
es menester que el Espíritu
la posea

Para que la ambición queme
verdaderamente
debemos estar duros y secos
como viejos maderos

Para que el fuego nos consuma
en cualquiera de sus formas
quizás, sólo haga falta
dudar.


2

Te bebo
en breves sorbos
para disfrutar
la suave
y extensa sensación
de llenura
sobre
llanura.

Te sorbo
ruidosamente
para llamar la atención
de los que sufren
por no haber abierto
aún
el corazón.

Te veo
en el vapor del barco
y en el río
que al recibirte
se soflama
.
.
.
y cuando se miran las nubes
en mi cara
soy el agua y la palabra
o la fusión perfecta
por tu inflexión, dotada de hermosura
que cíclicamente
vuelve a tí.

segunda-feira, abril 13, 2009

Texto extraído da peça teatral FUCSIA, de ronaldo braga e nelson magalhães filho

Betty Blue OST "Le Petit Nicolas"



Seus olhos são meus olhos do passado, você é triste.
Eu sou um morto e você procura justificativas, mas irei falar, atento a você.
Eu lamento não ter matado mais pessoas, eu lamento por todos os vivos estarem vivos, eu sofro em cada felicidade alheia. Claro que foram vários os momentos em que fiquei excitado. A felicidade para mim sempre foi poder observar ao longe o enterro da minha vítima. Eu com um binóculo observava atentamente rosto por rosto, seio por seio, bunda por bunda. A expressão de tristeza é surpreendente quando verdadeira, não tem uma máscara determinada, o indivíduo pode ficar dando risinhos curtos e contidos repetidas vezes, ou ficar olhando para lugar nenhum. Houve enterro que eu me zanguei e fui embora, a família sofria artificialmente. Injustos. Eu lhes dei um morto, uma chance única de expressar algo de verdadeiro em si, a dor, a raiva e a sede de vingança. Injustos, não reconheceram no meu trabalho tanto a importância da vida para eles, como pela qualidade na execução do serviço. Nada a reclamar, só chorar, e eles choram e não me convencem. Lamento não tê-los matado ali mesmo no cemitério. A bem da verdade matei alguns depois. Lamento não ter matado aqueles caçadores quando na manhã do ultimo domingo saindo das brumas os encontrei desesperadamente abatidos e nos olhos dos cães a tristeza latia em dor. Mereciam morrer...eu estou morto e vi em você a morte.
Sofro pelos anjos dissidentes com seus passos tristes e choro lágrimas celestiais nos jogos obscenos das janelas e das madrugadas. Eu sofro nos olhos visionários dos anjos partidos e as dores como os ventos são anjos bestiais que me beijam com sangue e aço.
Eu já escolhi quem morre.

ronaldo braga e nelson magalhães filho