sábado, março 21, 2009

O Caminho do Sol de nuno gonçalves e Metrô linha 743 raul seixas







Eu queria escrever sem saudades e usar ao invés de tinta o sal arcaico dos mares. Eu queria saber em qual dia exato se desfez em minhas mãos a carta sagrada – roteiro e guia – de minha viagem impossível às terras de pasárgada. Eu queria ser arrebatado por um instante – efêmero que fosse – para o mais distante: o lado de fora do tempo. Ao menos hoje não fosse domingo, não fizesse sol e tanta gente na praia ou ao meu lado uma mulher louca e tresloucada vestida com o silêncio da noite passada me fizesse num único e solitário gesto a companhia de estrela naufragada. Não sei quem sou nem o que quero – desconheço a força rude que me move. Não sei de onde venho nem para onde vou – apenas pressinto o cio dos ventos que se aproximam. Parir deve ser como sentir cantares de velhas partidas. Vi mais uma vez as jangadas e as carroças estranhas: incendiadas pelo fogo castanho de uma memória sombria e parda. Revi a luz negra do asfalto irradiando a madrugada inacabada de nossos sonhos perdidos. Quiçá ser pirata isso seja: navegar, navegar, navegar. Viver de saquear a história mais longa – grávida dos acontecimentos que poderiam ter sidos e não foram, feroz e felina com olhos de pasto incendiado. Seguirei palmilhando as intempéries dos dias vindouros – animal que marcha sobre o solo pedregoso. Ao menos não estivesse nesta fortaleza sitiada ou soubesse dançar qual as algas os ritmos lunares. Não usaria mais as letras e sim as sensações da pele. Não usaria mais frases parágrafos nem mesmo travessões e sim os movimentos mais lúcidos de um corpo que se recusa a definhar. Gostaria de me encerrar na caverna dos maiores – tocar o medo e a tristeza dos longos dedos de uma pianista em lágrimas. Não posso, nada posso. Sou corsário: imperfeito, inapto, partido. Antes de tornar-me porto abandonado pelos barcos, sigo. Testamento de uma outra vida – esta mais enigmática e indecifrável pois ausente de aconteceres. Preenchida por um uivo insensato – vibração cega de um nervo exposto. Havendo divindades vivas – serão elas também corsárias após o findar do impulso amoroso. Quedaremos tristes na praia ou nas margens ébrias dos rios e alucinadamente buscaremos nosso reencontrar. Eis a voracidade desta estória mais longa. Eis a força que sustenta a nossa dor. O caminho maldito do sol em todo o seu esplendor.


Nuno Gonçalves

3 comentários:

Braga e Poesia disse...

a escrita de nuno faz perguntar:
quando foi o exato momento que o colorido do mundo desbotou?
quando percebemos que a dor era agora companheira infinita?
nuno historiador e professor nos oferta uma literatura bonita, cruel e sem fronteiras, apenas se infiltrando na vida, como a vida.

Luciano Fraga disse...

Braga, o Nuno com sua escrita forte, apresentou-me a alternativa de nadar, nadar, nadar e estacionar exausto às margens de mundos e de desencontros sob e diante de um sol escaldante, será que conseguiremos bater por lá? Grandioso texto, abraço.

Braga e Poesia disse...

caro fraga o nuno tem uma escrita escaldante