segunda-feira, março 16, 2009

AGORA EU ME SENTIA UM SER HUMANO

Era bem pesada a carga naquele dia, como em todos os dias. A minha cabeça inchada e dolorida exigia mais uma cerveja pra voltar ao normal. Merda eu não poderia nem pensar em um trago antes do almoço, mais uma vez eu acordara tarde e vomitara mais do que o normal. O trabalho sobre a mesa acumulara, mas essa tarde seria como todas as tardes, assim que eu tomar uns tragos eu iria atualizar todo o meu serviço. Uma olhada ao redor e eu pude notar todos ali no escritório a murmurarem entre dentes e de um jeito como só os covardes fazem, com uma maestria e uma falsa valentia que me forçava a rir e então uma pontada violenta sacudia a minha cabeça.
O meu olhar percorria toda aquela papelada inútil e um clamor de raiva fazia a dor de cabeça aumentar até o impensável. Duas horas depois a conversa ainda era sobre mim e dona Z uma gorda que não sabia nem mesmo o que era amar dizia pra dona G uma magra azeda que sorria sempre por qualquer motivo, mais falava mal de todo mundo. No momento que eu pude ouvir era assim o diálogo das cobras esquecidas:
Dona Z - minha filha, como esse homem ainda trabalha aqui? Ele não faz nada até o almoço. E só trabalha um pouco pela tarde. Todos os dias ele vem com uma cara de bicho. Também bebe sem parar.
Dona G – bebida só! Minha querida ele deve ser um grande drogado. E as farras com mulheres! Não sei como ainda tem mulher que se dá ao desfrute de ir pra cama com um tipo desses.
A conversa era sempre a mesma. Quando não eram elas, era o senhor T. Um desprezível impotente e mesquinho, que estava sempre contando vantagens sexuais. Todo dia, ele contra o meu gosto, vinha até minha mesa, e me dizia com uma cara deslavada e mentirosa.
- Senhor P. essa noite foi maravilhosa, maravilhosa - e repetia a palavra maravilhosa, umas quatro vezes e completava:
- Foram duas gatas. 20 anos a mais velha, e foi por toda a noite. Estou cansado senhor P. cansado, mas disposto, e hoje vou produzir muito. - Ele dizia produzir muito e olhava para os papeis em cima da minha mesa e perguntava.
- Senhor P. o senhor tem problemas com as mulheres? - Ele perguntava e saía rapidamente e eu sabia que ele ia direto falar com o chefe, falar mal de mim.
A hora do almoço era o meu alivio, eu tomava uma cachaça e bebia duas cervejas bem geladas, e comia uma comida fria e descansava por 40 minutos e então voltava ao trabalho e todos podia então saber por que é que eu ainda trabalhava ali. Além de resolver assuntos do chefe, que os imbecis jamais resolveriam, eu dava duro. E sempre pela tarde, eu estava de novo atualizado. E então eu olhava pra dona Z e dona G e dizia.
- Aí, vamos dormir juntos hoje? Nós três. Aproveitem que hoje eu estou comento qualquer desgraça.
Elas sorriam como só os covardes sabem fazer e respondiam juntas
- Senhor P. não diga isso, nós somos duas senhoras de respeito. - E ficavam lá doidas que eu insistisse no convite, e aí eu saía vitorioso e tranquilamente ia para o meu santuário, o bar Taetro.
O bar Taetro era do amigo Z, poeta e pintor e outras coisas.
O poeta Z. me vendia fiado e não ficava muito preocupado. Z. queria mesmo era uma boa conversa e ler meus textos, eu também arriscava uma luta desigual com o papel e a caneta.
Com o Z, eu passei a conhecer poetas e escritores mortos e vivos e gastar algum com livros. Eu compensava bebendo fiado e de graça no Taetro. No passado o bar apresentara peças teatrais, mais um agrônomo que se auto - intitula artista e que diz ser o dono do espaço onde fica o taetro criou problemas com a prefeitura que é a dona mesmo do prédio e Z desistiu. Agora só leituras de textos poéticos que aconteciam logo após o fechamento do bar. Eu era sempre convidado, e não perdia uma única leitura e então eu chegava cada dia mais tarde no trabalho. E aí o Z dizia
- P largue aquilo e venha ser meu sócio, tem comida, bebida, poesia e teatro e você dorme aqui mesmo e tem um lugar pra você vomitar a vontade. Eu respondia sorrindo
– Qualquer dia desses Z., mas, e sua mulher? - Z me olhava bem, me media e respondia.
- Se você passar do limite eu te mato. E depois dava uma gargalhada. Eu sabia que o Z. falava a verdade. O Z era legal, mas era homem de verdade, não tava pra brincadeira sem sentido e o sentido era o Z quem determinava.
Bebi mais uma, fui ao banheiro, vomitei tudo o que pude e voltei e me escorei no balcão e comecei a observar o Z. trabalhar. Tomei mais algumas, e depois já com o bar fechado, li alguns poemas novos e agarrei a Lídia e fui pra casa, pra mais uma foda nesse mundo benevolente, poético e apaixonado por mim. Amanhã seria mais um dia de cão.
Acordei assustado, de novo eu sonhava a mesma coisa, sonhava ser um poeta bêbado, e aquele sonho me deixava o dia todo azedo, ainda deitado olhei para o lado e o livro O Cobrador de Rubem Fonseca me olhava, como um pedinte, e então eu pude racionar, toda vez que aquele assunto voltava, eu tinha esse maldito sonho, olho o relógio e vejo cravado cinco e trinta da manhã. Olho para o outro lado e em cima de uma velha cadeira, além de muita roupa suja um litro pela metade de vodka. Não tenho duvidas, bebo de uma vez uma boa golada e depois de tossir sinto a vida se restabelecendo e passo a matutar minha vida.
O conto o cobrador me impressionara e estava a impor em mim uma atitude, por mais de vinte vezes acontecera sempre de eu falhar no momento da ação, eu repassava os atos em suas minúcias tentando encontrar uma razão para tal desfecho, cada vez eu acreditava que era em mim que tava o problema, eu parecia sempre não pronto, e isso me deixava encolerizado e significava alguma coisa quebrada em casa. Olhei a casa numa geral e quebrei o filtro de barro, a água jorrava e eu sorria e me acalmava.
Agora nessa manhã de abril, depois de ler pela décima vez o cobrador, eu rabiscava com um lápis preto as diferenças entre eu e o cobrador, e além de todas que eu enumerava a mais importante era que ele progredira e eu fracassara. A ultima vez depois de amarrar a senhora e já prestes a lhe decapitar eu começara a vomitar e fui obrigado a solta-la e ela saiu correndo e agradecendo a deus, maldita deveria agradecer ao meu vomito ou a mim ou a não sei lá o que?
Fui ao banheiro e já eram 11 horas quando eu repensei os meus objetivos e pude notar que eu não pretendia mudar o mundo, como queria o cobrador e sua Ana, eu queria matar por algo que eu desconhecia, algo bem grande que me tomava todo e me fazia ver a estética verdadeira do ser chamado de humano. Eu percebia claramente que agora era preciso identificar esse algo e domá-lo, só assim eu poderia eliminar esses vômitos.
Ao meio dia durante o almoço planejei a minha ação e a razão pela qual eu a realizaria. O senhor Vivaldo o leiteiro seria a minha primeira vitima, ele sempre dizia ao meu pai que eu era um caso perdido e achava que o melhor para mim seria trabalhar e não estudar, eu era burro garantia o leiteiro, - eu ouvia ele falando com meu pai e agora sabia qual tinha sido o meu erro eu tentara matar mulheres, a imagem da minha mãezinha não, não e não, eu não poderia zangar a minha mãezinha. Não mataria mulheres, seria seu Vivaldo, EU PRECISAVA ELIMINAR TODOS AQUELES QUE SIGNIFICAVAM IRRITAÇÃO SÓ COM A LEMBRANÇA E SEU Vivaldo era aquele que dizia ao meu pai com aquela boca nojenta:
- Seu augusto o P não presta pra nada –
Agora eu tinha um objetivo e teria que fazer bem feito afinal aquela seria a minha primeira grande lição na vida, e para fazer bem feito teria que ser com muita dor, eu queria sentir o sofrimento e olhar a cara do miserável.
Almocei e me vesti bem, escolhi uma faca, enrolei em um pano verde e a guardei no bolso do paletó. E saí em busca do meu destino.
Eu conhecia bem seu Vivaldo, com sessenta anos se gabava de ser forte e de ter boa saúde. Entrei na sua casa pelos fundos às 14 horas e sabia que ele estaria dormindo na rede, furtivamente cheguei até ele e enfiei com força a faca em sua barriga, a retirei carinhosamente e ao seu ouvido bem baixinho e comovido lhe disse:
- Seu Vivaldo o senhor foi o escolhido, aproveite e desfrute desse momento que será o seu ultimo.
Ele me olhava inicialmente com ódio e surpresa, depois a dor o tomou por inteiro, eu cortei os seus dedos, vazei um dos seus olhos e calmamente perguntei:
- o senhor quer escolher alguma parte para eu cortar –
Ele já não mais gritava e então tive uma idéia, fazer uma sopa de seus dedos, acendi o fogo preparei a sopa e enquanto a tomava resolvi que era hora de ir embora, então sem pressa segurei a sua cabeça e cortei a garganta, e pude me embelezar com o movimento nervoso, enquanto o sangue escorria e fugia daquele velho e forte corpo, tomei o cuidado pra não me sujar e sair então da mesma forma que entrara, pelos fundos.
Eu agora me sentia um ser humano.

ronaldo braga

9 comentários:

Luciano Fraga disse...

Braga,o(s) ser(s) humano(s),em sua breve passagem neste conglomerado de perturbações,tenta saciar e suprir suas deficiências e insatisfações apalpando o vazio exterior e assim torna-se sempre vítima(de si mesmo) e ao mesmo tempo um terrível algoz, assim sai assassinando seus desgostos e iniquidades para impor a sua própria condição(dita humana)e seguir vivendo(?),reflexivo, grande texto, abraço.

Adriana disse...

Pô, que final surpreendente! Fui lendo e lendo e lendo, mas não esperava algo assim. O bom de um texto como esse é incomodar e fazer refletir. E você conseguiu. Beijo.

Braga e Poesia disse...

fraga continuar vivendo a qualquer custo este é o perigo para a propria vida
adriana incomodar sempre. abraços
aos dois

Anônimo disse...

Ronaldo,
seus textos seja em prosa, dramaturgia ou na difícil arte poética sempre me instigou. Foi através de uma peça sua em parceria com NÉLSON DE MAGALHÃES, que tive o prazer de ler, autografado por você na casa de nosso querido e saudoso poeta amigo ZECA DE MAGALHÃES, que me inspirou há eu escrever o conto "NA PALIDEZ DA COVARDIA" PÁG 27, DE MEU LIVRO AINDA INÉDITO BREVIÁRIO DA DANAÇÃO. QUERENDO LÊ-LO ACESSE:
http://www.arquivors.com/mcarneiro4.pdf
ABRAÇOS,
MIGUEL CARNEIRO

Marcia Barbieri disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcia Barbieri disse...

Maravilhoso, com poucos personagens você sempre é capaz de descrever a humanidade inteira, e realmente, só estando bêbado para aguentar.

Beijos ternos e perdoe a minha ausência, estou sem computador e acabo não tendo tempo pra escrever, mas sempre passo poraqui.

Diego Pinheiro: disse...

Confeso que saberia que me surpreenderia com o final, de fato que, com consciência disso, eu não me surpreenderia... Mesmo assim fui surpreendido, não entendi o que eu senti ao ler os últimos parágrafos do seu texto, professor.
Ser humano é isso?
Bem, eu concordo com o Luciano. O homem torna-se algoz de si mesmo para se impor na sociedade.

Abraços Ronaldo

Anônimo disse...

BRAGA,
PORQUÊ DELETOU O COMENTÁRIO POSTADO NO BLOG, LOGO APÓS EU TECER BREVES COMENTÁRIOS À VOSSA OBRA. NÃO TENHO TELHADO DE VIDROS, E NADA DEVO ALGUM PUTO QUE SE ACHE LITERATO NESTA PROVÍNCIA DE MERDA CUJO POETA CATALÃO QUE É TAMBÉM MEU POETA E PASTOR CUNHOU A PÉROLA: " A BAHIA DE TODOS OS SANTOS E INEVITAVÉIS DEMÔNIOS". MIGUEL CARNEIRO

Anônimo disse...

A LITERATURA E ARTE NA BAHIA SE RESUME A ÚMA ÚNICA COISA: "CHEQUE, $, VÁRIOS CIFRÕES, RECEBA O MEU ABRAÇO POR TE ME ENVIADO POR E-MAIL PARA MINHA CONTA PESSOAL, VOSSO TEXTO. SE INCOMODO, ALGUNS PORQUÊ TEM RABO DE PALHA. NADA DEVO OU QUERO DA BAHIA LITERÁRIA, CONSTRUO MINHA OBRA SEM ME IMPORTAR COM O LADRAR DOS LOBOS" ABRAÇOS, MIGUEL CARNEIRO