domingo, fevereiro 01, 2009

T empus Fugit


(salvador dalí)






Não uso relógio. Não quero que as pessoas me perguntem as horas (poucas coisas na vida me aborrecem mais do que isso) e observar a passagem do tempo me aflige.

Eu também nunca sei os roteiros dos ônibus, detesto dar informações, basta você dar uma brecha e as pessoas já tentam engatar um papo enfadonho que vai das condições meteorológicas ao trânsito. Sempre tento me sentar na cadeira do ônibus que não tem outra ao lado para diminuir a possibilidade de alguém tentar puxar conversa comigo (maldita seja a educação que meus pais me deram que me obriga a ser simpática e a prestar atenção nas pessoas mesmo em momentos de intensa chateação).

Não entendo essa necessidade quase pedinte de interação: basta eu estar entretida em meus pensamentos, no meu fabuloso mundo particular e aparece alguém para me afastar, me distrair com diálogos vazios, desinteressantes e contatos dispensáveis, me deixando extremamente entediada. Sempre acho que estou perdendo tempo: as pessoas me fazem perdê-lo, assim como a TV, livros ruins, aulas estúpidas, telefone e msn. O que me coloca em situações difíceis porque eu tendo a ser apressada, objetiva e pragmática no trato com as pessoas e elas geralmente entendem como impaciência, frieza e má-educação.

Minha percepção angustiante do tempo, da sucessão pavorosa de instantes, está intimamente vinculada a algumas peculiaridades da Pós-Modernidade. Na sociedade da informação, há a valorização do saber, sua identificação com poder, a superabundância factual contrastando com a capacidade cognitiva e de absorção limitadas, deixando o indivíduo atordoado, ansioso e com uma percepção da passagem do tempo muito singular. Soma-se a tal fenômeno a revolução na velocidade da informação gerada pela informática e outras tecnologias e a conseqüente supressão espaço-temporal.

Em paralelo a estes fenômenos, há o deslocamento do real apontado por Marc Augé acarretando o ego ficcional: há uma “realidade virtual” para a qual o sujeito pode transportar-se e que dispensa contatos efetivos com o contexto no qual está inserido. Daí minhas estratégias para evitar diálogo em ônibus podem ser explicadas e entendidas também pelo conceito de desencaixe e de desatenção civil de Giddens, ainda mais quando resolvo usar o mp4 (bendita invenção).

Depois de valer dos sofrimentos pós-modernos para justificar minha conduta, confesso que minha tática do relógio (da ausência dele) ficou obsoleta depois da popularização dos telefones móveis, as pessoas me perguntam as horas na expectativa de que eu tenha um aparelho celular… Preciso parar por aqui, acabo de perceber quanto tempo me escapou enquanto eu escrevia este texto.


Marcela Isis
http://ruminescencia.wordpress.com/

2 comentários:

Luciano Fraga disse...

Comentei este texto no lcal errado, está abaixo.

Braga e Poesia disse...

fraga a marcela é pontual e mostra que tem gente ainda que não ta nessa de maria vai com as outras.