quinta-feira, fevereiro 05, 2009

ENCONTROS

Hoje adulto eu olho as folhas secas caírem e ainda tento compreender o mundo das folhas secas caindo, assim como me comovo com o mundo das brasas em chamas. Na verdade eu sempre quero saber como é pra se viver ali dentro do fogo, sei que ali é uma existência e só não sei como é a vida ali dentro.
Bom minha vida sempre foi estranha, e só tinha um sentido, não deixar nenhuma pessoa saber o que eu pensava, eu tinha certeza, a minha única salvação era preservar os meus pensamentos, que aos borbotões tentavam saltar para fora de minha cabeça.
Em todos os momentos eu pensava que as pessoas me matariam se soubessem o que eu pensava. A impressão que eu tinha aos seis anos era que os outros meninos e também as meninas de minha idade eram bobos, não tinha aquelas imagens complicadas na cabeça, eu sorria com desprezo, pois eu tinha vários mundos dentro de mim.
Houve uma época que eu já tinha desistido de um encontro, sim, de um encontro, assim como o desejo, uma construção, uma idéia que de longe me parecesse como um encontro, uma vez que tudo que eu lia dos meus contemporâneos me soava falso, forçado, todos eles queriam me moldar, me fazer uma cópia, não havia o desejo, não havia a busca do encontro, e eu só tinha esse encontro com os escritores de antes, de bem antes, os de agora eram somente padres e tentavam me fazer crer que minha cabeça era um teatro onde cenas eram repetidas sempre, na literatura deles eu tinha que me sentir culpado quando algo que eu produzia não estava de acordo com eles, ou com a sociedade DELES.
Eu lia aqueles livros por obrigação escolar e sabia claramente o valor deles: nenhum.
Eles só serviam para os medíocres que chegavam até mim e perguntavam-
- Você leu o livro de Jorge Amado - eu respondia sempre não, mesmo quando eu tinha lido, assim me poupava falar e ouvir de um livro imbecil escrito por um imbecil.
Meus colegas conforme os anos iam passando eram na sua maioria pessoas que não tinham nada pra me dizer.
E a cada ano novo a nova turma era quase sempre a mesma eu ia ficando com mais idade, e percebia que ali nada tinha pra mim.
Exatamente quando eu tinha 13 anos conheci o Sr. F, pai de um colega meu e dono da loja CASA DOS COUROS, o filho do sr. F era também estranho, calado guardava os pensamentos só pra ele, a gente se via nos babas, pois somente nos babas toda turma era igual, eu gostava de jogar bola, gostava do racha e assim alguma relação eu tinha com os outros de minha idade, e ali eu sabia que havia um encontro, o encontro no baba, no interior do baba.
Bom o sr F me empregou em sua loja como balconista e passava as tardes entre um cliente e outro discutindo os meus escritos e elogiava a atitude critica dos escritos, esse foi o meu primeiro encontro.
Aos 16 anos eu conheci a segunda pessoa interessante em minha vida e era adulto e pasmem era um professor e pasmem mais ainda era um professor de história e então eu pude ver o conhecimento como uma construção do futuro e não como um exaustivo e inútil trabalho de decorar possíveis acontecimentos do passado, O sr. N, baixinho, era um homem de fibra e determinado foi logo avisando a turma que ele era ateu e isto me fez saltar de alegria, eu também era.
Depois da primeira aula eu e birita um colega que não gostava de estudar, mas era o meu amigo das horas inúteis e de embriaguês, nos transformamos e passamos a visitar depois das aulas a casa do professor N e um mundo novo se abriu para as nossas cabeças e eu sei que houve um outro encontro de idéias, o segundo.
Hoje aos 49 anos de idade eu lembro desses dois homens não com saudade, mas com serenidade, pois eles produziram os primeiros encontros de fato da minha vida, o encontro não com a mentira, mas antes com a vida.
Posso dizer que o professor N foi o único professor do colégio que eu estudei, os outros estavam ali para ocuparem lugares, para justificar a existência de uma escola, mas eles nem mesmo sabiam o que era ser professor.

RONALDO BRAGA

ofereço este texto ao Sr. Aloisio Fraga, pai do poeta Luciano fraga e ao profesor Noé. Ambos falecidos mas vivos na minha história.

18 comentários:

Caio Braga disse...

Velho... eu sinto coisas parecidas com isso! E sinto desde sempre! Nao sei se a manifestacao é parecida, mas a verdade é q sinto! E posso dizer q já tive encontros contigo!
Depois te mostro os meus textos!

Braga e Poesia disse...

caio é por demais satisfatório saber disso, a vida é assim a vida é formada por esses encontros. mas só tem eses encontros quem busca eles.
vamos em frente caio pois um dia seremos apenas lembranças de alguns e que sejamos lembranças consistentes e não contentes.

Luciano Fraga disse...

Braga,muito emocionante para mim ler este texto,meu pai,onde estiver,se houver esta possibilidade,ficará bastante satisfeito e certamente pensará:"fiz a minha parte".Ou seja pessoas nos conduzem pela vida como mestres, outras apenas passam,os mestres anseiam por ser superados, isto é dignidade.O velho nos deixou a lição básica:nada de covardia, ser homem até o fim.Obrigado, grande abraço.

Adriana disse...

Muito bonito esse relato que, de alguma forma, serve para tantos encontros em nossas vidas. São encontros como esses que valem uma vida. Abraço.

Luciano Fraga disse...

Braga, confesso que após leitura deste texto, fiquei muito inquieto...Abraço.

Braga e Poesia disse...

adriana eu escrevo não para mim, mas para os que de alguma forma não escrevem, para os analfabetos, ou melhor no lugar deles. escrever é transtornar um mar calmo.
luciano a emoção não nos avisa que estamos vivos, mas antes que estamos morrendo, alguma coisa morre sempre em nós e se transforma em passado.
e isso é a vida concreta e não as besteiras morais.

Linaldo disse...

um belo texto, de uma comovida homenagem. quem ensina, como eu, fica até querendo ser este professor. parabéns pelo reconhecimento a quem foi importante para você. abraços, poeta

Braga e Poesia disse...

linaldo eu é que agradeço sua presença

pianistaboxeador21 disse...

Porra Braga! Encontrar pessoas assim é que faz a vida valer a pena. Hj a internet proporciona que pessoas como nós se encontrem com mais facilidade,apesar das distãncias geográficas,
Abraços.

Braga e Poesia disse...

pois é pianista. obrigado.

Reinaldo Sousa disse...

Encontro... eu tenho/tive um encontro com Ronaldo Braga. Ótimo relato em Ronaldo? Tirou sono de alguém! Você consegue fazer isso com muita facilidade! rsrsrsrsrs..
Grande abraço!

ronaldo braga disse...

tudo bem reinaldo.

Marcia Barbieri disse...

Simplesmente linda essas memórias,eu já tinha lido a alguns dias,mas confesso que fiquei sem saber o que dizer...medo de ser clichê demais...

beijos ternos

Braga e Poesia disse...

nós as vezes não dizemos por este medo, mas é bom nos obriga a buscar uma forma nova de falar e escrever.
bjos

Braga e Poesia disse...

nós as vezes não dizemos por este medo, mas é bom nos obriga a buscar uma forma nova de falar e escrever.
bjos

Aurora Australis disse...

pois eh!a estes encontros que mudam nossas vidas eu brindo, e a quem teve a possibilidade de se encontrar com esta figura rara,o Ronaldo Braga!

Anônimo disse...

Giordano Diniz disse:
O passado nos amedronta
porque somos covarde no presente.
Em quanto não colocarmos
nossa alma e o nosso mísero corpo
“prontos para o abate”
e não deixar de ter
medo da platéia faminta
não dormiremos o sono dos justos...
Com os olhos cheios de lágrimas
tento lembrar
da minha infancia/juventude na Paraíba.
Esse é um luxo que não posso ter!
Não lembro dos meus mestres
e já não tenho minha mãe para
me lembrar...

Braga e Poesia disse...

aurora australis eu agradeço suas palavras e giordano diniz lembrar pode ser uma tarefa indigesta mas é necessária.