sexta-feira, janeiro 09, 2009

a poesia de Clodoaldo Daufenbach

a confissão do impróprio

antes da confissão do poeta, um lírio sobre a escrivaninha.
deixem apenas uma vela acesa,
nua,
(sem castiçal)
a derreter no tempo junto com as palavras.
não esperem esse tempo de nuvens escuras, pois,
tudo é breve,
o lírio,
a vela e o poeta...
talvez, apenas as palavras fiquem.

permitam ao silêncio
o não ater-se ao uivo medrado das ruas
ou ao lirismo desbaratinado e incomedido...
ao impróprio, verdades primeiras,
roupas que caibam em sua nudez,
(ele não cabe em lugar nenhum)
sentidos? os mais verdadeiros...
lhe permitam uma busca perene
daquilo que lhe é simples e vital,
daquilo que lhe é encontro
e carecido apenas do olhar e do sorrir.

livrem-no do peso ou da conveniência das carapuças,
sem reprimendas ou bajulações.
deixem-no com suas constatações intrínsicas,
âmago e cerne,
com a sua filosofia e criticismo,
com o seu senso comum
e as tautologias prosaicas...

___

é tarde,
cansa-me a revelia das demoras.
minha obsessão é uma síntese de gestos e de caprichos
que insiste em despedir no verso
a raiva de ter nascido um sentidor...
as páginas, brancas, estão a espera do preenchimento.
parto-me,
reparto-me e me distribuo em todas.
em cada uma delas muitas angústias e tantas dores.
na iminência, o nada,
como se não houvesse concretude e antídotos de conforto.
apressado, termino como um grito,
um aceno não visto e não ouvido.

quem me dera reescrever a teoria de Baudelaire
e corresponder então,
além dos perfumes, das cores e dos sons,
todos os sentimentos e amalgamá-los...
quem me dera, na mediocridade de poeta não sabedor,
compor metáforas que sublimassem em perfumes
a intensidade e toda a efemeridade do viver.
em sons, cantos angelicais... todos os gemidos inaudíveis.
em cores radiantes, todas as madrugadas escuras e sem luas
e pudesse escrever poemas que fossem apenas ilusões.

três vezes a consciência do olho aberto,
três vezes o despertar sem ainda ter dormido...
esta minha “out side art” que me leva
e me eleva aos versos de um poeta tuberculoso,
enquanto submergido em fractais caleidoscópicos,
traz a novidade que não tem o tamanho
das contrições,
da doutrina que me pôs cativo.

muitas faces no poema...
em qual delas existo?
em qual das ilusões minha tez envelhecida
ganhou uma vida a menos e passou a ter fome de paraíso?
não me contento com o querer ser ou com o deixar de ser,
com o existir apenas por existir...

ternura, onde foi que te encontrei?
minha carne incorruptível,
minha sanha bandida e avessa que goza
os vícios e os faz oportunos,
onde achou os traços do beijo na testa?
das lágrimas espremidas no canto do olho,
a descerem como se fosse eu um bichinho doente?

desdobrável, raiz envergonhada,
meu subterfúgio, um parto de licenças poéticas
que me afunda nos reinos em que, servo, inauguro
a minha maldição de escrever a amargura
vestida de uma desculpa cabível,
que não evoca os rancores,
os remorsos,
as mentiras...
este rodeio de frases,
como um canto ao meu nome numa lápide.

não me interessam os corpos bonitos,
as noivas virgens...
em cada esquina seios fartos e pernas lisas,
em cada esquina um orgasmo em oferta
para que eu cumpra o meu papel de michê...
não me importa se, vadias ou matronas embevecidas,
importa-me os sentimentos sem governos, mas leais,
o regalo daquela em que, fiel, doi e se condoi
(como canção de caixinha de música)
e expõe o bicho do corpo como órfã em véspera do sono.

onde escrevo o que não há palavras?
onde, moribundo, confesso os meus pecados?
não me servem mais os dias,
tampouco as noites.
não existo mais para a magnitude das coisas,
para os sorrisos e para a compreensão...

minha confissão,
uma vela,
um lírio
e as palavras que ficam para “o eternamente”.


daufen bach.

Um comentário:

Diego disse...

ah ... esse é meu primo.... em ...faz um poema melhor que ninguem...