domingo, dezembro 14, 2008

mais um texto de MARIA BRANCO

Com a sua voz ainda presente, perecebo a passagem do tempo em todos os estágios físicos da matéria...
Até porque, a solidez das suas palavras retrata uma barreira intransponível entre a realidade e a loucura.
Esta solidez é ainda a estrutura de suporte inicial para que as emoções não sejam direcionadas para o estado líquido, em forma de lágrimas que, uma vez reprimidas, constituem uma contenção física para a liberação dos sentimentos ermos.
Claro que você não tem conhecimento dos fatos, afinal, você se foi junto com o silêncio que deixou, e eu, com muito custo, consegui captar e armazenar a última palavra dita naquele ato: NÃO, em toda a limitação de vocábulos e em toda extensão dos sentidos.
Não serei simplista o suficiente para tratar desta palavra como uma simples negativa. Afinal, você foi muito além, no momento que invadiu um espaço privativo, um campo minado de emoções e teoremas.
Sei que sempre foi taxativo quanto ao uso da matemática para expressar sentimentos, o que sempre contestei, uma vez que não conheço nenhuma ferramenta mais lógica que possa vir abranger e simplificar os estado confusos da alma...
Quer saber? Hoje pouco me importa se você não tem esta afinidade com os números... se contente com a sua habilidade musical...
Então preciso confessar que desde cedo eu conto tudo: relaciono, preparo uma lista imensa e começo a montar uma matriz de possibilidades. Desta forma, com esta visão espacial, enxergo as questões em três dimensões, inclusive posso lhe informar que é assim que vejo toda a sua negativa. Talvez por isto, venha a ter esta percepção tão sólida do seu estado gasoso e fugaz.
Sempre acreditei que o bom da vida é aquela sensação de transpor barreiras, principalmente se representam avanços físicos e emocionais. Ir mais adiante, descobrir o novo, vislumbar novos espaços internos e externos, isto sim pode ser chamado de crescimento. Nasci abrindo portas para um mundo vasto, um mar infinito de possibilidades e ainda acredito nisto, sem dúvidas, razão da minha existência teimosa. Acho até que estas crenças norteiam a busca pela viagem infinita, representando a mola que nos impulsiona para novos voôs.
Pensei e equacionei durante três horas, vendo, sentindo e ouvindo toda a extensão da sua negativa, claro que iniciando pela definição da poligonal. Tangenciei os principais vértices, retifiquei todas as arestas até criar coragem para a imersão na área previamente calculada. Sei que estou revelando o meu processo, mas é bom que você conheça o passo a passo para a visualização em três dimensões, após três horas de equacionamento.
Sei que consigo prender a sua atenção, a matemática possibilita este clima de suspense: todos buscando um resultado, que pode ou não ser conclusivo. Não tenho expectativas de levá-lo até um final, sei da sua impaciência e vou respeitar suas limitações, até porque, como já disse antes, são suas limitações e eu nada tenho a ver com isto.
Se em algum momento fique paralisada com a sua expressão de negativa, me perdoe por este ato absolutamente humano, e digo mais, esta é a sua última oportunidade de praticar o exercício da liberação das culpas...
Sei que não devia, mas vou esperar a resposta, que pode ser sua, do tempo, da vida, ou de alguém que por descuido, tenha a oportunidade de ler estas linhas parametrizadas e tenha a idéia de iniciar uma interação, de preferência, sem negativas intransponíveis.

Maria Branco

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