terça-feira, dezembro 30, 2008



flamenguinho, time da rua da baixinha da vitoria



baixinha da vitória

A chuva desabava e goteiras acordavam os sonos, eu tentava escapar e panelas e baldes aparavam águas de um soluço interminável, lembranças terríveis assolavam da noite e estrelas sumidas insistiam sofrimentos.
- Levanta preguiçoso - Bradou meu pai e toda sua estupidez.
- Já? Ainda não deu cinco horas. Eu quero dormir mais um pouco.

- Dormir o que? Imprestável. Levanta, vai comprar o pão e coloca água pra ferver. Nem com tantas goteiras na cama esse maldito levanta. - Meu pai agora era cólera e vertia ameaças em gestos e palavras e de sua mão uma vara impunha respeito.
- Tá bom. Já vou, já vou. Que merda.
- O que você disse moleque?
- Nada, eu não disse nada.
A rua, era silêncio e madrugada, e a lua emanava tristezas de antes, e insetos sobrevoavam meu andar em uma insistente orquestra fantasmagórica, em frente a minha casa, Pedrinho Bicho Doido acordava os músculos, em exercícios marciais, e cantava canções de heróis em sua mudez arrogante. A chuva era trégua e cores prateavam o mundo em difrações infinitesimais. Louro Bicho sonhava copos e de sua casa, sujeiras espalhavam nojos. Eu caminhava uma rua deserta e pessoas surgiam em seus afazeres. A venda fechada irritava clientes e conversas medrosas informavam fofocas e exigiam o meu acordar, e entre dentes o povo falava:
- Hoje vai ter briga aqui na rua, vou dormir cedo, eles marcaram para as 18 horas - era seu Venâncio olhando pra todos os lados.
- Quem vai brigar?- atônita indagou dona Flor.
- A senhora não sabe? Compadre, ela não sabe.
- É compadre Venâncio, eu ouvi, não precisa gritar - resmungou seu Agripino sempre azedo.
- Dona flor, o Borraxa chegou, na caída da noitinha, junto com aquela chuva fininha e o Diabo Louro chegou logo depois, e para completar o Pedrinho Bicho doido acabou de chegar, e faz exercícios na porta, e vestido só de cueca. - Seu Venâncio lamuriava em uma monótona canção de medo e terror.
- Mas isso é o diabo meu Deus. E Tonzinha? E Zefa? E Bastião? Eles não fazem nada?
- Fazer o que? Dona Flor, o que, que a pobre da Tonzinha vai fazer para impedir o Diabo Louro? Ele faz o que quer e pronto, ela disse que pediu a dona Zefa, pra avisar da vinda do Borraxa. Mas eles são o que são, matam gente. Dona Flor, são filhos do cão danado. - seu Venâncio se entusiasmava e tagarelava com desenvoltura, e todos cabisbaixos adentravam a venda entreaberta e triste. No balcão Giane avisava:
- Vamos fechar às cinco da tarde, não quero ter prejuízos.
Todos concordaram e iam falar quando Pedrinho Bicho Doido sorriu venda adentro e com sua voz feminina brincou facas nas mentes covardes:
- É hoje seus machos retados que a baixinha tem festa, há anos que eu não encontro o tal do Borraxa e vou acertar contas com ele, é bom irem pra cama cedo, não quero ver ninguém na rua depois das cinco. Nem as crianças. Ouviram? E o senhor. Seu Venâncio da língua grande. Pode espalhar. Eu quero a baixinha da vitória livre. Ouviu? Livre. Hoje essa rua é o meu salão.
- Sim senhor seu Pedro – resmungou quase inaudível seu Venâncio acariciando a face esquerda, onde uma lembrança do Pedrinho Bicho Doido marcava território e prolongava medos. De volta pra casa, tomei um café com pão seco e engolindo injúrias e promessas de surras, me sonhava Diabo Louro com sua Tonzinha louca e descarada, enquanto caminhava pra escola. A rua misteriosa vagava na noite por vir, e deixava quietas as contendas menores: Era dia de homens, e os fantoches se sabiam nada e cochichavam rumores de meganhas da capital, em tímidas esperanças natimortas, encolhiam ombros e eram bondosos. A escola era só alegria em batalhas de verdade, a impor futuros, nas peles em fogo de punhetas esquecidas, e nas salas as torcidas se dividiam:
- O Borraxa vai acabar com o viado e com aquele sinistro Diabo Louro - apostava Mané liberando raivas antigas e revelando dores impotentes;
- Tu tá é com raiva, Diabo Louro deu uma surra em teu pai e só não o matou porque disse que não matava morto - desafiou todo orgulhoso Juca que temido, era amigo tanto de Diabo Louro quanto do Pedrinho;
- Eu não tenho medo de você não, quando seus amigos forem embora a gente acerta.
As meninas colhiam flores em espinhos comoventes, e sorriam guerras em batalhas queridas, e as garotas esquecidas buscavam refúgios em gritinhos e promessas de beijos Eu insistia meus medos em coragens ausentes e desafiava céus, e músicas gigantes invadiam nossas cabeças de medusas. E valentia era a constante do dia. As professoras falavam de amor e ameaçavam zeros, funcionários agitados, alarmavam noticias. E a escola em desordem era férula, numa festa macabra de esperanças totais, e verdades quebradas. Todos sorriam de medo ou de felicidade, e desejos ocultos afloravam peles, e meninas esfregavam vestidos, e seios buscavam mãos, e éramos belos e eretos, éramos da rua de heróis, temida e mal falada por toda Bahia, a minha querida baixinha da vitória, com seus loucos, seus monstros e seus homens de verdade.

ronaldo braga

esse texto eu ofereço aos moradores da rua baixinha da vitoria e especialmente aos que nasceram na na referida rua.

2 comentários:

Luciano Fraga disse...

Braga,a "velha" Baixinha, lado B da história,com seu loucos, seus homens de verdade, quanto à vitória?? caro amigo, nunca cantaremos, nem tarde, nem cedo,nem aqui,ou acolá, isto é certo.Grandioso texto, abraço.

Marcia Barbieri disse...

Linda história,por alguns minutos me senti um memino valente da rua da baixinha da vitória.

Feliz 2009, que seja cheio de inspirações

beijos ternos