domingo, novembro 16, 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 16

Lá fora o sol secava as poças da última chuva. As tempestades passam, a calmaria chega, tarde, mas chega, no entanto, não são capazes de apagar os buracos deixados no asfalto. Um piche negro esconde meus olhos. Desviemos. Eu sorrio ainda, naquela foto de anos atrás, ao redor dos olhos, as rugas miravam minha tristeza. Olhos parados, sem expressão, olhos de pouco ver. Eles flertavam com a morte. Ela chega devagar, furtando um dia de cada vez, como esses amores brutais de subúrbio, os quais terminam manchando o chão e as páginas dos jornais. Aos domingos ela parece chegar manca, tenho a vaga impressão que não há mortos nem ternos de domingo. Filmes mudos atravessam minha retina. Ele me fita nesses instantes, nesses segundos singulares nos quais a vida se liquifaz entre nossos dedos. Negativos suspensos por toda a casa. A morte descansando sob nossos varais. Roupas sujas. Há sempre meias sujas escondidas no fundo de algum armário, no abismo covarde de algum baú. Os carros passam e a fumaça fica. Minhas narinas estão atravancadas. Não sei se é alergia ou desespero. Ou medo de inspirar todo o lodaçal que atravessa minha rua. Formas geométricas se avolumam na minha cabeça. A menor distância entre dois pontos é a reta. Rios verdes correm avessos a minha vontade. Queria que os ratos e as flores jamais se encontrassem.

Marcia Barbieri

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Braga, comentei no blog da Márcia. Ela é uma escritora maravilhosa, abraço.