sábado, julho 19, 2008

o texto e a resposta

o texto




Você não fala e eu continuo te escutando.




O seu silêncio me instiga, me provoca verdadeiras alucinações contemplativas. Este é o ponto mais inerte em todo o processo: você não fala e eu continuo lhe escutando, ao meu modo, com o seu timbre de voz oculta, e com as palavras que eu coloco em suas falas. Isto é muito louco, é mesmo insano, pois se tenho todas as respostas, qual o motivo do questionamento?

Não falarei da minha, ou melhor, da nossa insanidade, acho que este fato já foi discutido e, sem dúvida, pouco tenho a acrescentar. Digo isto de forma conceitual, sob o ângulo das teorias psicológicas, afinal, todas as horas dedicadas ao estudo da sua forma de encadear os pensamentos, bem como, das suas ações, foram recompensadas de forma magnífica.

Hoje, mais que ontem, posso falar do que aprendi neste estudo milimétrico com o qual tracei o seu perfil. Foi assim que construí a nossa história de amor. Eu te amo hoje, ainda mias que ontem, e nem por isso posso deixar de matá-lo. Retomarei a minha vida tão logo estejam resolvidas estas banalidades de vida e morte.

Na verdade, venho lhe matando durante estes últimos doze anos, confirmando o início do período da eclipse lunar. E, de forma surpreendente você continua muito vivo. Tão vivo como o meu amor cigano. Você no alto da sua postura, tão belo, tão distante, de botas e insano.

Você invade o meu ser em todas as horas vagas, fico repleta do seu cheiro, impregnada das suas palavras, das frases construídas em versos, no tempo em que você falava.

Você falava e sua voz soava como um cântico barroco, com aquele sentimento de culpa egresso da religiosidade negada. Era você falando e eu pecando voluptuosamente, nos meus pensamentos ateus, em contraste com o seu lirismo barroco.

Confesso hoje que construí, sem culpas, um mundo de pecados onde você desfilava na minha frente enquanto eu lhe devorava com os olhos. Era um mundo mágico, onde nunca deixei que você adentrasse fisicamente. Você sempre foi desastrado, imagine se eu consentiria em você pisar, de botas, neste universo tão limpo, tão cheio de pecados, tão meu que não ousaria dividir com ninguém.

Construí muitas coisas nestes últimos anos. São mesmo tantas que já não cabem mais na caixinha de outrora. Tudo ficou imenso diante da minha pequena capacidade de armazenamento. Hoje preciso descartar os supérfluos, embora reconheça que tenho extrema dificuldade em classificar qualquer item como tal.

Você é o que sobra em mim, o que não mais cabe nos meus processos. Por isto resolvi matá-lo. Não se assuste ainda, isto é apenas o início das minhas decisões após o eclipse lunar.

Sinto que neste momento provoco a sua fala, você se revira tentando se colocar de forma imperativa, mas, penso eu, se não o fez até então, por que faria agora?

Neste ato percebe-se que ela finalmente se revela, é a mais pura declaração de amor, construída sob a imobilidade oral da outra parte. Ato de egoísmo, melhor dizendo, de domínio extremo. Ela rouba a cena e dança, vestida com o traje cigano exalando a cor vermelha. Você continua perdido, minimizado, inerte, contido na sua própria nudez, embora calçado com as velhas botas.

Eu venho tentando abrir as portas e janelas, provoco a sua fuga, mas você continua imóvel. Eu cresço enquanto danço e você se esvai na sua mudez.

Este ato deve continuar por mais duas noites, é dado como certo a próxima eclipse lunar, quando ela, exaurida, se permite alguns momentos de reflexão, o que possibilita uma previsível revisão dos processos.

Confesso que ainda não estou preparada para o fatídico descarte, ainda mais com você agarrado à ponta do meu vestido. Você tenta se segurar e mais um elo se rompe. Você, ainda num ato de desespero, tenta tirar o meu sapato e eu piso ruidosamente em sua mão.

Este instante mágico deste último contato, mesclado de dor, resume toda a busca deste tempo que passei, ao seu lado, sozinha como nunca havia sentido antes, até o dia em que fugi de casa.

Maria Branco
02/07/2008



a resposta


São minhas as botas velhas


A sua loquacidade desarticula minha alma, me faz ver a toda hora o desespero em cotas reguladas e despachadas de acordo com o seu próprio interesse e medida, pois exatamente, este nunca foi o ponto inerte em nenhum processo, você não me ouve, e o tempo todo fala por mim, e claro que você sempre teve pronta e arrumada, todas as respostas, e não é só por demência, fuga ou razões familiares, mas sim, por sua incapacidade para a vida.
O tempo todo você quis tudo muito limpo, brilhante e qualquer barulho ou mesmo tentativa de mudança, era pra você um ato reacionário ou anarquista, você nunca trabalhou bem os conceitos.
Portanto não me venha com essa de sua ou minha insanidade, é você a paciente, é você que vive a maior parte do dia a ver demônios em meus sorrisos e cobras em todas as coisas verdes. E eu sei de seu fanatismo recorrente, eu sei sim que você passa seu dia a estudar as minha não falas, o meu não pensamento, a interpretar todos os meus gestos a partir da premissa da minha não realização, e também sei de seu livro, e sua formidável teoria sobre a minha possível não existência. É essa a sua recompensa: este seu livro?
Qual meu novo perfil? O que a senhora no passado arranjou pra mim? Ou aquele que você inventava quando falava em novos tempos. Querida, os tempos não mudaram nem hoje e nem ontem, mas eternamente meu perfil foi mudado a cada atrocidade que a senhora achava mais adequado para fixar à minha estrada, e foi assim que você destruiu não o nosso amor, mas a possibilidade de você poder receber carinho e atenção, uma vez que esse seu ódio, vem separando você, de você mesma.
O seu espelho sempre virou a cara para não lhe olhar de frente, e não deu bola a suas ameaças, por que, além de repetições, são apenas novas preocupações para a família. Saiba que sua vida é uma verdadeira atrocidade para todos os que transitam sua órbita. Mate-me e eu serei feliz.
Sua mania de assassina e de traição continua mesmo depois do tratamento, outros se sentem traídos, mas você gosta de falar, gritar e anunciar amantes e luxúrias, que todos sabem inexistentes, mas você sabe que não pode amar e nem ser amada, pois seu modo de ser impede qualquer tipo de relação amistosa, você foi feita para o sofrimento e para fazer os outros sofrerem.
No passado já sofri com suas “traições”, eu lembro muito bem de suas noites e noites em completo devaneio, onde você se dizia grávida, e de um porco falante e obsceno, além de buscar imaginários parceiros em meus amigos ou até mesmo em um possível irmão, meu ou seu.
Hoje meu amor nada disso me comove e seria antes uma agradável surpresa se de repente eu soubesse que você de verdade tem um amante ou um simples amigo. Essa sorte eu não tenho.
Seu ser é invadido sim, não por minha pessoa, mas por urtigas e escorpiões, uma vez que você, mesmo não sabendo, é uma cabra voadora que perdeu as patas e agora rasteja em meu mundo pequeno, pesando para sempre as minhas velhas botas.
Eu não falo com a senhora e já faz dez anos que não lhe dirijo a palavra, venho lhe ouvindo por educação e por covardia, nisso concordo com você, sou mesmo um covarde. E quanto ao barroco, o que lhe sobra são as dobras, todas redobradas e multiplicadas por você mesma.
Sua mente suja, sempre me incomodou, com seus pecados impronunciáveis e rastejantes, e ainda me incomoda, pois sinto o seu passado e pior, como se fosse hoje. Lembra? Todo entardecer, você orava diabos em hebraico enquanto me acusava de esconder as montanhas sagradas, e em sua fantasia débil você declarava a impossibilidade de me amar, só por que você me amava demais.
Na verdade você é a única coisa a sobrar em você mesma, você é obscena, fora da cena e eu espero ansiosamente por esta morte e nada de você fará com que eu volte a lhe falar. Agora quanto aos seus secretos encontros comigo, pelo que eu sei sempre aconteceu sem a minha presença, lembra? Suas conversas longas comigo ausente resultaram em ótimas lembranças para você e como você mesma disse, a minha ausência permitia a você ouvir de mim as falas adequadas e bem estudadas, que serviam perfeitamente ao seu plano infalível de provar que me amava.
Eu sei que agora, a sua nova loucura consiste em se ver exatamente como outra pessoa, e você descreve, o que pra você deveria ser a minha vida e não a sua. Ora minha cara e muito cara amiga, o seu vestido vermelho nunca foi vermelho e muito menos vestido, são as minhas botas velhas que você empunha e empunhou anos a fio como uma arma.
Eu venho tentando manter fechadas as portas e as janelas, para evitar não a sua fuga, isso é impossível em seu estado, mas a piora do seu precário sistema respiratório em meio a este inverno rigoroso, todos temem a sua morte.
Agora vendo você aí sentada, em sua cama, eu lhe olho e percebo de qual fuga você está se referindo, a fuga de sua própria vida, de seu próprio instante, e saiba que a senhora calçou soluços e dores e vestiu tolamente passados vermelhos e hoje caminha numa solidão de horrores, onde velhas desdentadas cantam e choram seu destino.
Confesso também que ainda não estou preparado para o fatídico descarte, ainda mais com você agarrada à ponta do meu sapato, seja velho ou novo e tentando se manter doente e segurar um elo que há muito se rompeu e o mais desastroso é esse seu ato desesperado e inútil em insistir tirar os seus sapatos, quando há muito você perdeu suas pernas, e junto com elas foram os pés. Então é neste momento que eu ruidosamente choro em meu silencio. Este instante não mágico deste maldito e constante contato, mesclado de dor, resume toda a sua busca pelo inaudito tempo que passei ao seu lado, sozinho como nunca havia sido antes, até o dia em que você morrer.


Ronaldo braga

Um comentário:

chico da laranja podre disse...

gostei do texto e da resposta.
viagens dentro do relacionar-se.