quarta-feira, junho 18, 2008

São suas as botas velhas.

Não suportaria usar as suas botas, acho que seria quase o mesmo que trilhar os seus caminhos.
Acredito que estas velhas botas registram os tempos mais remotos de um andarilho urbano, sempre urbano, embora não seja cosmopolita. O seu mundinho é tão resumido que quase chega a fechar-se em um círculo com raio igual a sua própria altura.
Voce viveu esismemado todos estes anos, cuidando das banalidades absurdas, das composições incabadas, das chamas que se apagavam a todo instante. Tenho que ser justa: se ainda mantemos esta chama acessa, com certeza, isto é mérito seu, eu não teria me empenhado tanto.
Eu nunca tive muita paciência para coisas pequenas, miscelâneas, miudezas: acho mesmo que são inversamente proporcionais ao grau de aborrecimento que proporcionam ao incauto que se presta a lhes direcionar alguma atenção...
Voce deve, mais uma vez, estar criticando este meu lado racional, matemático, no entanto, devo confessar: é nesta racionalidade que expresso todo o meu amor. Falo do amor impossível, aquele que extrapola os limites da razão, da racionalidade...
Falo ainda da nossa última conversa, ou melhor, do meu monólogo, pois, se não me engano, você não só não compareceu ao nosso encontro, como também, não apresentou qualquer justificativa.
Desde então, rodei três noites sem parar, em minha própria casa, ironicamente, o nosso ninho cigano...
Você morreria e tenho certeza que o seu instinto de sobrevivência, mais uma vez, manteve este fio de vida, este trapo de acontecimentos em forma humana...
Eu sei por que voce não veio, sei que estou a dez quadras da sua altura... estou também, a mil anos do seu tempo presente e, muito provavelmente, muito arraigada a sua forma passada...
Mas, ainda assim, não tirei o vestido vermelho... era o meu ódio expresso em forma de amor... era um desafio: voce não entendeu, como sempre, mas eu mantive minha postura cigana... dancei a noite inteira ao redor da fogueira, a mesma que voce manteve acessa todos este anos...
Cinco vezes bebi, sete vezes senti cambalear, mas não caí, posso jurar, embora não tenha testemunhas. Eu digo e assumo, eu não caí e dancei como nunca...
Não rejeito as suas botas, nem o seu mundinho... simplesmente não acredito nesta limitação que voce me apresenta, sei que é falsa....
Sei que voce não pode acessar os meus pensamentos, voce é limitado, mas eu penso em voce...
Eu penso em voce dormindo, chorando, na chuva, correndo e sempre de botas, sempre em círculo, com o mesmo raio.
Eu busco voce na rua, na terra, na praia, no muro infinito que edifiquei para te deixar do outro lado... é o meu “Muro de Berlim” que ainda não caiu...
É a minha guerra, que não tem nada de “fria”....
Eu tenho os pés pequenos, proporcionais à minha estatura, e, claro, suas botas são imensas, têm o tamanho suficiente para me manter afastada da sua jornada diária, repetitiva, única e incoerente.

Maria Branco
16.06.08

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Ronaldo,gostei bastante deste texto.Retrata a convivência entre os diferentes e as diferenças,um limitado,egoista,dentro de uma concha ,um guarda-roupas,o outro(a),amplo, ilimitado,universal.Assim caminha a humanidade entre o irracional e o inexplicavel da infinitude que nossas mentes proporcionam.