quarta-feira, maio 28, 2008

a espera nunca mais

Depois de um dia intenso, onde os pensamentos pareciam transitar de forma harmoniosa com a celeridade dos acontecimentos, ela decidiu parar para ordenar todo o caos produzido, e percebeu que muito tempo tinha se passado desde a primeira vez que tudo acontecera e que inevitavelmente agora era realmente a hora de não somente uma reavaliação como até mesmo de uma modificação na sua forma de enfrentar a vida.

Não tinha pressa, o próprio tempo agora seria o seu maior aliado, afinal, decisões deste porte exigem um maior grau de dedicação, mesmo que seja simultâneo a tantos outros desejos, ou mesmo necessidades, e tempo era mesmo o que ela tinha mais e até mesmo todo aquele medo antigo de enfrentar situações, era agora coisa do passado, ela sabia e sabia isso lá bem no seu intimo.

Era chegada a hora de rever as fotos, em rápidos flashes de memória, era o passado assumindo o seu lugar no presente, tantas vezes delegado a um futuro próximo. Era assim que havia sido tantas vezes planejado este encontro, tantas vezes sonhado, que, finalmente tomando forma, não representava nenhuma surpresa, talvez algumas vezes, ela teve justamente o medo da não surpresa, ou mesmo de uma grande decepção, mas hoje ela decidida passava por sua memória fotos que antes era para ela assustadoras e até mesmo deprimentes.

O passado que esquecido reinava nas dores infernais de sua cabeça, era agora aliviado e já não ameaçava mais o futuro e ela pode não somente rever aquelas fotos como até mesmo reconstituir em sua mente toda a historia que envolvia aquele acontecimento e até mesmo voltar a sorrir que para ela era uma novidade.

Talvez fosse importante relatar os últimos fatos que a levara a este ponto específico, entretanto, não seria de bom tom adiar toda a produção do cenário proposto, e adiar era o que ela mais fazia neste mundo, era o momento de mudanças radicais, e para ter sucesso em relatar tais fatos, tidos por ele como importante, e que segundo ele fatalmente a mudou para sempre, ela sabia antes de mais nada, que deveria falar tudo de prontidão, e depois, só depois ouviria as mentiras dele, pensou também que deveria continuar firme na sua decisão, e manter a sua proposta sem alteração e para começar precisava se mostrar forte diante dele, e superar as suas próprias fraquezas. Muito foi dito e desdito, e ela tinha tomado a decisão de até mesmo ser cruel se necessário e essa decisão seria cumprida.

São poucas as luzes que se encontram no ambiente, as velas acessas criam um tom de romantismo cigano, dramático, onde a carga emocional está expressa em cada gesto, em cada olhar e, sobretudo, em cada uma das mãos tantas vezes elogiadas pelo seu par imaginário neste ato dramático. Novamente a meia luz a enfeitiçava, velas acesas em suas entranhas, uma sensação de semi-sono, mas uma inesperada vontade de estar ali com ele, a deixa triste e ao mesmo tempo sorridente, devo está enlouquecendo pensou enquanto mantinha seu par invisível sorrindo, é difícil a cura de uma paixão doentia e mais ainda quando fatos tão horrorosos como os que aconteceram com ela são registrados.
São estas mãos em movimento que buscam calar as vozes desnecessárias, uma vez que, qualquer palavra pode desencadear um novo motivo para fugir do gestual proposto. Portanto, é neste clima de silêncio absoluto, que ela pensou ser o momento de expressar todas as suas emoções contidas e abandonar de vez aquela sua atitude de medo, ela sempre ouviu desde criança, que deveria se soltar falar o que pensa, mas sempre foi reservada e ficava em silencio mesmo quando toda ela queria gritar.

Que não lhe sobre tempo para analisar toda a carga emotiva, o racionalismo não é bem vindo neste momento. Que os teus sentidos possam estar por demais apurados, uma vez que eles serão as únicas alternativas em termos de armas. É hora de iniciar o jogo e posso avisar que ela não parece estar blefando. Posso afirmar ainda que ela não somente começa a renascer, como também um ódio gigante toma conta dela, o que devo dizer a você, é de bom tom que que você pise macio neste encontro e também que tenha muito cuidado com as palavras.

As velas, o fogo, a pouca luz ambiente e agora já se tem a música cigana, é esta a produção que ela preparou com tanto esmero. Você ainda se lembra do vestido vermelho que foi usado por ela no dia do seu casamento? Claro que não, como poderia exigir tamanha façanha de uma mente meramente masculina? Não importa as suas lembranças, o passado vai chegar até você em forma de presente, é como um presente que ela se preparou para você. E você deve saber como ela fica quando lembra de seus esquecimentos, hoje ela quer vingança e será vestida de noiva que ela verá todo ato se desenrolar, melhor ainda vestida de noiva abandonada não no altar, mais na vida, você se lembra?

Você pode estar se perguntando: velas, música cigana, vestido vermelho, onde ela está querendo chegar? Pelo meu entendimento, aqui de fora da cena, percebo que não existe uma intenção clara de confundir, muito pelo contrário, ela acredita que recriando estas cenas estaria propiciando a retomada das emoções contidas ao longo destes amargos 12 anos, e evitando que comentários maldosos tipo: como foi tudo maravilho com vocês esses anos, ela parece determinada a contar detalhes da relação para todos os convidados e devo lhe avisar que ela escolheu alguns que podem manchar sua reputação. Portanto eu lhe peço não vá a este encontro.

Eu sei que o senhor é poderoso, mas eu lhe garanto você não ficará imune aos sentimentos propostos. Este trabalho de imersão certamente o transportará ao plano requerido, e, com este vestido vermelho, sem uma única palavra, ela tentará passar para você cada lágrima que emergiu naquele rosto com pouca maquiagem, naquele jeito discreto e contido, que ela se apresentou na cerimônia do seu casamento, é bom nem lembrar o que Aconteceu logo depois na lua de mel, o que eu sei é que ela lembra muito do ambiente, diz que havia muitas flores e pouca alegria, muita gente e pouca emoção, havia de tudo um pouco do que todos expressavam, só faltava a expressão do mais puro sentimento que se encontrava guardado a sete chaves na alma encoberta pelo vestido vermelho e que nesta nova celebração tudo seria diferente, teria muita emoção e pouca gente e até mesmo o seu vestido vermelho poderia ser esquecido, mas ela garante que haverá sangue.

Ela não tinha dúvidas quanto a sua presença neste ato que havia convocado, era muito claro que você viria. Embora completamente assustado, desnorteado, fragilizado, seria incapaz de recusar este tão esperado convite. E pior para você se acreditar em seu charme, se acreditar que o seu sorriso ainda a deixa desnorteada, pois ela está decidida a ser com você o que ela acredita que você foi pra ela.

Volto a lhe recomendar cuidado, não leve nem flores e nem bombons, leve desculpas e diga logo antes dela mesmo falar, amor me desculpe eu destruí sua vida. É melhor para acalmá-la e não pense que sendo duro você tem uma melhor sorte, saiba todos sempre admiraram a sua determinação, menos ela. Não que duvidasse das suas intenções, acredito que o que não a convencia era a certeza da sua felicidade. Isto certamente ela nunca se perdoaria, afinal, sabia o quanto era responsável pela sua decisão alucinada.

Ela sabia que perdera a linha da negociação no momento em que assumiu que você não teria a força suficiente para domá-la, no bom sentido, é claro, e quando criança ela imaginava sendo capturada por um homem alto e forte e a decepção foi imensa. Primeiro a sua total falta de romantismo e ainda pior, a falta de preliminares (e neste momento ela olha o vazio), e consequentemente o sofrimento diário dela durante a existência desse maldito casamento. Eu sei que vocês já falaram sobre isso, tantas foram as vezes que até dói lembrar e ela me disse que você nunca a perdoou e portanto sempre a tratou com um certo ar de superioridade.

Francamente já não é um pouco tarde pra me dizer que você nunca se perdoou por este ato de fraqueza, e, até onde sei, ela não tem nenhuma intenção de aliviar estes seus sentimentos de angústia. Ela sempre foi o lado forte desta comunhão e não a vejo com outra idéia a não ser de se manter calada diante de você, não por medo mais sim por nojo.

texto escrito por Maria branco
e
ronaldo braga

3 comentários:

Chico-Galo Vermelho do Areial disse...

Tudo bom Braga? Gostei deste blog.

Aurora Australis disse...

http://fucsiahq.blogspot.com/

da uma olhada ai e comenta!abs!

Luciano Fraga disse...

Ronaldo/Maria,sabemos que ser totalmente livre é um peso existencial brutal.Implica em escolhas individuais dentro de um contexto global.Agir ou não, implica em evitarmos o risco,que trás o medo,que arrasta a culpa.Dificilmente encaramos a dura verdade de que somos sós.Muito bom o texto,abraço.