sábado, abril 05, 2008

a poesia de NUNO GONÇALVES

o canto do anjo vermelho




um blues esfarinha os ossos da saudade

apenas o temor me abriga
nessa noite sem esperança

onde estão as mulheres-verdes ?
onde estão as mulheres-algas ?
onde está o gibão anti-radioativo
para desarmar a cabeça-dinamite do século ?

a estrada tem fome
talhos & atalhos para os príncipes da paranóia
: são dez e cinqüenta e quatro
, posso morrer confortado pela ausência de olhares

estou em casa, meu sono está morto
& as mentiras soterradas em minhas unhas
um blues é um atalho
para a sobrevivência ou o esquecimento

o amor é a violência do assassinato
o desespero é o sangue do misticismo
assim como a noite é a estrela da fuga
& o escuro um daimon arcaico

há dias que estou em transe
aspirando o álcool prostituído dos postos de combustível
dirigindo meus sonhos no interior da valise das caveiras
& ruminando essas digitais impressões minerais

há anos que estou amedrontado
& nenhum raio me guia para nenhum território pacífico
ainda posso suicidar este corpo que não me pertence
mas prometi ao deus dos espelhos que não o faria

descobri essa arma enterrada nas cinzas de meus pulmões
morrerei como uma coruja que antes do parto tratou de profetizar sua própria morte
ou como um galo que pela manhã canta o velho sol esquecido

em minhas veias nenhuma morfina foi encontrada
nenhum metal precioso ou equivalente
em minhas veias foi encontrada a ira & a herança
a covardia e a nudez de um anjo

o mar se curva perante a aurora
no altar de meus pesadelos
só há agora pecados & automóveis
& a poeira das vestes desfiguradas

ruge a sombra ruge a fera
ruge o sino assombroso da catedral
nunca serei fuzilado
a menos que o crepúsculo se instale no coração do meio-dia

meus braços foram criados para empunhar pás de areia
para enterrar entes queridos
& se meu hálito recende à cachaça
isso é melhor que não ter hálito nenhum

espectros de caleidoscópios girando entre ressentidas estrelas
qual os ponteiros de um relógio fúnebre
ou de um mirar vazio no horizonte
assim é a vida: sina de telefone que toca insistentemente sem que ninguém atenda

nos andes o frio me aguarda
sóbrio & sombrio como uma língua desconhecida
em busca de um beijo ou da garganta aberta do inimigo
somos todos a suavidade de um deus que dança
– escatológicos signos de uma relva que amanhece –
antes mesmo de nascer



o silêncio dos sonhos

tudo que é aspira à morte
do que já foi ou vem-a-ser
tudo passa e nada é
as estações, o amor, as fábulas
o ódio, a ira, a raiva
murcharam as flores do mal
e os cânticos de Maldoror
morreu Rimbaud e a juventude
entre escravos e armas
entre escarros e almas
entre
veja minha casa, meu pasto
não há nada
desta pedra não se tira leite
este é o deserto, o esquecimento
este é o mistério
não querer mais, querendo
nada saber, sabendo
germinar na terra infértil
agir na hora imprópria
sonhar o silêncio que nos sonha
a invenção da roda
da fortuna
&
do destino



medo das águas II
suas barbas de netuno, sua eterna tranqüilidade
chegando até minha casa através de um sonho
convivendo com bicicletas, espaguetes e cartazes de proibido fumar
com duas meninas gêmeas e peças de artesanato expostas
numa bela ilha no sul da manhã
suas barbas de netuno, sua aparente tranqüilidade
chegando até mim nas areias do deserto
arrastada pelos ventos delírios
convivendo com os besouros que coleciono na caixa de fósforos
e com meus velhos sapatos negros

fostes também um andarilho
mas voltastes para morrer em casa
na curva que liga nossa aldeia ao mar
às águas salgadas
aos sonhos, aos delírios, à espuma
que as asas agora te sirvam
nessa longa travessia
decisiva jornada

ficarei com suas barbas de netuno
com sua eterna e aparente tranqüilidade
com meus besouros, meus sapatos & meus sonhos
sem o medo da morte que nos espreita atrás da árvore
na curva que nos separa de nossa aldeia
na curva que nos separa das águas salgadas do mar.

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Ronaldo,esta poesia pulsa,avança arquejando,tirando o folêgo em "busca do beijo ou da garganta aberta do inimigo",muito boa.