sábado, abril 05, 2008

O arrebentar das pregas

As roupas rasgadas, nem mesmo a calcinha poderia protegê-la. As pregas arrancadas derramaram sangue, sangue este que fugira de suas veias.
Toda sua angústia exposta ao espelho, chora pra dentro, pois as lágrimas estão contidas no seu eco.
O banho aumenta ainda mais as dores no corpo, já que o da alma é imbatível.
“O que dirá a ele quando chegar?” Seu pensamento escorria junto às águas sujas que saíam do seu corpo. Estava mesmo demorando no banho, depois de tudo, era necessário um banho demorado. E seria possível lavar a alma?
Sabia que ele ia notar algo diferente, sua tristeza e desprezo pelo próprio corpo era visível, algo que não dava pra esconder. E mais ainda, ele decifraria que a tristeza em seus olhos não era mais aquela tristeza bela que ele tanto admirava.
A toalha macia pesava tanto em seu corpo magro e fraco que desistiu de secar-se. Foi para o quintal.Nua.Tentar encontrar um pouco de luz nos raios solares do meio dia, seu corpo secou logo. Mas e a luz? Ela vinha?
Sabia que não. Não tinha esperanças e não sabia o que fazer dali por diante. Apenas sabia que nada podia contar a ele. Contar a ele seria perdê-lo para sempre.E perdê-lo seria se perder, ou já estaria perdida?
Tinha um grito sufocado na garganta. Deitou-se na grama e chorou incontrolavelmente, as lágrimas e o suor escorrendo pelas faces rosadas, que depois de tudo que acontecera nesta manhã, jamais seriam as faces angelicais e infantis.
Nesta manhã cruel e bruta tornara-se uma mulher rancorosa, onde toda a tristeza cabia naquele corpo magro, fraco e pequeno, mais ainda agora.
Não, não podia contar a ele. Pensava, soluçava. Era muito sofrimento pra ele, e ele não agüentaria, iria vingar-se.
E agora? O que diria? Não diria nada, absolutamente nada, é melhor assim.
Levantou-se da grama, seu corpo seco com folhas verdes grudadas no suor e lágrimas. As formigas e outros insetos que passeavam no seu corpo judiando-a não a incomodavam. O sol estava forte mas não o suficiente para lhe dar luz.
Daqui a pouco ele chegaria para o almoço. Imóvel, não sabia o que fazer. Estava tão fraca, mais na alma do que no corpo, que não conseguia se mover.
A sua maior preocupação era causar-lhe sofrimento, e percebendo que não teria jeito, desesperou-se. Pensou em se matar, mas ele sofreria ainda mais, poderia até se sentir culpado, inventaria uma culpa para si na falta de motivos ou explicações.
”Deixo uma carta contando tudo então?” Não, logo desistiu dessa idéia, não iria se matar e nem escreveria carta.
Tava tudo escrito já no seu corpo, bastava olhar-lhe nos olhos e leria todas as suas tristezas, angústias e desespero. Saberia ele ler nas entrelinhas?
O tempo apagaria tudo? E se apagasse, até lá, como viveriam?
Não teriam paz até o tempo chegar e apagar tudo. E quando este chegasse tudo já teria mudado, suportariam viver o silêncio da dor?
Ele iria enlouquecer com o seu silêncio, vendo a tristeza intrínseca em seus olhos profundos, iria ficar perturbado, inventaria uma culpa para si e ela acabaria tornando-se verdade.
Seria crueldade demais para ele. Mas também não poderia contar-lhe o que houvera de fato. Se ao menos tivesse garantia que ele nada iria fazer...mas sabia que o seu sangue sertanejo não se estancaria. Não iria perdoar e mataria aquele que destruiu suas pregas, pregas que nem ele mesmo ousara despregar sem seu consentimento.
Sentia sua alma despregada do seu corpo, tinha desprezo e verdadeiro nojo pelo próprio corpo, seria possível reconstituir suas pregas?
Ele entenderia. Suplicaria a ele que nada fizesse, que apenas iriam juntos buscar/encontrar agulhas para costurar suas pregas.
As pregas da alma para reconstituir seu corpo. Ele ia ter que entender, e entendendo deixaria de lado a estúpida idéia de vingança, estúpida porque era muito egoísmo de sua parte querer-se vingar, pois vinganças atraem mais vinganças e ele não poderia deixá-la despregada vagando sozinha por aí.
Precisariam de força, para caminhar com a solidão pregada que permaneceria no mínimo por algum tempo,muito mais ele do que a vítima, ou ambos eram vítimas?
Assim que ele chegou logo sentiu que algo diferente acontecera pela manhã enquanto estivera fora.
Os pássaros não cantavam, as vacas não mugiam, os cães não latiam, tudo era um silêncio só, nem mesmo era possível ouvir as folhas das árvores balançadas pelos ventos, porque nem mesmo o vento ousara vir. Apenas o sol forte, queimando as almas habitadas por aqui. Era o silêncio da dor. Profundo.
Veio com passos firmes e leves, derrubando o silêncio, em sua direção. Abraçou-a, e ela pôs-se a chorar um grito de dor.
“Que aconteceu? Por que choras? Por que está desse jeito, nua?” As palavras engarrafaram na sua garganta, não ia conseguir falar e em seu pensamento e choro, soluços, implorava-lhe que nada perguntasse. Era terrível demais tocar nesse assunto, aquelas palavras sujas não poderiam ultrapassar sua garganta, e ele não mereceria ouvir coisas tão feias, sujas e terríveis. Não valia a pena.
Ela até já se sentia um pouco mais confortada com seu abraço forte, estalando-lhe a alma que fora sugada, que vinha com passos fracos e pesados.
Pegou-lhe pela mão e arrastou-lhe pela cama. Deitaram-se. Num gesto impulsivo e bruto, rasgava a roupa dele, violentamente, batia-lhe na cara com força, até ficar as marcas do seu dedo, o que era muito difícil, pois o rosto dele era muito queimado de sol e rugas.
Ele tomou um susto tão grande que ficou paralisado. Não conseguia se mexer.
“Ficaste louca? O que é isso? O que deu em ti?”
Mas ele não conseguia falar. Suas roupas estavam todas rasgadas, seu peito todo arranhado, a face esquentada pelos tapas, sentia os dentes cravando em seu pau, apenas conseguia gemer, um gemido com prazer e dor.
Sentou-se em cima dele e penetrou-se no buraco mais fundo do seu ser. E agora ela gemia, mas dessa vez era um gemido só de prazer, sem dor como pela manhã e como o dele.
De início nem sentira que o seu pau aprofundava no buraco pequeno e profundo, a alma sendo sugada, de tão extasiado que estava pelo susto, por toda aquela cena.
E num grito libertou-se, libertaram-se, não se sabe exatamente de onde saíra o grito, ou ambos harmoniosamente gritaram? As almas esporrando intrinsecamente nos corpos.
Ele estuprado, extasiado, respirava ofegante e o silêncio adentrava-lhe.
E mais uma vez era tomado pelo silêncio da dor e agora também do prazer, e nem pudera ouvir os pássaros cantar, as vacas mugirem, os cães latirem, as folhas das árvores balançadas pelos ventos, os ventos, e o sol não mais o queimava. Era úmido feito o buraco profundo e pequeno. Como se cavasse a fundo um buraco na terra e enterrasse seu próprio corpo.


Maíra Rato

2 comentários:

Zololkis disse...

See Please Here

Anônimo disse...

Adorei!... Mas ela foi enrabada pelo amante ou por um estuprador?!... Tive as duas impressões!... Um abaraço! Quando quiser apareça no meu site:(http://reinodalira.wordpress.com)