segunda-feira, abril 21, 2008

a poesia explosão de luciano fraga

Pronta para o abate,
minha alma sofreu uma fratura exposta,
perdi a noção do que é alegria,
de uma forma ou de outra,
não escrevo poesias para final de telenovelas,
nem para pleitear uma vaga no céu de brigadeiro,
antes,
quero execrar minhas mazelas,
e expor as costelas ao machado do açougueiro...
Eu não preciso de platéias.

LUCIANO FRAGA

sábado, abril 19, 2008

URBANIDADE

“...não ligue prá essas caras tristes
fingindo que a gente não existe...”Cazuza/Frejat


Quando tudo é raiva,
eis que ela surge com sua delicada
urbanidade,
quero falar de camaradagem,
da vida,
de um coração remoçado,
embora, o lado de fora
de cada um não expresse
o seio impulsivo,
a velocidade que deslizo
minha nova versão
movida a 100 cavalos,
vapor abrindo fogo,
sem saber onde anda
os escombros da felicidade,
toda alma precisa de céu...
Abrindo aspas,
espero por esta fagulha
como uma agulha
espera a linha de nylon,
como o tempo espera o verbo,
como o eu espera o ego,
o anzol espera,
hordas esperam,
algemas que esperam pelas mãos,
Eu espero a pólvora
da noite puída
para voltar a sonhar
com aqueles anjos velhos...
Enquanto isso, os homens
recolhiam o cadáver de rato
no quarto de Bete...


LUCIANO FRAGA

segunda-feira, abril 14, 2008

Nunca gostei das canções de ninar

Esta semana, exatamente há dois dias, reencontrei um cara que eu não via já há muito e lembrei que na faculdade eu sempre lhe dizia:
- Augusto, você tem nove anos de idade, cara. Quem tem nove anos de idade depois dos quinze já é velho mesmo na juventude, porque nove anos é a idade em que o homem é um zangadinho e pra tudo diz:
-Mamãe, ele tá me abusando!
Agora eu olhava aquele cara se aproximando de mim depois de sair do seu carro e percebia que ele ainda tinha nove anos, apesar daquele sorriso de superioridade que ele trazia como se estive colado em seu rosto. Depois de me olhar por completo, Augusto me disse:
- Cara, você faz coisas como se ainda tivesse vinte anos.
Ele me disse isso sorrindo e seus pequenos lábios se fechavam e se abriam numa velocidade estonteante, o que me agradava.
- Você tá ouvindo!? - Gritou ele, ainda rindo. Tive que deixar de observar seus nervosos e rápidos lábios e olhar diretamente aquele seu rosto gordo.
- Calma, eu estou ouvindo, mas você não compreende uma coisa - E ele sempre se mostrando apressado, se interessa.
- Vai fazer uma análise de minha vida?
- Calma. Você que disse que eu estou defasado, ridículo, fora de época e outras coisas mais. Acho justo você falar, mas eu só vou dizer que você sempre foi velho. Desde os vinte anos você já tinha 60. Então, não podemos nos comparar. Mas, realmente, eu continuo tendo vinte anos, e esse negócio de idade tem muita valia para os sistemas: financeiros, econômicos, industriais e outros equivalentes. Para a vida o que vale é o sujeito tá em forma, ter saúde, elasticidade e força muscular. Enquanto tiver isso, o sujeito pode dizer que tem vinte anos. O resto é pura simulação de gente que gosta de já começar o jogo ganhando.
Ele me olhou de lado, acendeu um cigarro, puxou forte a fumaça e soltou-a com prazer. Eu aproveitei a oportunidade e lhe perguntei:
- O que tá acontecendo, meu amigo? Você parece triste e abatido. Você disse que eu faço coisas e atuo como se tivesse vinte anos. Meu amigo, meu amigo. E você quantos tem, 85? Pois esta é sua real aparência.
Ele puxou do bolso a chave do carro.
- Melhor eu ir embora, você já começou a me ofender.
- Não, não, pode ficar.
Depois de uma breve pausa, continuei:
- Essa sua cara azeda...é felicidade?
Ele olhou bem no fundo dos meus olhos e, agora sem sorrir, gritou.
- Quer saber?! Nem mesmo na faculdade eu gostava de você!
- Eu sempre soube. Onde tá a novidade? Tá apaixonado por mim?
Ele ficou vermelho e, se não continuasse covarde, por certo daria um bom murro em minha cara.
- É por isso que você é pobre!
Ele disse e arrastou o carro quase atropelando uma menina que saía de uma faculdade ali bem perto.
Eu, por um pequeno momento, olhei o carro se afastando a toda velocidade enquanto pensava naquele sujeito que acabara de sair dali zangado comigo. Comigo? Por certo não, ele estava zangado era com ele mesmo.
Adiante, numa rua transversal, algumas garotas apareceram na porta de um colégio e começaram a cantar. Olhei para aqueles rostos bonitos, sensuais e sorridentes e lembrei de muitos colegas da faculdade, e até mesmo do ginásio, e com tristeza constatei que mais da metade já eram velhos desde garotos. Eles acreditaram no que ouviram, nos seus pais e em seus mestres. Eu não, eu nunca acreditei em meus pais de forma incondicional e sempre percebi ali naquela relação uma luta, eu sabia que tinha que haver segredos ou estaria para sempre derrotado. Assim como nunca acreditei na educação. Acreditar era envelhecer, eu nunca acreditei na escola e sempre soube que aquele aprendizado ali do colégio era puramente para viabilizar a produção que só interessava ao sistema e, desde criança, eu sempre tive a certeza de que deveria desaprender tudo ou estaria para sempre perdido. Por isso sempre remei contra a maré.
Esse negócio que diziam e dizem sobre o benefício da educação para o indivíduo e para a vida é pura mentira.
A educação é o processo no qual o sujeito se perde e no lugar dele aparece aquilo que é agradável e lucrativo para o sistema político, social e econômico. Nada mais que isso. Da escola secundária a recordação boa que eu tenho é a do recreio, das brigas e brincadeiras em um limiar quase sempre ultrapassado, fazendo do recreio um momento também violento. Pois os corredores já eram por demais violentos naqueles dourados anos. Ali eu apanhava e batia, nem sempre nas mesmas proporções, porém, era ali que eu aprendia a vida que era vivida na minha realidade e não a fantasia das salas de aulas.
Augusto voltou com a sua cara gorda, deu uma freada com toda brutalidade e bem alto me disse:
- Se prepare cara, eu vou fuder você.
- Fuder comigo Augustinho? Eu com 49 anos e você quer fazer sexo comigo, gordinho?
- Você sabe do que tô falando cara! Eu vou lhe fuder!
Arrancou de novo com violência e velocidade o seu belo carro.
Então, eu percebi a flor à minha frente. Era bonita, era vermelha e era silvestre. Eu cheirei a flor. Cheirei o mundo e cheirei o passado.
E eu pude ver então os pássaros, os rios. E toda a natureza parecia novidade pra mim. Como era bom o mundo. O vermelho da flor penetrava meus olhos e me embebedava calmamente e eu fui compreendendo algumas facetas da minha própria pessoa.
Eu venho da brutalidade dos recreios e não do simulacro das salas de aulas, isso contava muito. Eu sei e sempre soube e, por isso mesmo, vou sorrindo entre os cactos e contando as estrelas, pois meu mundo ainda é o mundo da minha infância. Tenho e sempre terei eternos dois anos e nunca gostei das canções de ninar.



ronaldo braga

sexta-feira, abril 11, 2008

a poesia de LUCIANO FRAGA

Imagens e conflitos


Na primeira vez
que encontrei Brando
na tela do Cine Ópera,
dom Corleone
exigiu minha pele
de cordeiro
como recompensa,
lembro,
meu personagem recebeu
um beijo na testa
e àquelas alturas
o meu funeral
já estava caminhando.
Deixaram-me tão só,
entregue aos abutres...
Eu não imaginava
que daquela profusão de imagens
nasceria um banquete
de conflitos:
entre a moral e a carne,
entre o crente e o cético,
entre o sério e o político,
sou ético,
“um homem chamado cavalo”.
Quando do lado de fora,
as figurinhas carimbadas
de super- heróis
passavam de mãos em mãos,
trocadas,
o meu final foi
uma natureza morta...
Sempre desobedeci as ordens
do padrinho
mas,
nunca recusei as iguarias
do cardápio mundano...


luciano fraga

terça-feira, abril 08, 2008

a escrita de MARIA BRANCO

Não voltarei a falar sobre este assunto, portanto, é de bom tom que você esteja atento. Se bem que, não sei se o melhor seria você estar atento, ou a tempo, uma vez que o nosso bom e generoso tempo não anda mais ao nosso lado. Tenho a nítida sensação que o tempo acelerou os passos, nos deixando visivelmente para trás, ou ainda, correndo contra ele.

Volto a te perguntar, de forma irônica, o que nos fez deixar o tempo passar? Por que perdemos mais uma vez o trem da história ? Por onde você andava quando eu lhe procurava em todas as estações da vida?

Volto a te perguntar, de forma doce, por que eu não estava com você durante todo este tempo? Por que eu não estava, eu não era, eu não? Por que a sumária exclusão?

Chega de perguntas, uma vez que não quero ouvir as respostas... não quero ouvir... não quero...

Chega de lembranças, de fotos, de mágoas, de dores, de cheiros, de cachaça ou fogos de artifício ...

Vamos encarar, de cara, este novo lado do tempo, onde não temos mais tempo para recuperar o tempo perdido.

Você me olha de forma mansa e eu procuro lhe irritar, de forma única e intensa, com o objetivo de provocar a explosão dos seus sentimentos, de provocar, de dizer que não estou prestando atenção em você...

Eu quero muito, eu quero sempre e luto para assegurar que a cadência dos desejos se enquadre em seqüência progressiva.

Eu ando em roda viva para impedir que você siga os meus rastros, esta sua forma infame de dizer que está do meu lado. Eu não quero esta seqüência, eu vou alterar os quadrinhos, de trás para frente, para identificar como será o final.

Eu quero, eu preciso aprovar o final da história em quadrinhos, em pedacinhos de retalho que não se encaixam. Eu quero o prumo certo, eu não acredito que ainda tenha paciência para recomeçar uma história.

Não venha com palavras doces, não preciso deste mel que não me convence. Eu quero algo mais forte, um cognac, uma cachaça da cana que você roubou para adoçar as palavras.

Eu vou seguir a sua rotina, só para poder fugir dela, como uma forma de saber estar onde você não está, saber pensar o que você não pensa, saber sentir o que você se nega a perceber que passa pela minha mente.

Eu vou me lembrar de cada pedacinho da nossa história para que eu possa editar as imagens, sem o seu consentimento, sem ouvir a sua opinião, sem os seus olhos que insistem em me espiar.

Volto a lembrar para você não adote a velha fórmula de me ligar quando o sono está se instalando na minha mente, este momento de relaxamento e comunhão não mais lhe pertence. Eu assumi o comando da sua interferência, você não pode mais me surpreender.

Volto ainda a falar que todos estes pensamentos, verbos em tons imperativos, adjetivos, artigos e negativas contundentes representam uma nova tentativa de negar a sua forte presença em minha vida...

...Ou ainda, uma louca tentativa de negar os sentimentos mais nobres que retomam sempre no exato ponto onde um dia ousamos parar...



Maria Branco

sábado, abril 05, 2008

O arrebentar das pregas

As roupas rasgadas, nem mesmo a calcinha poderia protegê-la. As pregas arrancadas derramaram sangue, sangue este que fugira de suas veias.
Toda sua angústia exposta ao espelho, chora pra dentro, pois as lágrimas estão contidas no seu eco.
O banho aumenta ainda mais as dores no corpo, já que o da alma é imbatível.
“O que dirá a ele quando chegar?” Seu pensamento escorria junto às águas sujas que saíam do seu corpo. Estava mesmo demorando no banho, depois de tudo, era necessário um banho demorado. E seria possível lavar a alma?
Sabia que ele ia notar algo diferente, sua tristeza e desprezo pelo próprio corpo era visível, algo que não dava pra esconder. E mais ainda, ele decifraria que a tristeza em seus olhos não era mais aquela tristeza bela que ele tanto admirava.
A toalha macia pesava tanto em seu corpo magro e fraco que desistiu de secar-se. Foi para o quintal.Nua.Tentar encontrar um pouco de luz nos raios solares do meio dia, seu corpo secou logo. Mas e a luz? Ela vinha?
Sabia que não. Não tinha esperanças e não sabia o que fazer dali por diante. Apenas sabia que nada podia contar a ele. Contar a ele seria perdê-lo para sempre.E perdê-lo seria se perder, ou já estaria perdida?
Tinha um grito sufocado na garganta. Deitou-se na grama e chorou incontrolavelmente, as lágrimas e o suor escorrendo pelas faces rosadas, que depois de tudo que acontecera nesta manhã, jamais seriam as faces angelicais e infantis.
Nesta manhã cruel e bruta tornara-se uma mulher rancorosa, onde toda a tristeza cabia naquele corpo magro, fraco e pequeno, mais ainda agora.
Não, não podia contar a ele. Pensava, soluçava. Era muito sofrimento pra ele, e ele não agüentaria, iria vingar-se.
E agora? O que diria? Não diria nada, absolutamente nada, é melhor assim.
Levantou-se da grama, seu corpo seco com folhas verdes grudadas no suor e lágrimas. As formigas e outros insetos que passeavam no seu corpo judiando-a não a incomodavam. O sol estava forte mas não o suficiente para lhe dar luz.
Daqui a pouco ele chegaria para o almoço. Imóvel, não sabia o que fazer. Estava tão fraca, mais na alma do que no corpo, que não conseguia se mover.
A sua maior preocupação era causar-lhe sofrimento, e percebendo que não teria jeito, desesperou-se. Pensou em se matar, mas ele sofreria ainda mais, poderia até se sentir culpado, inventaria uma culpa para si na falta de motivos ou explicações.
”Deixo uma carta contando tudo então?” Não, logo desistiu dessa idéia, não iria se matar e nem escreveria carta.
Tava tudo escrito já no seu corpo, bastava olhar-lhe nos olhos e leria todas as suas tristezas, angústias e desespero. Saberia ele ler nas entrelinhas?
O tempo apagaria tudo? E se apagasse, até lá, como viveriam?
Não teriam paz até o tempo chegar e apagar tudo. E quando este chegasse tudo já teria mudado, suportariam viver o silêncio da dor?
Ele iria enlouquecer com o seu silêncio, vendo a tristeza intrínseca em seus olhos profundos, iria ficar perturbado, inventaria uma culpa para si e ela acabaria tornando-se verdade.
Seria crueldade demais para ele. Mas também não poderia contar-lhe o que houvera de fato. Se ao menos tivesse garantia que ele nada iria fazer...mas sabia que o seu sangue sertanejo não se estancaria. Não iria perdoar e mataria aquele que destruiu suas pregas, pregas que nem ele mesmo ousara despregar sem seu consentimento.
Sentia sua alma despregada do seu corpo, tinha desprezo e verdadeiro nojo pelo próprio corpo, seria possível reconstituir suas pregas?
Ele entenderia. Suplicaria a ele que nada fizesse, que apenas iriam juntos buscar/encontrar agulhas para costurar suas pregas.
As pregas da alma para reconstituir seu corpo. Ele ia ter que entender, e entendendo deixaria de lado a estúpida idéia de vingança, estúpida porque era muito egoísmo de sua parte querer-se vingar, pois vinganças atraem mais vinganças e ele não poderia deixá-la despregada vagando sozinha por aí.
Precisariam de força, para caminhar com a solidão pregada que permaneceria no mínimo por algum tempo,muito mais ele do que a vítima, ou ambos eram vítimas?
Assim que ele chegou logo sentiu que algo diferente acontecera pela manhã enquanto estivera fora.
Os pássaros não cantavam, as vacas não mugiam, os cães não latiam, tudo era um silêncio só, nem mesmo era possível ouvir as folhas das árvores balançadas pelos ventos, porque nem mesmo o vento ousara vir. Apenas o sol forte, queimando as almas habitadas por aqui. Era o silêncio da dor. Profundo.
Veio com passos firmes e leves, derrubando o silêncio, em sua direção. Abraçou-a, e ela pôs-se a chorar um grito de dor.
“Que aconteceu? Por que choras? Por que está desse jeito, nua?” As palavras engarrafaram na sua garganta, não ia conseguir falar e em seu pensamento e choro, soluços, implorava-lhe que nada perguntasse. Era terrível demais tocar nesse assunto, aquelas palavras sujas não poderiam ultrapassar sua garganta, e ele não mereceria ouvir coisas tão feias, sujas e terríveis. Não valia a pena.
Ela até já se sentia um pouco mais confortada com seu abraço forte, estalando-lhe a alma que fora sugada, que vinha com passos fracos e pesados.
Pegou-lhe pela mão e arrastou-lhe pela cama. Deitaram-se. Num gesto impulsivo e bruto, rasgava a roupa dele, violentamente, batia-lhe na cara com força, até ficar as marcas do seu dedo, o que era muito difícil, pois o rosto dele era muito queimado de sol e rugas.
Ele tomou um susto tão grande que ficou paralisado. Não conseguia se mexer.
“Ficaste louca? O que é isso? O que deu em ti?”
Mas ele não conseguia falar. Suas roupas estavam todas rasgadas, seu peito todo arranhado, a face esquentada pelos tapas, sentia os dentes cravando em seu pau, apenas conseguia gemer, um gemido com prazer e dor.
Sentou-se em cima dele e penetrou-se no buraco mais fundo do seu ser. E agora ela gemia, mas dessa vez era um gemido só de prazer, sem dor como pela manhã e como o dele.
De início nem sentira que o seu pau aprofundava no buraco pequeno e profundo, a alma sendo sugada, de tão extasiado que estava pelo susto, por toda aquela cena.
E num grito libertou-se, libertaram-se, não se sabe exatamente de onde saíra o grito, ou ambos harmoniosamente gritaram? As almas esporrando intrinsecamente nos corpos.
Ele estuprado, extasiado, respirava ofegante e o silêncio adentrava-lhe.
E mais uma vez era tomado pelo silêncio da dor e agora também do prazer, e nem pudera ouvir os pássaros cantar, as vacas mugirem, os cães latirem, as folhas das árvores balançadas pelos ventos, os ventos, e o sol não mais o queimava. Era úmido feito o buraco profundo e pequeno. Como se cavasse a fundo um buraco na terra e enterrasse seu próprio corpo.


Maíra Rato

a poesia de NUNO GONÇALVES

o canto do anjo vermelho




um blues esfarinha os ossos da saudade

apenas o temor me abriga
nessa noite sem esperança

onde estão as mulheres-verdes ?
onde estão as mulheres-algas ?
onde está o gibão anti-radioativo
para desarmar a cabeça-dinamite do século ?

a estrada tem fome
talhos & atalhos para os príncipes da paranóia
: são dez e cinqüenta e quatro
, posso morrer confortado pela ausência de olhares

estou em casa, meu sono está morto
& as mentiras soterradas em minhas unhas
um blues é um atalho
para a sobrevivência ou o esquecimento

o amor é a violência do assassinato
o desespero é o sangue do misticismo
assim como a noite é a estrela da fuga
& o escuro um daimon arcaico

há dias que estou em transe
aspirando o álcool prostituído dos postos de combustível
dirigindo meus sonhos no interior da valise das caveiras
& ruminando essas digitais impressões minerais

há anos que estou amedrontado
& nenhum raio me guia para nenhum território pacífico
ainda posso suicidar este corpo que não me pertence
mas prometi ao deus dos espelhos que não o faria

descobri essa arma enterrada nas cinzas de meus pulmões
morrerei como uma coruja que antes do parto tratou de profetizar sua própria morte
ou como um galo que pela manhã canta o velho sol esquecido

em minhas veias nenhuma morfina foi encontrada
nenhum metal precioso ou equivalente
em minhas veias foi encontrada a ira & a herança
a covardia e a nudez de um anjo

o mar se curva perante a aurora
no altar de meus pesadelos
só há agora pecados & automóveis
& a poeira das vestes desfiguradas

ruge a sombra ruge a fera
ruge o sino assombroso da catedral
nunca serei fuzilado
a menos que o crepúsculo se instale no coração do meio-dia

meus braços foram criados para empunhar pás de areia
para enterrar entes queridos
& se meu hálito recende à cachaça
isso é melhor que não ter hálito nenhum

espectros de caleidoscópios girando entre ressentidas estrelas
qual os ponteiros de um relógio fúnebre
ou de um mirar vazio no horizonte
assim é a vida: sina de telefone que toca insistentemente sem que ninguém atenda

nos andes o frio me aguarda
sóbrio & sombrio como uma língua desconhecida
em busca de um beijo ou da garganta aberta do inimigo
somos todos a suavidade de um deus que dança
– escatológicos signos de uma relva que amanhece –
antes mesmo de nascer



o silêncio dos sonhos

tudo que é aspira à morte
do que já foi ou vem-a-ser
tudo passa e nada é
as estações, o amor, as fábulas
o ódio, a ira, a raiva
murcharam as flores do mal
e os cânticos de Maldoror
morreu Rimbaud e a juventude
entre escravos e armas
entre escarros e almas
entre
veja minha casa, meu pasto
não há nada
desta pedra não se tira leite
este é o deserto, o esquecimento
este é o mistério
não querer mais, querendo
nada saber, sabendo
germinar na terra infértil
agir na hora imprópria
sonhar o silêncio que nos sonha
a invenção da roda
da fortuna
&
do destino



medo das águas II
suas barbas de netuno, sua eterna tranqüilidade
chegando até minha casa através de um sonho
convivendo com bicicletas, espaguetes e cartazes de proibido fumar
com duas meninas gêmeas e peças de artesanato expostas
numa bela ilha no sul da manhã
suas barbas de netuno, sua aparente tranqüilidade
chegando até mim nas areias do deserto
arrastada pelos ventos delírios
convivendo com os besouros que coleciono na caixa de fósforos
e com meus velhos sapatos negros

fostes também um andarilho
mas voltastes para morrer em casa
na curva que liga nossa aldeia ao mar
às águas salgadas
aos sonhos, aos delírios, à espuma
que as asas agora te sirvam
nessa longa travessia
decisiva jornada

ficarei com suas barbas de netuno
com sua eterna e aparente tranqüilidade
com meus besouros, meus sapatos & meus sonhos
sem o medo da morte que nos espreita atrás da árvore
na curva que nos separa de nossa aldeia
na curva que nos separa das águas salgadas do mar.

terça-feira, abril 01, 2008

Besando el filo de la navaja
de ronaldo braga
Traducido al español
por Graciela Malagrida

Quiero el beso de la madrugada
gorgeado,
en lapsos, por mariposas perversas
y el cuerpo escuálido
de la más fea muerte.

Quiero la negación
de mi mismo
de los soplos suaves en la agonía de existir.

Quiero el verde-putrefacto
y perderme para siempre
en los cantos,
de tu sexo.

Y en noches y días y esperas
soy como nada contemplado
en tus ojos violeta.

Tienes así
en mí…
TU propia muerte.

Es la belleza
tuya,
apenas una ofensa
en las turbulentas fiestas de Baco.