quarta-feira, fevereiro 20, 2008

a troca impossivel

Pintura de Nelson Magalhães Filho. Mista s/tela, 185X145 cm


A morte, a ilusão, a ausência, o negativo, o mal, a parte maldita estão lá, por toda parte, na filigrana de todas as trocas. É mesmo essa continuidade do Nada que fundamenta a possibilidade do Grande jogo da troca. Todas as estratégias atuais se resumem a isso: fazer circular a dívida, o crédito, a coisa irreal e inominável da qual não se pode desembaraçar-se. É assim que Nietzsche analisava o estratagema de Deus: ao resgatar , ele, o Grande credor, a dívida do homem através do sacrifício de seu filho, fez com que essa dívida não pudesse jamais ser resgatada por seu devedor, porque já tinha sido quitada por seu credor - e criou, assim, a possibilidade de uma circulação sem fim dessa dívida, que o homem levará consigo como culpa perpétua. Essa é a esperteza de Deus. Mas é tambem o do capital, que, ao mesmo tempo em que mergulha o mundo numa dívida sempre crescente, se dedica simultaneamente a resgata-la, fazendo assim com que ela não possa jamais ser zerada, nem trocar-se por nada. E isto serve para o Real e o Virtual: a circulação sem fim do Virtual fará com que o Real não possa jamais troca-se por nada.

Jean Baudrillard (A Troca Impossível, pag 13, editora nova fronteira, 1999)

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