terça-feira, janeiro 01, 2008

A menina queria ser como as outras.

A menina era linda, tinha um belo sorriso e era muito delicada, mas ela não podia ouvir falar em sua mãe, ouvir falar nela cortava todos os anéis dos anjos caídos e fazia transbordar os uivos secretos de sua alma. A MENINA QUERIA SER COMO AS OUTRAS, TER UMA MÃE QUE LHE RECLAMASSE, encontrar a comida na mesa no horário e mais ainda encontrar comida. Mas a menina desabafava com os demônios e dormia em gélidos sonhos envoltos em medos e sabia que o que era certo era a sua vergonha por aquela mãe.
Naquela manhã cinzenta de abril, a menina acordou os diabos e ainda sorrindo, sua beleza desaparecia quando seus olhos avistavam sua mãe no computador. Naquela manhã tudo poderia ser diferente, o sol era distante, mas era belo o frio que delicadamente se infiltrava nos lábios da menina, um cinza quase marrom tomava conta dos ares e a menina disparou palavras que para sempre lhe magoou. Chorando e ainda a espera de um abraço a menina gritou:
- Você é uma vagabunda, você é um lixo, um nada, eu sou feliz até lembrar que sou sua filha.
- Filha, não fale assim, você não gosta de você, por isso que fala assim, por isso que não estuda, e por isso que arranja esses namorados traficantes. Mas você é uma menina boa...
- Cínica, foi você quem me prejudicou, além de tudo é uma tremenda cínica- A mãe então cometeu um erro, rindo passou a mão no cabelo da menina e disse
-Você é uma completa imbecil- A menina sentiu o mundo escurecer e sem pensar arremessou o cd de Chico Buarque em sua mãe e acertou em cheio o pescoço e então seu belo sorriso ficou calmo e mais belo e ela sentou-se perto da mãe e começou a cantar cantigas de ninar enquanto sua mãe tentava em vão dizer alguma coisa, a menina calmamente colocou o cd ainda sujo de sangue no aparelho, acendeu um baseado e em um sorriso terrificante ouvia Chico Buarque cantar:
- Pai afasta de mim esse cálice.
A menina foi ficando cada vez mais bela e olhava a sua mãe que imóvel na sala era apenas um maravilhoso vermelho e a menina passou primeiro os dedos no corpo gelado de sua mãe e depois as mãos, e mais adiante todo o seu corpo. E como se agora tudo fosse para ela muito claro, a menina foi buscando o solo e aos poucos estava na posição fetal e com os dedos escreveu no chão da casa com o sangue materno :
- Eu te amo mamãe.

Ronaldo Braga

7 comentários:

Zé de Rocha disse...

Caro Ronaldo,
Muitas felicidades nesse ano novo!
Conferi o texto do dia 04 que você postou e disse ter parentesco com o meu.
É isso aí, companheiro.
Embora nos consideremos muito importantes,o universo vai prosseguir sem o ser humano.
"Nascemos para morrer e vivemos em busca do nada."

Luciano Fraga disse...

Caro Ronaldo,"...antes de eu ser parido por minha mãe,gerações me indicavam o caminho:meu feto jamais foi entorpecido,coisa nenhuma era capaz de cobri-lo..." Texto duro. As "mães são felizes".

Renata Belmonte disse...

Oi, Ronaldo!
Obrigada pela visita no Vestígios. E feliz 2008!
Abraços,
Renata

katherine funke disse...

morrer atacada por um cd do chico buarque... bela idéia. bela cena. triste e gélida como a vida pode ser, às vezes, entre duas pessoas que não se entendem...

anjobaldio disse...

É isso Ronaldo, lembrei do Cazuza cantando "Só as mães são felizes". Grande abraço.

Ruela disse...

Muito forte e interessante.
Um grande abraço.

Cafundó disse...

Esse é forte!
Meu beijo, Rô.