terça-feira, janeiro 29, 2008

solidão

Eu
vazio
espero.
Seus olhos
surdos
me olham
do nada.
E em lentos momentos
a morte quieta,
vigia,
e
sorrateira avança.
E eu
do outro
lado
me desespero.
Um sopro de nada
corta o quarto,
e agora
para sempre acabou.

ronaldo braga
( este texto foi escrito em 21-11-2003 logo após da morte do meu sogro o poeta Israel Trindade, aos 84 anos de idade.)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

ator da cia dos anjos baldios passa no vestibular da ufba para interpretação teatral








JOÃO GABRIEL MARQUES DA SILVA
Descoberto pelo ator e diretor teatral Ronaldo Braga, hoje participa da cia dos anjos baldios, realizando peças e vídeos com Ronaldo Braga e Nelson Magalhães Filho.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Daniela

(pintura de Cristina Del Valle, artista da Argentina)
Ele não queria e nem imaginava como viver sem ela, foi uma dependência que ele nem mesmo sabe como começou, só que agora as coisas estavam de uma forma tal que ele simplesmente entrava em total desordem interna quando, por exemplo, na fila do caixa em um supermercado, ela resolve buscar um produto e demora um pouco além do esperado: todas as coisas e pessoas ganham cores e contornos diferentes e o pior sempre aterrorizantes e aí quando parece que a coisa toda vai explodir, ela chega e tudo então volta ao normal, o circo ao seu refrescante cotidiano.
Mino acordara naquela manhã, com um sentimento estranho a lhe morder as entranhas, ele sentia que Daniela estava sutilmente diferente, e com medo vasculhou as possibilidades de ter feito algo de nocivo ao seu feliz relacionamento, será ele a razão da tristeza dela? Mino buscava com agrados e carinhos manter Dani feliz mas, sempre passava do ponto, sempre seus mimos eram em demasia, Daniela se sentia sufocada e o acusava de não deixar espaço para ela viver.
Os últimos dias para Mino foram terríveis, dúvidas martelavam seu cérebro, dores constantemente na cabeça e a cada ato dele, feito com todo esmero para agradar, acabava sempre com ela zangada e o acusando.
Hoje acordara mais assustado que nos outros dias, mas ao levantar e sair do quarto encontra Daniela nua e como ela estava linda e parecia que ia voar, ela, na sua frente, distante sem nada ouvir ou ver. Mino, quieto se aproxima e observa:
Daniela fria e distante sabia da derrota, ele não era incomum e também assim como os outros, tinha medo de planos, de conquistas.
Daniela sabia do vazio do seu amor e sabia exatamente que ele não era o homem que ela sempre quis, que ela sempre desejou. Mino: agora ela percebia, era apenas mais um homem na sua vida, até quem sabe aparecer um outro.
Daniela sorriu, pensou que sempre existia a esperança em um novo começo, quem sabe o próximo não seja o homem com quem vá construir um futuro, com objetivo e objetivos.

Daniela percebeu a chegada de Mino e o olhou com carinho.
Mino a abraçou e a beijou e ela o beijou e disse que o amava e que ele era o homem de sua vida. E enquanto faziam amor ela o obrigava a dizer que a amava, mais de uma dezena de vezes.
Mino acordou feliz, com o corpo disposto, com muita fome e jovialidade.

Ronaldo braga

domingo, janeiro 06, 2008

a poesia de alyne costa

Perguntas sobre um abismo:
Eis-me.
Perguntas sobre lei.
Nada sei. Finjo. Desvio. Confissão.
Padre, missa. batismo, lua, concepção...
Perguntas sobre o horizonte:Fonte.
E um doce saboroso surge dentre as louças da prateleira.
Um vinho do Porto.
Mares.
Naufrágios.
Resto-me inteira.
A boiar sobre cada questão.
A enfrentá-las despida da fera que me habita.
E se não me perguntas nada, nada sou.
Passo a habitar o labirinto dos mistérios que me transbordam.
Calo-me, catatônica.
E me apresento em paisagens camponesas.
E, talvez, em destrezas de miragens.
E se perguntas demais, me sobro aflita.
Eu não sou inventada, nem rasa.
Sou mulher, profana e insana.Tantas vezes distante.
Noutras te enlaço.
Como se aquele passado fosse tão somente o passo.
De um baile absurdo que desfila entre nossas sementes.
Entre o desejo insano que crava os dentes.
E que grita aleluia, por sermos amantes...
Sobreviventes!

Alyne Costa
Brumado, 20 de Abril de 2007
leia o www.docafundo.blogspot.com
o blog da Alyne e lá tem poesia e pintura de ótima qualidade.
Eu indico.

sábado, janeiro 05, 2008

requiém para bois


Pintura de Nelson Magalhães Filho
" ... eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de transito..."(Bukowski)


Abrir mãos,
aceitar
sim,
rejeitar!
Submeter-se?
Jamais,
ajoelhar-se
aos pés de outrem.
Mesmo que estes joelhos
não suportem mais
não dobrem-se,
mesmo que pareça
para seu bem...
Deixe doer,
grelhar,
como no cinzado carpete
que usas para trepar.
Espaçamentos,
desdobramentos,
labutam
no mofo dos papéis
que as traças
traçam
e perdem-se
nos mapas do tempo
dos coronéis.
Como um boi,
avança, avança,
estupida-mente
para dar de cara
com o farpado
das crenças
e sorrir, sorrir,
com um mugido,
de Amém...


Luciano Fraga

Homenagem ao poeta Ronaldo Braga

terça-feira, janeiro 01, 2008

A menina queria ser como as outras.

A menina era linda, tinha um belo sorriso e era muito delicada, mas ela não podia ouvir falar em sua mãe, ouvir falar nela cortava todos os anéis dos anjos caídos e fazia transbordar os uivos secretos de sua alma. A MENINA QUERIA SER COMO AS OUTRAS, TER UMA MÃE QUE LHE RECLAMASSE, encontrar a comida na mesa no horário e mais ainda encontrar comida. Mas a menina desabafava com os demônios e dormia em gélidos sonhos envoltos em medos e sabia que o que era certo era a sua vergonha por aquela mãe.
Naquela manhã cinzenta de abril, a menina acordou os diabos e ainda sorrindo, sua beleza desaparecia quando seus olhos avistavam sua mãe no computador. Naquela manhã tudo poderia ser diferente, o sol era distante, mas era belo o frio que delicadamente se infiltrava nos lábios da menina, um cinza quase marrom tomava conta dos ares e a menina disparou palavras que para sempre lhe magoou. Chorando e ainda a espera de um abraço a menina gritou:
- Você é uma vagabunda, você é um lixo, um nada, eu sou feliz até lembrar que sou sua filha.
- Filha, não fale assim, você não gosta de você, por isso que fala assim, por isso que não estuda, e por isso que arranja esses namorados traficantes. Mas você é uma menina boa...
- Cínica, foi você quem me prejudicou, além de tudo é uma tremenda cínica- A mãe então cometeu um erro, rindo passou a mão no cabelo da menina e disse
-Você é uma completa imbecil- A menina sentiu o mundo escurecer e sem pensar arremessou o cd de Chico Buarque em sua mãe e acertou em cheio o pescoço e então seu belo sorriso ficou calmo e mais belo e ela sentou-se perto da mãe e começou a cantar cantigas de ninar enquanto sua mãe tentava em vão dizer alguma coisa, a menina calmamente colocou o cd ainda sujo de sangue no aparelho, acendeu um baseado e em um sorriso terrificante ouvia Chico Buarque cantar:
- Pai afasta de mim esse cálice.
A menina foi ficando cada vez mais bela e olhava a sua mãe que imóvel na sala era apenas um maravilhoso vermelho e a menina passou primeiro os dedos no corpo gelado de sua mãe e depois as mãos, e mais adiante todo o seu corpo. E como se agora tudo fosse para ela muito claro, a menina foi buscando o solo e aos poucos estava na posição fetal e com os dedos escreveu no chão da casa com o sangue materno :
- Eu te amo mamãe.

Ronaldo Braga

lavagem do Glorioso São Roque do Jacuípe

Melânia, Natália e Sidália
Já não posso mais dançar
João Bretante não tem mais o cabaré
E os foguetes não pipocam no ar
Sidália, Melânia, Natália
Acorda o povo para a louvação
O Jacuípe correndo morto
E um saco de maconha
Arde na periferia da região
Natália, Melânia, Sidália
Um Barbeiro cego
Toca a caixa na rua deserta
E uma ratazana corre pelos escombros
Trazendo a epidemia para o Riachão
Melânia, Natália, Sidália
Acorda o povo para a procissão
Manda rezar pra São Roque
Manda o povo ter mais devoção.


Miguel Carneiro

In inédito
31 de dezembro de 2007