terça-feira, dezembro 30, 2008



flamenguinho, time da rua da baixinha da vitoria



baixinha da vitória

A chuva desabava e goteiras acordavam os sonos, eu tentava escapar e panelas e baldes aparavam águas de um soluço interminável, lembranças terríveis assolavam da noite e estrelas sumidas insistiam sofrimentos.
- Levanta preguiçoso - Bradou meu pai e toda sua estupidez.
- Já? Ainda não deu cinco horas. Eu quero dormir mais um pouco.

- Dormir o que? Imprestável. Levanta, vai comprar o pão e coloca água pra ferver. Nem com tantas goteiras na cama esse maldito levanta. - Meu pai agora era cólera e vertia ameaças em gestos e palavras e de sua mão uma vara impunha respeito.
- Tá bom. Já vou, já vou. Que merda.
- O que você disse moleque?
- Nada, eu não disse nada.
A rua, era silêncio e madrugada, e a lua emanava tristezas de antes, e insetos sobrevoavam meu andar em uma insistente orquestra fantasmagórica, em frente a minha casa, Pedrinho Bicho Doido acordava os músculos, em exercícios marciais, e cantava canções de heróis em sua mudez arrogante. A chuva era trégua e cores prateavam o mundo em difrações infinitesimais. Louro Bicho sonhava copos e de sua casa, sujeiras espalhavam nojos. Eu caminhava uma rua deserta e pessoas surgiam em seus afazeres. A venda fechada irritava clientes e conversas medrosas informavam fofocas e exigiam o meu acordar, e entre dentes o povo falava:
- Hoje vai ter briga aqui na rua, vou dormir cedo, eles marcaram para as 18 horas - era seu Venâncio olhando pra todos os lados.
- Quem vai brigar?- atônita indagou dona Flor.
- A senhora não sabe? Compadre, ela não sabe.
- É compadre Venâncio, eu ouvi, não precisa gritar - resmungou seu Agripino sempre azedo.
- Dona flor, o Borraxa chegou, na caída da noitinha, junto com aquela chuva fininha e o Diabo Louro chegou logo depois, e para completar o Pedrinho Bicho doido acabou de chegar, e faz exercícios na porta, e vestido só de cueca. - Seu Venâncio lamuriava em uma monótona canção de medo e terror.
- Mas isso é o diabo meu Deus. E Tonzinha? E Zefa? E Bastião? Eles não fazem nada?
- Fazer o que? Dona Flor, o que, que a pobre da Tonzinha vai fazer para impedir o Diabo Louro? Ele faz o que quer e pronto, ela disse que pediu a dona Zefa, pra avisar da vinda do Borraxa. Mas eles são o que são, matam gente. Dona Flor, são filhos do cão danado. - seu Venâncio se entusiasmava e tagarelava com desenvoltura, e todos cabisbaixos adentravam a venda entreaberta e triste. No balcão Giane avisava:
- Vamos fechar às cinco da tarde, não quero ter prejuízos.
Todos concordaram e iam falar quando Pedrinho Bicho Doido sorriu venda adentro e com sua voz feminina brincou facas nas mentes covardes:
- É hoje seus machos retados que a baixinha tem festa, há anos que eu não encontro o tal do Borraxa e vou acertar contas com ele, é bom irem pra cama cedo, não quero ver ninguém na rua depois das cinco. Nem as crianças. Ouviram? E o senhor. Seu Venâncio da língua grande. Pode espalhar. Eu quero a baixinha da vitória livre. Ouviu? Livre. Hoje essa rua é o meu salão.
- Sim senhor seu Pedro – resmungou quase inaudível seu Venâncio acariciando a face esquerda, onde uma lembrança do Pedrinho Bicho Doido marcava território e prolongava medos. De volta pra casa, tomei um café com pão seco e engolindo injúrias e promessas de surras, me sonhava Diabo Louro com sua Tonzinha louca e descarada, enquanto caminhava pra escola. A rua misteriosa vagava na noite por vir, e deixava quietas as contendas menores: Era dia de homens, e os fantoches se sabiam nada e cochichavam rumores de meganhas da capital, em tímidas esperanças natimortas, encolhiam ombros e eram bondosos. A escola era só alegria em batalhas de verdade, a impor futuros, nas peles em fogo de punhetas esquecidas, e nas salas as torcidas se dividiam:
- O Borraxa vai acabar com o viado e com aquele sinistro Diabo Louro - apostava Mané liberando raivas antigas e revelando dores impotentes;
- Tu tá é com raiva, Diabo Louro deu uma surra em teu pai e só não o matou porque disse que não matava morto - desafiou todo orgulhoso Juca que temido, era amigo tanto de Diabo Louro quanto do Pedrinho;
- Eu não tenho medo de você não, quando seus amigos forem embora a gente acerta.
As meninas colhiam flores em espinhos comoventes, e sorriam guerras em batalhas queridas, e as garotas esquecidas buscavam refúgios em gritinhos e promessas de beijos Eu insistia meus medos em coragens ausentes e desafiava céus, e músicas gigantes invadiam nossas cabeças de medusas. E valentia era a constante do dia. As professoras falavam de amor e ameaçavam zeros, funcionários agitados, alarmavam noticias. E a escola em desordem era férula, numa festa macabra de esperanças totais, e verdades quebradas. Todos sorriam de medo ou de felicidade, e desejos ocultos afloravam peles, e meninas esfregavam vestidos, e seios buscavam mãos, e éramos belos e eretos, éramos da rua de heróis, temida e mal falada por toda Bahia, a minha querida baixinha da vitória, com seus loucos, seus monstros e seus homens de verdade.

ronaldo braga

esse texto eu ofereço aos moradores da rua baixinha da vitoria e especialmente aos que nasceram na na referida rua.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

mais uma de MATHEUS VIANNA

Sopro do vazio



O sinal que aponta para baixo anuncia um dos rumos a seguir. E mesmo que assim seja, não será determinante para minha jornada. Para meus passos neutros. A cautela lhe tornará insignificante para minha tolerância infame. Amanhã caminharei novamente movido por razões vazias. O ponto abaixo marca a curva que me procura. Desvio. Para onde aponta? O rumo que tomo não condiz com a certeza. É por isso que te convido para bailar comigo. O rumo que tomo tem a marca da dúvida e lança luz ao sopro do vazio. agendas, calendários e relógios apressam ações e transformam numa frustrada tentativa de condução alguns compassos esguios. Lembro da infância numa neo-infame tentativa de brotar um sorriso. E após inquietações alfabéticas me retiro para a chegada do sol. Mas não sem antes interrogar os sinais e duvidar de todos os números.


MATHEUS VIANNA

quarta-feira, dezembro 24, 2008

a poesia de matheus vianna

Amanheceres
Interrogações exclamam mais uma vez.
Nova fase lua cheia.
Amanheceres
E não mais inerte no casulo. Asas. Sóis.
Teto, tato, tento, trato.
Rimo só no vazio do palco.
O que me resta?
?

Matheus Vianna

domingo, dezembro 21, 2008

CONVITE DE LANÇAMENTO

VAGA LUMES
LIVRO DE

luciano fraga

LOCAL - ESCOLA MORAGUINHO
RUA PROFESSOR MATA PEREIRA - CENTRO
CRUZ DAS ALMAS - BA

10 DE JANEIRO ( EM UM SABADO A NOITE)
20.30 HORAS

CAPA E ILUSTRAÇÕES DE
RUELA ARTISTA PLÁSTICO PORTUGUÊS.

nÃO PERCAM VOCÊS QUE MORAM NO ENTORNO COMO MURITIBA, SÃO FELIX, CACHOEIRA, SAPÉ, ALMEIDA E SANTO ANTONIO.

Luciano vem com o seu blog www.versoseperversos.blogspot.com, mostrando e surpreendendo a todos com uma poesia sem equivalencia na história literária de cruz das almas, alguns poetas conteporaneos seus que rabuscam a palavra para parecer bonito mais nada tem a dizer, luciano assim como o velho buk, primazia o que dizer do como dizer, e isto não resulta em uma poesia feia, só de conteudo, não, antes temos uma poesia densa, que nos fala com a forma e o conteudo, nos fazendo ver em cada palavra muito dos nossos corpos, das nossas invisibilidades.
posso dizer sem medo que em cruz luciano é unico e os outros apenas os outros.
luciano fraga meu mestre da poesia.

ronaldo braga
que para a dor de muitos tambem é de cruz das almas e que para ele cruz é uma cidade sem alma.e agora com a nova realidade politica ficou pior.

sábado, dezembro 20, 2008

A POESIA DE MATHEUS VIANNA

QUE HISTÓRIA CONTAR AGORA?



Acordei e vi que as dores do mundo ainda estavam preenchendo minha fronha. Arqueiro por excelência atirou flechas em espelhos durante toda noite.
Sem piedade seguir a sangrar meus êxitos com imenso prazer. Astuto. Vendado, apurei a audição ali; nos lindos campos sem flores. E ainda sentado seríamos felizes. Sem flores. Tentei dormir de novo, me cobrir com suas mágoas e mais uma vez mergulhei fundo na solidão. Sem piedade e sem mais nada ouvir, atirei a flecha da amargura no meu denso interior de sonhos. E ainda de olhos fechados me pergunto:
QUE HISTÓRIA CONTAR AGORA?

Matheus Vianna

domingo, dezembro 14, 2008

Carta resposta

Com todo o tempo que eu não tive quando ainda sofria ao seu lado, fiz de minhas memórias, meu passatempo e aprendi a fazer listas de preferências, exatamente como os orientais, não sei exatamente onde isto vai me levar, não sei nem mesmo se vai me levar, o que eu sei com toda a certeza é que agora as coisas ficaram mais às claras, apesar de ainda confusas, você ainda é presente em mim, como um monstro para uma criança na hora de dormir, sei que você não estar mais aqui mas a sua presença me dar medo e me assusta.
A sua carta não me surpreendeu, eu sabia que este incomodo viria a qualquer momento, logo que eu a recebi, estava decidido a não abri-la e queima-la fechada mesmo, depois pensei em guarda-la, é guarda-la fechada mesmo, como um trunfo, que se exibe para os derrotados, mas alguma coisa dentro de mim fervia enquanto eu olhava e via aquela carta como uma arma letal que poderia ser usada contra mim se eu não a abrisse.
Li e reli a sua carta e confesso que não vou responde-la, escrevo esta tentando não ser uma resposta, antes quero lhe dizer as verdades que você sufocou todos esses anos de ausência ao meu lado, engraçado, quando ao meu lado você aterrorizava a minha vida, sua ausência era o meu terror, hoje quando já separados, sua presença é uma dor que eu tenho que carregar e parece para todo o sempre.
As palavras que escreveu me perseguem como o som de sua voz em meu ouvido me acusando, me diminuindo e chorando seus fracassos como um rio de lama que insiste em morrer e continuar vivendo.
Mas eu quero lhe falar de minha lista de preferências, onde a musica não estar presente em nenhuma etapa, você matou em mim todo o gosto e a capacidade musical, hoje é a matemática o meu forte e agora que eu concluí o curso de matemática básica confesso que sei menos ainda, mas com uma felicidade enorme carrego na pasta o certificado de conclusão.
Você por certo vai rir e dizer que na minha idade e posição intelectual, eu já devia ter desistido das besteiras adolescentes e me focar na filosofia que é o meu forte.
Mas na verdade as exatas me sufocam e eu precisava de um alivio.
Mas para seu conforto e desespero eu apresento sem mais discussões a minha lista de preferências:
1- ser doutor em matemática inconclusa
2- esquecer você
3- ler todas as cartas que eu escrevi pra você e não mandei
4- me mudar de país
5- aprender a tocar piano
6- aprender ter ritmo ( eu sei que sou desafinado e que não sei nem mesmo dançar dois pra lá, dois pra cá)
7- fazer teatro( a nossa vida de casado foi sempre uma comédia, hoje eu me interesso pelas tragédias)
8- arrancar você de dentro de mim
9- saber de seus segredos e divulgar para o mundo
10- fazer morrer o eu que você machucou.

Saiba que eu escrevo esta carta, como se não tivesse lido a sua, em um esforço desconhecido pra mim, estou evitando responder a todas as suas insinuações e pautando a minha carta em meus devaneios, estou tentando não ser um reativo, não responder antes apresentar as minha questões, pra você pensar.
Quero encerrar esta carta pequena, afirmando que não sei o porque, mas não quero lhe ver de novo, mas que me agradaria muito um convite seu para que tal aconteça.
Sem mais deste ser que você tanto maltratou e que agora lhe ver a distancia e que é feliz na solidão dos seus pesadelos.

Ronaldo Braga

mais um texto de MARIA BRANCO

Com a sua voz ainda presente, perecebo a passagem do tempo em todos os estágios físicos da matéria...
Até porque, a solidez das suas palavras retrata uma barreira intransponível entre a realidade e a loucura.
Esta solidez é ainda a estrutura de suporte inicial para que as emoções não sejam direcionadas para o estado líquido, em forma de lágrimas que, uma vez reprimidas, constituem uma contenção física para a liberação dos sentimentos ermos.
Claro que você não tem conhecimento dos fatos, afinal, você se foi junto com o silêncio que deixou, e eu, com muito custo, consegui captar e armazenar a última palavra dita naquele ato: NÃO, em toda a limitação de vocábulos e em toda extensão dos sentidos.
Não serei simplista o suficiente para tratar desta palavra como uma simples negativa. Afinal, você foi muito além, no momento que invadiu um espaço privativo, um campo minado de emoções e teoremas.
Sei que sempre foi taxativo quanto ao uso da matemática para expressar sentimentos, o que sempre contestei, uma vez que não conheço nenhuma ferramenta mais lógica que possa vir abranger e simplificar os estado confusos da alma...
Quer saber? Hoje pouco me importa se você não tem esta afinidade com os números... se contente com a sua habilidade musical...
Então preciso confessar que desde cedo eu conto tudo: relaciono, preparo uma lista imensa e começo a montar uma matriz de possibilidades. Desta forma, com esta visão espacial, enxergo as questões em três dimensões, inclusive posso lhe informar que é assim que vejo toda a sua negativa. Talvez por isto, venha a ter esta percepção tão sólida do seu estado gasoso e fugaz.
Sempre acreditei que o bom da vida é aquela sensação de transpor barreiras, principalmente se representam avanços físicos e emocionais. Ir mais adiante, descobrir o novo, vislumbar novos espaços internos e externos, isto sim pode ser chamado de crescimento. Nasci abrindo portas para um mundo vasto, um mar infinito de possibilidades e ainda acredito nisto, sem dúvidas, razão da minha existência teimosa. Acho até que estas crenças norteiam a busca pela viagem infinita, representando a mola que nos impulsiona para novos voôs.
Pensei e equacionei durante três horas, vendo, sentindo e ouvindo toda a extensão da sua negativa, claro que iniciando pela definição da poligonal. Tangenciei os principais vértices, retifiquei todas as arestas até criar coragem para a imersão na área previamente calculada. Sei que estou revelando o meu processo, mas é bom que você conheça o passo a passo para a visualização em três dimensões, após três horas de equacionamento.
Sei que consigo prender a sua atenção, a matemática possibilita este clima de suspense: todos buscando um resultado, que pode ou não ser conclusivo. Não tenho expectativas de levá-lo até um final, sei da sua impaciência e vou respeitar suas limitações, até porque, como já disse antes, são suas limitações e eu nada tenho a ver com isto.
Se em algum momento fique paralisada com a sua expressão de negativa, me perdoe por este ato absolutamente humano, e digo mais, esta é a sua última oportunidade de praticar o exercício da liberação das culpas...
Sei que não devia, mas vou esperar a resposta, que pode ser sua, do tempo, da vida, ou de alguém que por descuido, tenha a oportunidade de ler estas linhas parametrizadas e tenha a idéia de iniciar uma interação, de preferência, sem negativas intransponíveis.

Maria Branco

quarta-feira, dezembro 10, 2008

fotos da peça só flores para os hospedes



























fotos das personagens da peça " só flores para os hospedes"

domingo, dezembro 07, 2008

sexta-feira, dezembro 05, 2008

TEATRO : FLORES PARA OS HOSPEDES

TEATROTEATROTEATROTEATRO


atençaõ visitantes
DIA 2O DEZ 20 HORAS
A PEÇA
FLORES PARA OS HOSPEDES
ACONTECE NO
ESPAÇO XISTO - BARRIS SALVADOR

ENTRADA FRANCA

NÃO PERCA.
TEATROTEATROTEATROTEATRO

sexta-feira, novembro 28, 2008

sorriso de aluguel

como em um possesso jogo desesperado
almas sofridas desfilam
poses
em um interminavel carnaval de derrotados.

E os poetas da paz
beijam os anjos em noites de lua preta
e
assassinam a vida em seus belos versos corrompidos.

É um tempo de mentiras,
de vidas interditas,
e de poetas que soluçam sorrisos de aluguel
e insistem
nos fluxos invernosos que extrapolam os verões e
calam os beijos.

E é um tempo de verdades,
pois sei,
no olhar dos amantes a palavra recorta o murmurar
e desafia o cantar surdo
numa canção aos corações soturnos e delicados.


ronaldo braga

segunda-feira, novembro 24, 2008

terça-feira, novembro 18, 2008

Mercedes Sosa - Gracias a La Vida (Violeta Parra)



pra mim uma musica que ficará marcada na minha vida

domingo, novembro 16, 2008

PENSAMENTO DO DIA

"QUEM SÓ QUER PAZ E NÃO QUER GUERRA É UM FALSO E SÓ CRIA DESAVENÇAS POR ONDE ANDA.
QUERER GUERRA OU PAZ NÃO DETERMINA O ACONTECER DA GUERRA E OU DA PAZ."
Ronaldo Braga

Mosaico de Rancores: capítulo 16

Lá fora o sol secava as poças da última chuva. As tempestades passam, a calmaria chega, tarde, mas chega, no entanto, não são capazes de apagar os buracos deixados no asfalto. Um piche negro esconde meus olhos. Desviemos. Eu sorrio ainda, naquela foto de anos atrás, ao redor dos olhos, as rugas miravam minha tristeza. Olhos parados, sem expressão, olhos de pouco ver. Eles flertavam com a morte. Ela chega devagar, furtando um dia de cada vez, como esses amores brutais de subúrbio, os quais terminam manchando o chão e as páginas dos jornais. Aos domingos ela parece chegar manca, tenho a vaga impressão que não há mortos nem ternos de domingo. Filmes mudos atravessam minha retina. Ele me fita nesses instantes, nesses segundos singulares nos quais a vida se liquifaz entre nossos dedos. Negativos suspensos por toda a casa. A morte descansando sob nossos varais. Roupas sujas. Há sempre meias sujas escondidas no fundo de algum armário, no abismo covarde de algum baú. Os carros passam e a fumaça fica. Minhas narinas estão atravancadas. Não sei se é alergia ou desespero. Ou medo de inspirar todo o lodaçal que atravessa minha rua. Formas geométricas se avolumam na minha cabeça. A menor distância entre dois pontos é a reta. Rios verdes correm avessos a minha vontade. Queria que os ratos e as flores jamais se encontrassem.

Marcia Barbieri

terça-feira, novembro 11, 2008

Janis Joplin - kosmic Blues




toronto canadá 1970

Friedrich Nietzsche

"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o. "




Friedrich Nietzsche

sábado, novembro 08, 2008

raul seixas trem das sete

FASSBINDER NO ICBA. IMPERDIVEL




O Goethe-Institut Salvador-Bahia convida para a mostra de filmes:
Clássicos do Cinema Alemão – Parte 2
RAINER WERNER FASSBINDER

Período: 4/11 a 9/12/2008 (sempre às terças)
Local: Cine-Teatro do Goethe-Institut - Av. Sete de Setembro, 1809, Corredor da Vitória, Salvador-BA
Horário: 20:00
Informações: www.goethe.de/bahia

a escrita de diego pinheiro

OS OLHOS DA VERDADE

Falávamos de coisas muito corriqueiras, não nos engrandecia em nada conversar o que estávamos conversando, mas conversávamos. Uma vez ou outra as pessoas se permitiam um momento de felicidade eufórica.
Naquele dia eu tinha algo pra fazer e resolvi ficar compenetrado, é claro, da minha forma, tentando dissimular descaso e isso me fez andar um pouco mais a frente do grupo. O mesmo parou. Tinham encontrado um amigo, parece que era um amigo de uma das pessoas, tive noção do atraso e voltei.
Conversaram, se despediram, e foi aí que ela veio... Olhos marejados, sendo que um deles parecia estar “catarateado”, descabelada e é claro vestia-se muito mal. Era uma senhora, pelo menos aos nossos olhos, talvez as necessidades que passava a fizessem bem mais velha. Ela pediu dinheiro. Pediu lamentando como se esperasse que não conseguisse nada... Acho que fui até maldoso ao dizer-lhe que veria se eu tinha alguma coisa, quando eu não tinha. Um dos nossos amigos pegou a carteira timidamente, sem olhar para a senhora, mas fez um sinal expressando negatividade logo após uma outra pessoa do grupo ter dito algo pra ele, algo que era inaudível pra mim.
Ela tinha nos esclarecido que era pra comprar leite, leite para as crianças dela, e se algum de nós estava duvidando, que fosse comprar para ela, então. Eu ainda disse que não, que não precisava desse ato de incredulidade.
Ela se foi. Eu fiquei meio que indignado, talvez fosse essa palavra certa. Foi instantânea a minha falação: “Isso me deixa...” Não completei. Uma amiga minha tinha complementado com um “eu também”. Eu já não pensava “no algo” que eu tinha a fazer – cabe dizer aqui que eu penso demais, e essa questão me tirou do foco que eu tinha – e foi quando ouvi um comentário que me deixou mais indignado: “ Olha gente, não fique assim, não, porque ela sempre faz isso. Ó, ela mexe no olho pra forçar a lágrima a sair!” Uma outra pessoa, a qual tinha falado com o amigo que tinha tirado a carteira do bolso confirmou o comentário. A amiga que tinha dito o “eu também” esclareceu que um olho dela estava meio que doente, era o “catarateado”, então a primeira que nos esclareceu quem a senhora era disse que supostamente o olho dela estava assim pelo fato de tanto mexer no olho para que forçasse as lágrimas. Ainda brinquei dizendo que ela era uma boa atriz e tinha me convencido.
Parei e pensei, me controlei para que eu não pensasse alto. De fato, se eu precisasse de comida, tanto para mim quanto para os meu filhos, eu usaria desse tipo de convencimento, ou até mesmo se eu precisasse sustentar os meus vícios, independente do que sejam esses vícios.Parecia que nenhum de nós tinha ciência se ela era uma pessoa que tinha o propósito de pedir dinheiro para os filhos ou para qualquer outra coisa.
A verdade é que estamos sempre nos policiando, sempre na sombra, por isso não encarem esse texto como uma crítica aos meus amigos, mas uma crítica à sociedade que fizeram de nós pessoas desconfiadas e de escura compreensão.


Diego Pinheiro

quarta-feira, outubro 29, 2008

dormindo em cima da propria merda

Tem sido duro e dificil escrever pra mim nos ultimos dias, e essa dificuldade acaba por se tornar o meu assunto, expediente que já venho usando e abusando, revelando uma total falta de criatividade e até mesmo vindo ao encontro de afirmações maldosas contra a minha escrita.
Escrever como um ato de revelações de foro intimo há muito está totalmente fora de questão, por razões meramente geopolitica e ainda mais numa idade em que tudo começa a perder o colorido e ganha aquele tom acizentado, onde se impõe certezas de um "não é bem assim", por outro lado o escrever passa a ser ele mesmo o meu argumento e conteudo, permitindo um juizo de valor do proprio ato da escrita.
Pensar politicamente para mim já faz muito tempo se transformou ou em um ato de intolerancia aos poderes constituidos ou em um ato completamente incorreto, a vida cresceu e se tornou exigente, não mais suportando frases prontas ou posições onde nada mais que a torcida ou a fé prevaleça, a fé é um contorno de auto ajuda onde falta fé em si e sobra espertezas e golpes em todo o corpo da propria fé, uma liturgia do fracasso, onde o derrotado é louvado como um vencedor e pode então dormir em cima da propria merda.
Tem dias que as palavras só tem sentido fora da sua propria representação, como um oco que propaga seu proprio nada, e então é nestes solenes momentos que eu junto letras e formo dores, ou vazios, que ameaçam, que assustam mas que pode ser uma estrada torta e é nesse caminhar que minha alma melancolica estanca admirada pelo nada dos simbolos, por que eu os vejo, palavras e coisas, separadas e em linhas completamente adversas, já não mais existe o entendimento imediato do acordo e eu posso como um lunatico saber das mentiras das palavras e ver e ler sentimentos e intenções.
Escrever ainda é inutil, por que sempre foi inutil e essa inutilidade nutre e fortalece o meu existir. Desprovida de uma função socio religiosa, o escrever ganha uma dimensão magica e então morde seu proprio pé.
Palavras desfilam em memorias cheias e tumultuadas e eu sinto a necessidade de um esvaziamento, de uma direção e sei o quanto tolo é o sabio, esquecido em catalogar quantidades e sem tempo para o seu proprio devaneio.
Eu escrevo não o que sinto, antes escrevo sobre o que sinto do meu sentir e o meu corpo, não é um peso, mas sim um eu mesmo fisico, onde uma luta precisa ser travada e o conhecimento escolhido. Não há lugar no corpo para o sabio, para ser sabio é preciso primeiro assassinar o corpo e mergulhar na fé do ensinamento, do controle e acima de tudo do sofrer e do pior objetivo que pode existir numa pessoa: a capacidade de se acreditar portador de uma missão.
Eu escrevo para o corpo e para os sentidos vindo dos sentidos, eu sou um paradoxo. E o meu paradigma é a minha propria queda.


ronaldo braga

sábado, outubro 25, 2008

VIVA A MULTIPLICIDADE CULTURAL

Existem certas ideias que buscam fazer do mundo um lugar seguro de acordo e para seu proprio beneficio, e para isso acontecer buscam eliminar tudo o que for diferente, e então somente pessoas ou fatos que estejam afinados com os seus interesses, podem continuar vivendo.
A historia revela varios momentos ao longo do percusso da especie humana na terra, onde a intolerancia deu as cartas. Fui surpreendido hoje ao acessar este blog com mais um capitulo da intolerancia humana, uma pessoa que se identifica como Jovita Granze, fez um comentario em um texto intitulado de critica ao texto corruptos ,que é de arrepiar, leia o que ela escreve:


"Jovita Granze deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Critica ao texto CorruPTos":
Poxa,isso é foto q se coloque em blog??
Faça me o favor!!"

Não sei a que foto esta senhora se refere, mas tenho cereteza que seu comentário,
busca definir o meu blog pelo pensamento e pela ideologia dela.
Eu coloco a foto que eu achar que devo e ela pode criticar como queira, mas o que eu percebo é que ela não faz criticas mas antes define beleza ou feiura pela otica dela e ela só pode fazer isto nos lugares que ela decide, ela então que faça um blog e lá coloque as fotos que achar que deve.
Por trás desse pensamento da senhora Jovita esconde muitos dos pensamentos de hitler que definia o que os alemães deveria ter como padrão de beleza ou de qualquer outro padrão, enfim é um mundo de uma unica cor este mundo sombrio da senhora Jovita Hitler Granze É UM MUNDO QUE BUSCA IMPOR SEU MODO DE VER E PENSAR A VIDA.
Viva as diferenças, viva o respeito as culturas e acima de tudo, como muito bem disse heraclito:
O que é é, e o que não é tambem é.
Um abraço a senhora Jovita esperando que ela reveja essa maneira de ver o mundo, pois a aceitação do diferente é garantia da multiplicidade de pensamentos e da expressão artistica cultural.
O outro é a minha unica referencia.


ronaldo braga

para jovita granze

sábado, outubro 18, 2008

a escrita de marcia barbieri

18 de Outubro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 12

Caminho, caminhos entre flores, asfalto e pedras. Todos os lugares me parecem iguais. Caleidoscópios e escafandros. Sirenes, buzinas, gritos, gemidos, buracos, pequenos abismos escondidos no meio-fio. Grandes agonias nas bocas dos velhos, pretensões idiotas nos pés dos jovens. Pássaros tolos e sem asas. Os loucos vomitam margaridas. Nada diverso, nem fora, nem dentro de mim. Orgasmos nascem e morrem entre meus dedos. Na minha cabeça sempre as mesmas palavras, os mesmos gritos, os mesmos tiros, as mesmas canções, partidas e chegadas, cartas sem remetentes, cheiro de enxofre em xícara de café. Nunca vi o diabo, mas desde aquele maldito dia, os tiros, a minha irmã,o resto dela... posso sentir o seu cheiro, posso sentir seu tridente entre minhas costelas. Queria esquecer, não consigo, dez pancadas partem minha nuca. Entro na banca, peço o jornal, apesar de saber que as notícias de hoje são versões das de ontem. Gosto de fazer objetos com jornais. Objetos cinzas. Afinal, de nada servem os excessos de cores. Todos os retalhos desbotam com o tempo. O corte no meu dedo volta a sangrar, estanco com meia dúzia de palavras.Ultimamente é pra isso que me servem as palavras, pra estancar meu sangue pisado. O antigo rio verde brota do asfalto. Caleidoscópios, escafandros e náufragos submergem.


marcia barbieri

A POESIA DE LUCIANO FRAGA

Silêncio para um Blues

(Ao som de R. Johnson)


Certas noites,
meu orgulho agoniza
com ânsias emprestadas,
pesadelos de uma sexta-feira
fria e assombrosa.
Não tenho idéia
do anônimo porvir
preparado com o frescor
de ave com má vontade
que passeia em meu jardim
fantasiada de gazela.
Vulva de donzela insultada
sob um candeeiro aceso,
teimosia de guardião
que queima no fogo a lenha
e singra o passado
com borras de barcos roubados
debulhando miragens incertas
com alfinetadas raivosas...
Em meu crânio conturbado
imagens em preto e branco
contrastam com sonhos
em cores vivas
até cerzir toda carne
desta vida esmolambada...
Ah, se eu soubesse,
tocaria um blues enlutado...


LUCIANO FRAGA

terça-feira, outubro 14, 2008

a poesia de Glauber Albuquerque

Gosto dos que não temem a morte
ou a nudez.

Dos que sentem leve por não carregar o peso
que o tempo atrapalha.

Prefiro aqueles que bebem poesia sem saber se no próximo
gole corre o risco de ter devaneios
Vomitados num nojo de dor tristonha,
Porque estes sabem que no próximo gole
A poesia pode virar prosa.

Gosto desses que tem fome e sede.

Gosto dos palhaços e dos antropólogos,

Dos músicos e dos poetas e principalmente dos seres
que não cabem nessa redução de termos....


Glauber Albuquerque

mais janis joplin




Janis Joplin - kosmic Blues

a poesia de beatriz rodrigues

Palavra



Haviam poetas tortos

pequenos errantes

sem porvir

aqueles papéis esvoaçantes de

letras castas

sem ferir

interpérie espécie

viver à luz

de qual miséria?

Miséria é letra vazia

daquela de nada dizer

de um tal discurso

tocado ao vento

e que, sem perceber,

some.

Palavra é para ser respirada.



Beatriz Rodrigues [também conhecida como Bigatrice]

sábado, outubro 11, 2008

quinta-feira, outubro 09, 2008

http://pianistaboxeador21.blogspot.com/



a poesia de DANIEL LOPES

TER ESPERANÇA LEVA A TER DECEPÇÃO

Nós acreditamos na amizade e sabemos que a amizade entre as pessoas é fruto de um aprendizado, de uma longa caminhada dos seres humanos.
A PERDA DE UMA AMIZADE PODE APARENTEMENTE SER UMA TRAGÉDIA, Mas É APENAS UMA VITÓRIA, UMA PASSAGEM PARA NOVOS CONHECIMENTOS, uma amizade quando colocada em questão já inutil se revela para sonhos e apenas pode servir ao habitual e comum relacionamento de auxilio mutuo entre os não mais amigos.
Pra mim é sempre uma festa a perda de um amigo, pois o mesmo só ocorre quando aquele amigo se revela uma fraude, uma mentira e se mostra um ser vazio, sem decisão, a mercê de uma oportunidade para tentar pegar uma esmola ou um beijo de judas, revelando não uma contradição mais um paradoxo entre sua obra e seu comportamento de baixar a cabeça para algumas conduções sociais e politicas e se mistura com tudo aquilo que lutou contra a vida toda (ou então enganou muito bem), só com um unico objetivo:
olhar o seu proprio umbigo no pedestal do sucesso.
Amigo assim sempre foi inimigo e apenas fazia as contas e achava lucro ainda falar, conversar, MANTER AQUELE LAÇO DE AMIZADE e quando dentro da nova conveniencia ele se afasta do amigo na primeira oportunidade, mostrando aos seus iquais a prova de sua sujeição e ao outro que é uma verdadeira fraude.
Por essas e outras que eu sempre festejo a transformação em inimigo de um falso amigo.
Acaba fortalecendo os amigos, e principalmente aqueles que por ventura forem descaradamente caluniados por algum desses "amigo".

ronaldo braga

A POESIA DE DANIEL LOPES

TRÊS

Já aprendi a ir embora
O que não quer dizer que não doa
Eu empresto meus pés ao vidro
Eu empresto meus olhos aos punhos
Eu empresto meus dentes ao caos
Eu ofereço dez mil faces novas a dez mil mãos espalmadas
Não é por bondade
Nem é por maldade
É por ser gente

Há muito
Deixei de entoar cantigas de guerra
Mas invento novos impérios vermelhos
E crio línguas outras
E faço as religiões que me convém.

Não sei se é já esta a minha hora
Quem sabe?
Mas enquanto as borboletas,
De asas dadas, vêm trazendo a primavera
Deixo um conselho simples às lebres
- Não se metam com a fúria do Leão.


DANIEL LOPES.

segunda-feira, outubro 06, 2008

www.diversos-afins.blogspot.com

Caro leitor,


Mais uma vastidão de sentidos desponta na Vigésima Quinta Leva da Revista Cultural Diversos Afins. Reconheça, então, o que pertence a você por entre linhas e formas. Nossos destaques para:


- o humano em Paris no ensaio fotográfico de Ozias Filho

- as linhas intensas de Gerusa leal, Roberta Tostes e Daniela Mendes

- os sensíveis caminhos dos poetas Nicolau Saião, Débora Tavares, Jacob Goldberg, Alexandre Bonafim e Wesley Peres

- uma entrevista sonora com os músicos pernambucanos Piero Bianchi e Ricardo Chacon


Seja bem-vindo a estes e outros signos!


www.diversos-afins.blogspot.com

sábado, setembro 27, 2008

como fazer um politico




a preparação do defensor dos pobres

sexta-feira, setembro 26, 2008

a poesia de orlando pinho

consumidores atávicos abjetos ativos
estragam matam devoram qualquer coisa
que se mexe
aprisionam aliciam docilizam
todo corpo vivo
revolvem escavam reviram toda
espécie de brilho
mares rios florestas solos
mentes corpos construções espíritos
tudo depósito de lixo
não sobra sol pra coração nenhum
pulsar em paz
a não ser em estado omisso.


orlando pinho nasceu em santa barbara e mora em cachoeira ba

quinta-feira, setembro 25, 2008

interditado 9



com a poesia de
joão de moraes filho

domingo, setembro 21, 2008

NOVO BLOG

venha, leia e fale pra todo mundo

do blog

http://www.diariosdosonho.blogspot.com/

sexta-feira, setembro 19, 2008

a poesia

Na solidão
a poesia, mordendo
entre,
os sopros não compreendidos dos amantes,
é uma aparição desalmada e desesperada na alma,
desabrochando as tristezas aos borbotões.

No verão
a poesia nos convida,
em fluxos invernosos
a extrapolar serões e assassinar beijos.

A poesia então,
crua,
cresce
a desafiar o cantar surdo
de todos os lares.

E potente,
a poesia,
nos chama
a beber o veneno do silencio e
matar para sempre o amor.

No silencio do nada,
a poesia
expulsa para longe de si,
o gosto amargo da felicidade
e dorme o sono da flores,
ouvindo as canções soturnas e delicadas.

E lá fora um desalento, um insistir...

E lá fora um insistir, um desalento...

Ronaldo braga

interditado 8




Apoesia de
NUNO GONÇALVES

http://www.diariosdosonho.blogspot.com/

UM NOVO CONCEITO EM BLOG.

terça-feira, setembro 16, 2008

novo blog

Agora tenho um novo blog, um novo canto de sonhos.
Visite o

http://www.diariosdosonho.blogspot.com/

e
toda semana
nova postagem.

abraços
ronaldo braga

sábado, setembro 13, 2008



raul seixas em 1973

sábado, setembro 06, 2008

vaciando el costal

Qué día este!
tuve que estar tambaleando
con un pie en este mundo
y otro, quién sabe dónde
.
.
.

Qué instante este!
en honor a la verdad
me siento un poco abrumada.

Pregunto: ¿quién soy? frente al espejo,
y veo venir a una niñita
navegando su silencio color sepia.

El frío inverosímil sugiere chocolates, mimos y dulces.
Nada de timbres, de icebergs.
Nada, que reste
a este calor, que hemos logrado.

Qué momento sin ungüento!
quiero creer que el cuenco roto
aún puede regar.

GRACIELA MALAGRIDA

terça-feira, setembro 02, 2008

sábado, agosto 30, 2008

sexta-feira, agosto 29, 2008

quinta-feira, agosto 28, 2008

garrincha




esse é o verdadeiro rei do futebol

terça-feira, agosto 26, 2008

FALÁCIAS

Meras falácias, o despertar de um urso após longo período de hibernação. A fúria ensandecida ao perceber que o tempo não lhe esperou. Percepção de que o tempo passou e que as suas repostas podem ter sido em vão...

Este é o meu urso amado, tantas vezes subestimado pala sua não ação, tantas vezes colocado em um plano infinito, inatingível, pela sua ausência nos atos gestuais e construtivos da relação humana.

É este o amor que guardei para você, um amor sem fronteiras, sem eiras nem beiras... um amor bandido, que não se sustenta na própria razão de ser.

Li a primeira vez a sua declaração de amor em forma de contestação, quase um manifesto e confesso que voltei a ler um grande número de vezes. Relia enquanto buscava lhe identificar no meio de tanta mágoa, no meio da sua angústia, no fundo do seu desejo de saber se era amado.

Hoje falo de amor, do amor maior, do nosso amor que sinto escorrer pelos dedos... Sinto a urgência de retomá-lo antes que este se perca de vez. É chegada a hora de voltar a montar o cenário, colocar você em cena, com todos os refletores voltados para a sua alma...

É necessário e urgente que você se encontre, antes que eu o perca, antes que você me encontre. Desde já sabemos que não vamos morrer. Esta é a minha declaração da nossa imortalidade, do nosso amor transcendental, da sua luz, no palco, em cena e eu aplaudindo na forma gestual do encantamento dos amantes que perderam o seu grande amor.

Não me mate antes do final da cena, espero o grande final, da sua hibernação, do seu retorno à vida, do seu retorno ao ser, humano. Promete que não morre antes que eu te mate, tenho urgência de viver este amor...

Não envelheci o bastante para perder a razão, ainda me restam flashes de lucidez, especialmente nos momentos em que as lembranças invadem a minha mente.

Lembro de você menino, que não conheci, mas que construí a partir das facetas que definiram a sua estrutura de adulto. Confesso que sinto falta desta fase anterior, das descobertas e construção de valores, do momento em que eu deveria ter entrado na sua vida.

Acho até que entrei na sua vida pela porta errada, fato comprovado pelo encontro do labirinto em que adentrei e que ainda não consegui encontrar a saída. Isto não é relevante, o fato é que entrei na sua vida e lá estou lhe vendo se esvair... em pequenas gotas homeopáticas, em pequenos momentos intercalados entre a lucidez e a loucura.

Sei que a negação esconde toda a razão que você não quer assumir neste momento, naturalmente, por ser mais prático se colocar fora de cena, com pouca luz, retomando o velho processo da sua mudez. Isto me irrita e me angustia, uma vez que eu preciso que você fale... que você até grite, se for o caso, mas que apresente reações novas, onde eu possa analisar sob a ótica das patologias da paixão, identificando o seu amor expresso. Eu preciso de você, em cena, de forma espontânea, espantando os meus amantes infiéis e imaginários.

Não retomarei nenhuma cena dos amantes desesperados, eu nunca quis ser atriz e fui viver no palco. No palco das suas alucinações contemplativas, das suas montagens inacabadas, da sua direção que não me enquadrava.

Eu sempre reagi de forma lúdica, eu não viveria sem a certeza do seu amor, sem a ilusão da sua presença, sem a certeza de que eu não lhe mataria. Eu não lhe mato, porque sei da importância da sua existência, a quem me reporto nos momentos em que escrevo minhas cartas, com a certeza absoluta de que embora você negue, são absolutamente vitais para a sua pessoa.

Hoje tenho certeza que você sabe que eu sou a única pessoa que o mantém vivo. Sou eu quem lhe busca no fundo e lhe traz à tona. Sou eu quem lhe faz mergulhar de encontro a um tempo perdido. De encontro ao tempo em que o nosso amor nos bastava. Do tempo em o amor era o nosso pão e o nosso vinho, enquanto montávamos a lona do nosso circo de vida.

Eu lhe avisei que depois da eclípse lunar ela voltaria a falar de amor, tempo de revisão de processos....

Acredito que você se precipitou com suas respostas, ela o queria doce e você se apresentou em forma de fel... Aproveite o tempo em que ela dorme, reveja as suas posições e lute por aquilo que você acredita, ainda existe o tempo de toda esta noite, ela não despertará. A carta que ela lhe mandou a fez passar por um processo de elaboração muito exaustivo, a vi chorando por diversas vezes. Nem sei se deveria estar lhe falando estas coisas, mas confesso que, embora não lhe conheça, me afeiçoei a você, descobri que temos afinidades e que acredito na sua retomada...

Às vezes penso que você passa por algum processo de aconselhamento, tenho a nítida sensação de que você tem informação dos bastidores quando se coloca em cena. Não creio que possa ser mais uma das minhas alucinações, mas tenho a impressão que alguém me observa e que você obtém informações privilegiadas do meu dia a dia, que poderia ser nosso dia a dia, se você não morresse ainda.

Hoje lhe sinto mais presente, em fúria, aos berros, gritando tão alto que quase despertou o meu amor.

Maria Branco

18.07.08

sábado, agosto 16, 2008

o nada



mais uma produção GRUPON FILMES

sexta-feira, agosto 15, 2008

terça-feira, agosto 12, 2008

terça-feira, agosto 05, 2008

a poesia de fabricia miranda no interditado

www.diversos-afins.blogspot.com

Querido leitor,

Outros olhares encerram a mais nova jornada da Revista Cultural DIVERSOS AFINS. Somos Vigésima Terceira Leva com:

- Registros sensíveis das nuances humanas numa exposição do fotógrafo Paulo Lima.

- Poesia desengavetada do ser em Prisca Agustoni, Gustavo Felicíssimo, Maria Angélica, David Cortés e Denise Kasburg.

- Olhar e memória em foco numa entrevista com o fotojornalista Evandro Teixeira.

- Uma busca mítica do UNO através das linhas filosóficas do conto de Vicente Franz Cecim.

- O apuro musical de Esperanza Spalding e Zuco 103.


Esses e outros caminhos aguardam você em:


www.diversos-afins.blogspot.com

terça-feira, julho 29, 2008

segunda-feira, julho 28, 2008

interditado 2



na proxima segunda-feira no interditado 3
a poesia da poeta fabricia miranda. imperdível.

domingo, julho 27, 2008

Critica ao quadro DO ARTISTA PLÁSTICO nelson magalhães filho, SÉRIE DOS ANJOS BALDIOS 2008




O trabalho do artista plástico Nelson Magalhães Filho, nomeado por ele de série dos anjos baldios 2008, tem já em sua nomeação uma decisão estética, ato de um artista que não somente preza a técnica, mais maduro, pode compreender todo o valor de uma composição, uma vez que a intitulação nos leva para uma caminhada, uma serie começa, mas, quando termina? E o que busca? O que caminha? E pra onde caminha?
Tem a composição Nelsoniana já esta busca pela verdade, e não o encontrar de uma verdade, uma vez que são anjos, mas baldios que mesmo nos ignorando, dos seus olhos nos implora dor. Nos beijam com e na sua dor. Olhar o quadro da série é beijar a minha dor mais guardada.
O trabalho do artista plástico Nelson Magalhães Filho, intitulado de série dos anjos baldios, tem um estranhamento, que somente os grande artistas possuem, sua obra um corpo sagrado numa sinfonia de acalentos, onde um crime foi praticado, um crime perfeito, e a perfeição é que é o próprio crime, porque elimina a vida, e é contra essa perfeição que o mundo dos anjos baldios se volta, pois eles sabem que o crime é mostrar o real, e realizar o real, é fechar o viver nesse pretenso real, reduzindo a vida ao meu entendimento dela. Pra ser perfeito o crime tem que eliminar a perfeição, portanto não há crimes, há dor e sombras sofrendo por entre dedos e prosas em ninhos, onde é a vida que escondida repousa para sempre.
No quadro que agora eu olho, não vejo medo nos anjos baldios, mas gestuais míticos nos doando a vida como um presente e não como uma cobrança, é a vida que escapa dos quadros de Nelson para aquele que o olha de frente, é a vida que não existe em mim que me olha de lá me dizendo: veja o meu sangue, o meu sangue é derramado na vida, na caminhada, nos encontros, nos desencontros, e tudo isso é dentro, é a vida inteira dentro e você sabe que é a vida que lhe olha por que você não pode olhar a vida.
E todo esse diálogo, quadro versus platéia, assusta aquele que olha pela primeira vez uma obra deste artista. Nelson tem que ser digerido lentamente e sem medo de sentir medo, é a minha vida que treme dos quadros dele.
Toda a geografia desta obra nos remete em cada detalhe em direção a um mundo cru, estranho e único.
Eu não vejo mais a obra do autor, eu vejo a minha dor, a minha vida fora das telenovelas, fora da meta – narrativa. Aquilo que eu vejo, não é o que o artista pintou, o artista pintou meu intestino, meu coração pesado, e minhas lembranças-lambanças. Finalmente eu abro os olhos e tomo coragem: estou agora de frente para o quadro, que por sua vez não me olha, parece olhar para uma platéia maior, como um personagem trágico do teatro grego com suas mascaras, com suas dores e sua sofrida dignidade. O quadro me mostra duas figuras que se entrelaçam e pode parecer uma única pessoa, por outro lado nos trás uma imagem que tanto pode ser a figura do pai e do filho, como do opressor e oprimido, mas essas informações são primárias, elas não estão ali, é a minha limitação que dita a minha leitura, depois o quadro começa a falar, e meu corpo como o corpo da obra sente a presença de um algoz e vítima de si mesmo simultaneamente.
Faz-se importante salientar na série dos anjos baldios alguns pontos: primeiro que não encontramos ali a dor em demasia, a composição se completa em uma economia da dor, a obra tem na sua tragédia mais que um sofrimento e sim uma vontade de expressão que explode em um grandioso espetáculo trágico.
Também se faz importante destacar a produção do conhecimento, é o conhecer que a todo custo o quadro quer, insiste e perpassa toda a sua potência, potência de conhecimento, exalando no viver, o caminhar.
Para minha visão, se destaca entre cores fortes que mais parece meu grito, duas figuras humanas, uma de pé e outra ligeiramente à frente e com o pescoço contorcido para trás, parecendo protegido pela figura maior. Há duas informações se afirmando, uma figura parece segurar a outra com um braço que gigante desmorona uma possível cordialidade, mas também se revela uma mancha por trás deste braço ameaçador, um outro que se esconde insinuando uma possível inutilidade, e uma outra figura que olha sem linçença direto pra minha ausência.
Nelson não pinta aparências, e neste seu quadro não há pessoas, antes sombras que teimam em um não viver, é a denegação da vida em murmúrios doces, presentes em cada gestual da cor.
Sustentando um blues, Nelson nos acalenta com a firmeza da mãe que balança nos braços, cantando musicas de ninar pra dormir o filho morto, mas por outro lado, Nelson não busca a catarse, ele não aceita continuar embalando o filho morto, e essa imagem é superada no braço que inútil se esconde entre os corpos e no algoz que é vitima e na vitima que é algoz.
É no corpo que Nelson grava a sua história, e é no corpo daquele que ver o seu quadro que é definido no sofrimento uma meta, pois os olhos das sombras olham pra fora do quadro, olham pra frente e pra bem longe de ambos,eles olham a vida, e a vida ta lá fora é só lá fora que tudo ou nada pode acontecer, pois a vida não está no quadro, a vida pertence a quem olha o quadro, e é só lá fora que pode haver interesse no quadro, os personagens se tocam, mas se ignoram, não existe relação, há exclusivamente "um estar ali", "um não estar no mundo", e tanto pode ser uma brincadeira do meu próprio mundo, como uma lição tardia. Nada ta no quadro e sim tudo está fora dele. A vida esta fora dele, a morte está fora dele.
E inutilmente eu brigo com essa sombra o tempo todo a me não olhar, e perversamente sempre a me ver e insistentemente a me dizer: você não me olha, você olha você. É em você que reina tudo o que você pensa que vê aqui, é apenas você como realmente você é.
Venha, se olhe e viva.

Ronaldo braga

terça-feira, julho 22, 2008

Interditado 1




o blog do poeta luciano fraga
http://www.versos&perversos.blogspot.com

a poesia de charles bukowski

Poesia

é
preciso
muito

desespero

descontentamento

e

desilusão
para
escrever

alguns
bons poemas.

Não
é
para
todos

nem

escreve-los
ou
mesmo

lê-los.


ofereço este poema as medusas enviuvadas e seus porcos falantes.
o velho buk não perdoava.

sábado, julho 19, 2008

chavela vargas

En el último trago




ouvir e sentir a beleza de um canto com a alma.
e um pouco da sua vida.
Chavela Vargas
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Chavela Vargas

Concerto de Chavela Vargas em 2006, Madrid (Espanha)

Informação geral
País: México
Origem(ns): San Joaquín Flores (Costa Rica)
Gênero(s): música mexicana
Isabel Vargas Lizano, conhecida como Chavela Vargas, (San Joaquín de Flores, Costa Rica, 17 de abril de 1919) é uma cantora da tradição ranchera mexicana. Teve grande evidência nos anos 1950´s no México quando enamorou-se da artista plástica Frida Kahlo. Após uma carreira bem sucedida no gênero, e posterior decadência pela idade, foi redescoberta pelo cineasta Pedro Almodóvar, que resgatou seu talento agora em provecta idade, apresentando-a em seus filmes. Publicou sua autobiografia em 2002 em livro intitulado Y si quieres saber de mi pasado, onde revela suas predileções, inclusive adição ao alcool.

Atualmente vive na Espanha, recuperada socialmente e artisticamente.


[editar] Discografia
Piensa en mí, 1991
Boleros, 1991
Sentimiento de México (vol. 1), 1995
De México y del mundo, 1995
Le canta a México, 1995
Volver, volver, 1996
Dos, 1996
Grandes Momentos, 1996
Macorina, 1996
Colección de Oro, 1999
Con la rondalla del amor de Saltillo, 2000
Para perder la cabeza, 2000
Las 15 grandes de Chavela Vargas, 2000
Grandes éxitos, 2002
Para toda la vida, 2002
Discografía básica, 2002
Antología, 2004
Somos, 2004
En Carnegie Hall, 2004
La Llorona, 2004

o texto e a resposta

o texto




Você não fala e eu continuo te escutando.




O seu silêncio me instiga, me provoca verdadeiras alucinações contemplativas. Este é o ponto mais inerte em todo o processo: você não fala e eu continuo lhe escutando, ao meu modo, com o seu timbre de voz oculta, e com as palavras que eu coloco em suas falas. Isto é muito louco, é mesmo insano, pois se tenho todas as respostas, qual o motivo do questionamento?

Não falarei da minha, ou melhor, da nossa insanidade, acho que este fato já foi discutido e, sem dúvida, pouco tenho a acrescentar. Digo isto de forma conceitual, sob o ângulo das teorias psicológicas, afinal, todas as horas dedicadas ao estudo da sua forma de encadear os pensamentos, bem como, das suas ações, foram recompensadas de forma magnífica.

Hoje, mais que ontem, posso falar do que aprendi neste estudo milimétrico com o qual tracei o seu perfil. Foi assim que construí a nossa história de amor. Eu te amo hoje, ainda mias que ontem, e nem por isso posso deixar de matá-lo. Retomarei a minha vida tão logo estejam resolvidas estas banalidades de vida e morte.

Na verdade, venho lhe matando durante estes últimos doze anos, confirmando o início do período da eclipse lunar. E, de forma surpreendente você continua muito vivo. Tão vivo como o meu amor cigano. Você no alto da sua postura, tão belo, tão distante, de botas e insano.

Você invade o meu ser em todas as horas vagas, fico repleta do seu cheiro, impregnada das suas palavras, das frases construídas em versos, no tempo em que você falava.

Você falava e sua voz soava como um cântico barroco, com aquele sentimento de culpa egresso da religiosidade negada. Era você falando e eu pecando voluptuosamente, nos meus pensamentos ateus, em contraste com o seu lirismo barroco.

Confesso hoje que construí, sem culpas, um mundo de pecados onde você desfilava na minha frente enquanto eu lhe devorava com os olhos. Era um mundo mágico, onde nunca deixei que você adentrasse fisicamente. Você sempre foi desastrado, imagine se eu consentiria em você pisar, de botas, neste universo tão limpo, tão cheio de pecados, tão meu que não ousaria dividir com ninguém.

Construí muitas coisas nestes últimos anos. São mesmo tantas que já não cabem mais na caixinha de outrora. Tudo ficou imenso diante da minha pequena capacidade de armazenamento. Hoje preciso descartar os supérfluos, embora reconheça que tenho extrema dificuldade em classificar qualquer item como tal.

Você é o que sobra em mim, o que não mais cabe nos meus processos. Por isto resolvi matá-lo. Não se assuste ainda, isto é apenas o início das minhas decisões após o eclipse lunar.

Sinto que neste momento provoco a sua fala, você se revira tentando se colocar de forma imperativa, mas, penso eu, se não o fez até então, por que faria agora?

Neste ato percebe-se que ela finalmente se revela, é a mais pura declaração de amor, construída sob a imobilidade oral da outra parte. Ato de egoísmo, melhor dizendo, de domínio extremo. Ela rouba a cena e dança, vestida com o traje cigano exalando a cor vermelha. Você continua perdido, minimizado, inerte, contido na sua própria nudez, embora calçado com as velhas botas.

Eu venho tentando abrir as portas e janelas, provoco a sua fuga, mas você continua imóvel. Eu cresço enquanto danço e você se esvai na sua mudez.

Este ato deve continuar por mais duas noites, é dado como certo a próxima eclipse lunar, quando ela, exaurida, se permite alguns momentos de reflexão, o que possibilita uma previsível revisão dos processos.

Confesso que ainda não estou preparada para o fatídico descarte, ainda mais com você agarrado à ponta do meu vestido. Você tenta se segurar e mais um elo se rompe. Você, ainda num ato de desespero, tenta tirar o meu sapato e eu piso ruidosamente em sua mão.

Este instante mágico deste último contato, mesclado de dor, resume toda a busca deste tempo que passei, ao seu lado, sozinha como nunca havia sentido antes, até o dia em que fugi de casa.

Maria Branco
02/07/2008



a resposta


São minhas as botas velhas


A sua loquacidade desarticula minha alma, me faz ver a toda hora o desespero em cotas reguladas e despachadas de acordo com o seu próprio interesse e medida, pois exatamente, este nunca foi o ponto inerte em nenhum processo, você não me ouve, e o tempo todo fala por mim, e claro que você sempre teve pronta e arrumada, todas as respostas, e não é só por demência, fuga ou razões familiares, mas sim, por sua incapacidade para a vida.
O tempo todo você quis tudo muito limpo, brilhante e qualquer barulho ou mesmo tentativa de mudança, era pra você um ato reacionário ou anarquista, você nunca trabalhou bem os conceitos.
Portanto não me venha com essa de sua ou minha insanidade, é você a paciente, é você que vive a maior parte do dia a ver demônios em meus sorrisos e cobras em todas as coisas verdes. E eu sei de seu fanatismo recorrente, eu sei sim que você passa seu dia a estudar as minha não falas, o meu não pensamento, a interpretar todos os meus gestos a partir da premissa da minha não realização, e também sei de seu livro, e sua formidável teoria sobre a minha possível não existência. É essa a sua recompensa: este seu livro?
Qual meu novo perfil? O que a senhora no passado arranjou pra mim? Ou aquele que você inventava quando falava em novos tempos. Querida, os tempos não mudaram nem hoje e nem ontem, mas eternamente meu perfil foi mudado a cada atrocidade que a senhora achava mais adequado para fixar à minha estrada, e foi assim que você destruiu não o nosso amor, mas a possibilidade de você poder receber carinho e atenção, uma vez que esse seu ódio, vem separando você, de você mesma.
O seu espelho sempre virou a cara para não lhe olhar de frente, e não deu bola a suas ameaças, por que, além de repetições, são apenas novas preocupações para a família. Saiba que sua vida é uma verdadeira atrocidade para todos os que transitam sua órbita. Mate-me e eu serei feliz.
Sua mania de assassina e de traição continua mesmo depois do tratamento, outros se sentem traídos, mas você gosta de falar, gritar e anunciar amantes e luxúrias, que todos sabem inexistentes, mas você sabe que não pode amar e nem ser amada, pois seu modo de ser impede qualquer tipo de relação amistosa, você foi feita para o sofrimento e para fazer os outros sofrerem.
No passado já sofri com suas “traições”, eu lembro muito bem de suas noites e noites em completo devaneio, onde você se dizia grávida, e de um porco falante e obsceno, além de buscar imaginários parceiros em meus amigos ou até mesmo em um possível irmão, meu ou seu.
Hoje meu amor nada disso me comove e seria antes uma agradável surpresa se de repente eu soubesse que você de verdade tem um amante ou um simples amigo. Essa sorte eu não tenho.
Seu ser é invadido sim, não por minha pessoa, mas por urtigas e escorpiões, uma vez que você, mesmo não sabendo, é uma cabra voadora que perdeu as patas e agora rasteja em meu mundo pequeno, pesando para sempre as minhas velhas botas.
Eu não falo com a senhora e já faz dez anos que não lhe dirijo a palavra, venho lhe ouvindo por educação e por covardia, nisso concordo com você, sou mesmo um covarde. E quanto ao barroco, o que lhe sobra são as dobras, todas redobradas e multiplicadas por você mesma.
Sua mente suja, sempre me incomodou, com seus pecados impronunciáveis e rastejantes, e ainda me incomoda, pois sinto o seu passado e pior, como se fosse hoje. Lembra? Todo entardecer, você orava diabos em hebraico enquanto me acusava de esconder as montanhas sagradas, e em sua fantasia débil você declarava a impossibilidade de me amar, só por que você me amava demais.
Na verdade você é a única coisa a sobrar em você mesma, você é obscena, fora da cena e eu espero ansiosamente por esta morte e nada de você fará com que eu volte a lhe falar. Agora quanto aos seus secretos encontros comigo, pelo que eu sei sempre aconteceu sem a minha presença, lembra? Suas conversas longas comigo ausente resultaram em ótimas lembranças para você e como você mesma disse, a minha ausência permitia a você ouvir de mim as falas adequadas e bem estudadas, que serviam perfeitamente ao seu plano infalível de provar que me amava.
Eu sei que agora, a sua nova loucura consiste em se ver exatamente como outra pessoa, e você descreve, o que pra você deveria ser a minha vida e não a sua. Ora minha cara e muito cara amiga, o seu vestido vermelho nunca foi vermelho e muito menos vestido, são as minhas botas velhas que você empunha e empunhou anos a fio como uma arma.
Eu venho tentando manter fechadas as portas e as janelas, para evitar não a sua fuga, isso é impossível em seu estado, mas a piora do seu precário sistema respiratório em meio a este inverno rigoroso, todos temem a sua morte.
Agora vendo você aí sentada, em sua cama, eu lhe olho e percebo de qual fuga você está se referindo, a fuga de sua própria vida, de seu próprio instante, e saiba que a senhora calçou soluços e dores e vestiu tolamente passados vermelhos e hoje caminha numa solidão de horrores, onde velhas desdentadas cantam e choram seu destino.
Confesso também que ainda não estou preparado para o fatídico descarte, ainda mais com você agarrada à ponta do meu sapato, seja velho ou novo e tentando se manter doente e segurar um elo que há muito se rompeu e o mais desastroso é esse seu ato desesperado e inútil em insistir tirar os seus sapatos, quando há muito você perdeu suas pernas, e junto com elas foram os pés. Então é neste momento que eu ruidosamente choro em meu silencio. Este instante não mágico deste maldito e constante contato, mesclado de dor, resume toda a sua busca pelo inaudito tempo que passei ao seu lado, sozinho como nunca havia sido antes, até o dia em que você morrer.


Ronaldo braga

quinta-feira, julho 17, 2008

TVCULT71

Soy un cerdo obsceno

Luces congelan carreteras embalsamadas
en las memorias tristes de niñas muertas
y él
poeta avestruz en fiestas de comadres
llora
calumniado,
de verdades agudas.

Instintivamente rechazo
los cerdos charlatanes de medusas viudas
y no lloro
en la noche carente de especulaciones.

Pero no voy
a casas donde la falta de luz congela
la sonrisa de cada poeta.

Y en las horas amargas
hago crecer en mí un asesino
Y me descubro
El único cerdo obsceno,
Pues sé que las luces cansadas
no cansan
la cara de los sin cara.


poesia de ronaldo braga
tradução para o espanhol de
GRACIELA MALAGRIDA
www.gracielamalagrida.com
uni-verso virtual
http://www.uni-versovirtual.blogspot.com

segunda-feira, julho 14, 2008

sábado, julho 12, 2008

SEU VESTIDO VERMELHO NÃO MOLHA MAIS O MEU CORAÇÃO

Usar as minhas botas velhas?
Você?
Eu não estou surpreso pela linha de raciocínio que você se me entrega, eu sei que sempre foi assim em suas intermináveis conversas, tudo começava com uma calça ou mesmo uma camisa e até uma meia, e aquele cueca era típica de homens menores ou você descobria de repente que aquela minha bermuda predileta não era roupa de uma pessoa de bem e que as mentes vazias, não possuem uma classe pra se vestir, e depois de soltar todos os seus fracassos em minhas roupas, a senhora continuava a falar, falar e falar.
A senhora nunca mudou, toda sua festa resume-se em anunciar ao mundo, a descoberta da existência de um lado escuro em mim, como você me dizia, antes de recusar o almoço.
Mas na verdade depois dessas aparências, a real intenção surge em seu horizonte: viver pra me difamar.
Mas como diz o seu texto, as minhas botas velhas, desnudam, não um andarilho, antes, um corredor, uma pessoa que buscou o tempo todo fugir das desilusões dos cosmopolitas do terceiro mundo e que não teve medo de silenciar diante da pequenez dos que se acharam gigantes.
Sim é bom você reconhecer, eu vivi esse tempo todo embrutecido pelo caldo vicioso de suas veias e ainda cuidando de suas banalidades, e mesmo sabendo de seu estado doentio, eu tudo fiz pra lhe manter digna, ignorando conselhos até mesmo de sua família.
Outra vez surpreso, não sei a que chama você se refere.
Na verdade, a senhora nunca teve paciência com nada além dos elogios à sua beleza ou aos seus belos vestidos e acessórios, você sempre foi fútil, exatamente isso: superficial.
Racional?
Você?
Delirando como sempre, toda vez que você faz alguma feitiçaria você se autodenomina de racional, e de amante. Saiba que seu amor impossível é realmente totalmente impossível, uma vez que amor em sua pessoa é um engodo, ou uma brincadeira de terror, só a senhora é que não sabe disso e continua a cantar o amor como tempestade, e depois cansada, deprava o mundo com suas lamentações reativas.
As nossas conversas sempre foram as ultimas e não há nada nelas que mereça ser recordada. È essa sua mania por símbolos, eu já lhe informei que novos encontros se tornaram improváveis, não por seu vestido vermelho, ou mesmo pelos seus sapatos azuis, não, mas sim pelas fechaduras de sobrepor dos pobres, com seus cuidados para entrarem em suas casas e não ferirem o ombro. Você sabe que sou sentimental e que a presença de um pobre me faz chorar e lembrar, até hoje não sei por que, das fechaduras de sobrepor.
Você pensa que eu me importo com suas bebedeiras ou danças ou orgias, o meu pequeno mundinho conhece a verdade dos seus sonhos, toda a sua fantasia se reduz em me destruir, em repetir sua canção de morte por toda a minha beleza, que você não limitou em diminuir, e agora pretende fazer crer que nunca houve.
Eu sempre soube da sua busca incansável ao meu outro lado e dos seus rompantes como esse de me perguntar se é repetitiva? A sua musica sempre foi de uma nota só.
Eu estou no único lugar pra onde você nunca olha: dentro de você, e seu vestido vermelho apenas é a sua esperança de me afastar pra sempre, de me fazer ir, sair de você e finalmente você poder me encontrar lá dentro de sua guerra suja, indolor, inocente e silenciosa.
Há dias que acordo e vejo sua sombra encardindo meu sorriso e sei então de suas dobras e espero o vir a ser de suas dores, com a certeza dos cortes resistentes das minhas memórias.
Nada espero senão encontrar-te em tua ausência.

ronaldo braga
patrocinio
BAHIA TERRA DE OS NÓS
E NÃO FAZ CULTURA

quinta-feira, julho 10, 2008

A MUSICA DE GERVASIO MALAGRIDA " FUERA DE LUGAR"




A bela musica do argentino Gervasio malagrida.
outras musicas serão postadas mais adiante.

SOU UM PORCO OBSCENO

Sou um porco obsceno.


Luzes congelam estradas embalsamadas
nas memórias tristes das meninas mortas
e o
poeta avestruz nos festins das comadres
chora
caluniado,
por verdades agudas.

E instintivamente eu recuso
os porcos falantes das medusas enviuvadas
e não choro
nas noites das especulações carentes.

Mas fujo
das casas tristes onde a falta de luz congela
cada sorrir dos poetas.

E nas horas amargas
faço crescer em mim o assassino
E me descubro
O único porco obsceno,
Pois eu sei as luzes cansadas
não cansam
a cara dos sem cara.


ronaldo braga


poesia resposta
ofereço esta poesia à poesia de nelsom magalhães filho,
publicada no www.anjobaldio.blogspot.com/

terça-feira, julho 08, 2008

Graciela Malagrida no clarin

A escritora e poeta Graciela Malagrida agora tem o seu blog
www.uni-versovirtual.blogspot.com
no clarim.com
veiculo informativo na internet do jornal o clarim de Buenos Aires Argentina
parabens
Grace.




La elfa del golf


Por lo menos 1 vez por semana me toca seguir de cerca los pasos de Alejandro. Así cargo agua en el termo, yerba, yuyos, repasador...y en la cartera van los infaltables anteojos de sol y los libros. En




clarin.com 06 Jul 2008
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sábado, junho 28, 2008

a poesia de Graciela Malagrida

Epitáfio del renuevo

Te dedico la aurora
el color de los pétalos
el perfume que expelen
los jardines
en las noches


Te dedico el aleteo
de los bichos insomnes
y la sed de los ojos
que advierten el rocío
o cada gota nimia


Te dedico madrigales
en la pausa del júbilo
e el desenfado de la luz
que acaricia las sienes
del crepúsculo


GRACIELA MALAGRIDA
Epitáfio del Renuevo
TRADUÇÃO DE ronaldo braga

Te dedico a aurora
as côres das pétalas
o perfume que explode
dos jardins
nas noites


Te dedico o esvoaçar
dos bichos insones
e a sede dos olhos
que encontram
o orvalho
e cada gota minima


Te dedico sonhos musicais
na pausa do jubilo
e na distração da luz
que beija as temporas
do crespúsculo.

GRACIELA MALAGRIDA
tradução
ronaldo braga

quarta-feira, junho 18, 2008

São suas as botas velhas.

Não suportaria usar as suas botas, acho que seria quase o mesmo que trilhar os seus caminhos.
Acredito que estas velhas botas registram os tempos mais remotos de um andarilho urbano, sempre urbano, embora não seja cosmopolita. O seu mundinho é tão resumido que quase chega a fechar-se em um círculo com raio igual a sua própria altura.
Voce viveu esismemado todos estes anos, cuidando das banalidades absurdas, das composições incabadas, das chamas que se apagavam a todo instante. Tenho que ser justa: se ainda mantemos esta chama acessa, com certeza, isto é mérito seu, eu não teria me empenhado tanto.
Eu nunca tive muita paciência para coisas pequenas, miscelâneas, miudezas: acho mesmo que são inversamente proporcionais ao grau de aborrecimento que proporcionam ao incauto que se presta a lhes direcionar alguma atenção...
Voce deve, mais uma vez, estar criticando este meu lado racional, matemático, no entanto, devo confessar: é nesta racionalidade que expresso todo o meu amor. Falo do amor impossível, aquele que extrapola os limites da razão, da racionalidade...
Falo ainda da nossa última conversa, ou melhor, do meu monólogo, pois, se não me engano, você não só não compareceu ao nosso encontro, como também, não apresentou qualquer justificativa.
Desde então, rodei três noites sem parar, em minha própria casa, ironicamente, o nosso ninho cigano...
Você morreria e tenho certeza que o seu instinto de sobrevivência, mais uma vez, manteve este fio de vida, este trapo de acontecimentos em forma humana...
Eu sei por que voce não veio, sei que estou a dez quadras da sua altura... estou também, a mil anos do seu tempo presente e, muito provavelmente, muito arraigada a sua forma passada...
Mas, ainda assim, não tirei o vestido vermelho... era o meu ódio expresso em forma de amor... era um desafio: voce não entendeu, como sempre, mas eu mantive minha postura cigana... dancei a noite inteira ao redor da fogueira, a mesma que voce manteve acessa todos este anos...
Cinco vezes bebi, sete vezes senti cambalear, mas não caí, posso jurar, embora não tenha testemunhas. Eu digo e assumo, eu não caí e dancei como nunca...
Não rejeito as suas botas, nem o seu mundinho... simplesmente não acredito nesta limitação que voce me apresenta, sei que é falsa....
Sei que voce não pode acessar os meus pensamentos, voce é limitado, mas eu penso em voce...
Eu penso em voce dormindo, chorando, na chuva, correndo e sempre de botas, sempre em círculo, com o mesmo raio.
Eu busco voce na rua, na terra, na praia, no muro infinito que edifiquei para te deixar do outro lado... é o meu “Muro de Berlim” que ainda não caiu...
É a minha guerra, que não tem nada de “fria”....
Eu tenho os pés pequenos, proporcionais à minha estatura, e, claro, suas botas são imensas, têm o tamanho suficiente para me manter afastada da sua jornada diária, repetitiva, única e incoerente.

Maria Branco
16.06.08

segunda-feira, junho 09, 2008

The stupidity of dignity ( a estupidez da dignidade)

Texto de Steven Pinker
publicado no Ney Republic
Traduzido por Marcelo Leite


Isso explica por que a dignidade é moralmente significativa: não deveríamos ignorar um fenômeno que faz uma pessoa respeitar os direitos e interesses de outra. Mas isso também explica por que a dignidade é relativa, fungível [que se consome no ato] e amiúde danosa. A dignidade é superficial: é o chiar da grelha, e não o filé grelhado; a capa, e não o livro. No final, o que interessa é o respeito pela pessoa, não os sinais perceptivos que tipicamente o desencadeiam. Com efeito, o fosso entre percepção e realidade nos torna vulneráveis a ilusões de dignidade. Podemos nos impressionar com os sinais de dignidade sem mérito subjacente, como no ditador de meia-tigela, e deixar de reconhecer o mérito numa pessoa que tenha sido destituída dos sinais de dignidade, como o miserável ou o refugiado.

Steven Pinker

CORDEIROS

Entrei em rota de colisão
com minha memória
de verme.
Ela,
gera em mim
mundos
que não passam
da primeira camada
periférica,
limitada
de minha epiderme.
Espero um alinhamento
dos astros,
um eclipse,
algo que transforme
o meu juízo
que não tem sido
um bom juiz.
Apenas uma lei
invisível
a nos separar...
Não vou caminhar
sobre minhas apagadas
brasas,
e deixar pegadas
serpenteadas
como fazem os vermes
antes do juízo final,
eis o mistério
porque não creio...

LUCIANO FRAGA

domingo, junho 08, 2008

VIGÉSIMA LEVA revista cultural DIVERSOS AFINS

Querido leitor,


A Vigésima Primeira Leva da Revista Cultural DIVERSOS AFINS confirma quão válido é o caminhar pelas palavras e imagens. Nossos espaços abrigam, dentre outras expressões:

- A viagem ao Belo pelas telas do artista plástico paulista Canato.

- Uma conversa com o escritor Moacyr Scliar.

- Trilhas sensíveis da poesia em Carlos Trigueiro, Jorge Vicente, Sandro Ornellas, Mônica Montone, Antonio Naud Junior e Floriano Martins.

- Uma carta à Clarice Lispector nas linhas confessionais de Luciano Bonfim.


www.diversos-afins.blogspot.com


Sua visita é uma honra para nós!

quinta-feira, junho 05, 2008

Este blog merece uma olhada

http://fucsiahq.blogspot.com/

olhe e comente.

quarta-feira, maio 28, 2008

a espera nunca mais

Depois de um dia intenso, onde os pensamentos pareciam transitar de forma harmoniosa com a celeridade dos acontecimentos, ela decidiu parar para ordenar todo o caos produzido, e percebeu que muito tempo tinha se passado desde a primeira vez que tudo acontecera e que inevitavelmente agora era realmente a hora de não somente uma reavaliação como até mesmo de uma modificação na sua forma de enfrentar a vida.

Não tinha pressa, o próprio tempo agora seria o seu maior aliado, afinal, decisões deste porte exigem um maior grau de dedicação, mesmo que seja simultâneo a tantos outros desejos, ou mesmo necessidades, e tempo era mesmo o que ela tinha mais e até mesmo todo aquele medo antigo de enfrentar situações, era agora coisa do passado, ela sabia e sabia isso lá bem no seu intimo.

Era chegada a hora de rever as fotos, em rápidos flashes de memória, era o passado assumindo o seu lugar no presente, tantas vezes delegado a um futuro próximo. Era assim que havia sido tantas vezes planejado este encontro, tantas vezes sonhado, que, finalmente tomando forma, não representava nenhuma surpresa, talvez algumas vezes, ela teve justamente o medo da não surpresa, ou mesmo de uma grande decepção, mas hoje ela decidida passava por sua memória fotos que antes era para ela assustadoras e até mesmo deprimentes.

O passado que esquecido reinava nas dores infernais de sua cabeça, era agora aliviado e já não ameaçava mais o futuro e ela pode não somente rever aquelas fotos como até mesmo reconstituir em sua mente toda a historia que envolvia aquele acontecimento e até mesmo voltar a sorrir que para ela era uma novidade.

Talvez fosse importante relatar os últimos fatos que a levara a este ponto específico, entretanto, não seria de bom tom adiar toda a produção do cenário proposto, e adiar era o que ela mais fazia neste mundo, era o momento de mudanças radicais, e para ter sucesso em relatar tais fatos, tidos por ele como importante, e que segundo ele fatalmente a mudou para sempre, ela sabia antes de mais nada, que deveria falar tudo de prontidão, e depois, só depois ouviria as mentiras dele, pensou também que deveria continuar firme na sua decisão, e manter a sua proposta sem alteração e para começar precisava se mostrar forte diante dele, e superar as suas próprias fraquezas. Muito foi dito e desdito, e ela tinha tomado a decisão de até mesmo ser cruel se necessário e essa decisão seria cumprida.

São poucas as luzes que se encontram no ambiente, as velas acessas criam um tom de romantismo cigano, dramático, onde a carga emocional está expressa em cada gesto, em cada olhar e, sobretudo, em cada uma das mãos tantas vezes elogiadas pelo seu par imaginário neste ato dramático. Novamente a meia luz a enfeitiçava, velas acesas em suas entranhas, uma sensação de semi-sono, mas uma inesperada vontade de estar ali com ele, a deixa triste e ao mesmo tempo sorridente, devo está enlouquecendo pensou enquanto mantinha seu par invisível sorrindo, é difícil a cura de uma paixão doentia e mais ainda quando fatos tão horrorosos como os que aconteceram com ela são registrados.
São estas mãos em movimento que buscam calar as vozes desnecessárias, uma vez que, qualquer palavra pode desencadear um novo motivo para fugir do gestual proposto. Portanto, é neste clima de silêncio absoluto, que ela pensou ser o momento de expressar todas as suas emoções contidas e abandonar de vez aquela sua atitude de medo, ela sempre ouviu desde criança, que deveria se soltar falar o que pensa, mas sempre foi reservada e ficava em silencio mesmo quando toda ela queria gritar.

Que não lhe sobre tempo para analisar toda a carga emotiva, o racionalismo não é bem vindo neste momento. Que os teus sentidos possam estar por demais apurados, uma vez que eles serão as únicas alternativas em termos de armas. É hora de iniciar o jogo e posso avisar que ela não parece estar blefando. Posso afirmar ainda que ela não somente começa a renascer, como também um ódio gigante toma conta dela, o que devo dizer a você, é de bom tom que que você pise macio neste encontro e também que tenha muito cuidado com as palavras.

As velas, o fogo, a pouca luz ambiente e agora já se tem a música cigana, é esta a produção que ela preparou com tanto esmero. Você ainda se lembra do vestido vermelho que foi usado por ela no dia do seu casamento? Claro que não, como poderia exigir tamanha façanha de uma mente meramente masculina? Não importa as suas lembranças, o passado vai chegar até você em forma de presente, é como um presente que ela se preparou para você. E você deve saber como ela fica quando lembra de seus esquecimentos, hoje ela quer vingança e será vestida de noiva que ela verá todo ato se desenrolar, melhor ainda vestida de noiva abandonada não no altar, mais na vida, você se lembra?

Você pode estar se perguntando: velas, música cigana, vestido vermelho, onde ela está querendo chegar? Pelo meu entendimento, aqui de fora da cena, percebo que não existe uma intenção clara de confundir, muito pelo contrário, ela acredita que recriando estas cenas estaria propiciando a retomada das emoções contidas ao longo destes amargos 12 anos, e evitando que comentários maldosos tipo: como foi tudo maravilho com vocês esses anos, ela parece determinada a contar detalhes da relação para todos os convidados e devo lhe avisar que ela escolheu alguns que podem manchar sua reputação. Portanto eu lhe peço não vá a este encontro.

Eu sei que o senhor é poderoso, mas eu lhe garanto você não ficará imune aos sentimentos propostos. Este trabalho de imersão certamente o transportará ao plano requerido, e, com este vestido vermelho, sem uma única palavra, ela tentará passar para você cada lágrima que emergiu naquele rosto com pouca maquiagem, naquele jeito discreto e contido, que ela se apresentou na cerimônia do seu casamento, é bom nem lembrar o que Aconteceu logo depois na lua de mel, o que eu sei é que ela lembra muito do ambiente, diz que havia muitas flores e pouca alegria, muita gente e pouca emoção, havia de tudo um pouco do que todos expressavam, só faltava a expressão do mais puro sentimento que se encontrava guardado a sete chaves na alma encoberta pelo vestido vermelho e que nesta nova celebração tudo seria diferente, teria muita emoção e pouca gente e até mesmo o seu vestido vermelho poderia ser esquecido, mas ela garante que haverá sangue.

Ela não tinha dúvidas quanto a sua presença neste ato que havia convocado, era muito claro que você viria. Embora completamente assustado, desnorteado, fragilizado, seria incapaz de recusar este tão esperado convite. E pior para você se acreditar em seu charme, se acreditar que o seu sorriso ainda a deixa desnorteada, pois ela está decidida a ser com você o que ela acredita que você foi pra ela.

Volto a lhe recomendar cuidado, não leve nem flores e nem bombons, leve desculpas e diga logo antes dela mesmo falar, amor me desculpe eu destruí sua vida. É melhor para acalmá-la e não pense que sendo duro você tem uma melhor sorte, saiba todos sempre admiraram a sua determinação, menos ela. Não que duvidasse das suas intenções, acredito que o que não a convencia era a certeza da sua felicidade. Isto certamente ela nunca se perdoaria, afinal, sabia o quanto era responsável pela sua decisão alucinada.

Ela sabia que perdera a linha da negociação no momento em que assumiu que você não teria a força suficiente para domá-la, no bom sentido, é claro, e quando criança ela imaginava sendo capturada por um homem alto e forte e a decepção foi imensa. Primeiro a sua total falta de romantismo e ainda pior, a falta de preliminares (e neste momento ela olha o vazio), e consequentemente o sofrimento diário dela durante a existência desse maldito casamento. Eu sei que vocês já falaram sobre isso, tantas foram as vezes que até dói lembrar e ela me disse que você nunca a perdoou e portanto sempre a tratou com um certo ar de superioridade.

Francamente já não é um pouco tarde pra me dizer que você nunca se perdoou por este ato de fraqueza, e, até onde sei, ela não tem nenhuma intenção de aliviar estes seus sentimentos de angústia. Ela sempre foi o lado forte desta comunhão e não a vejo com outra idéia a não ser de se manter calada diante de você, não por medo mais sim por nojo.

texto escrito por Maria branco
e
ronaldo braga