terça-feira, dezembro 04, 2007

o nada repleto de nadas

O nada repleto de nadas.

Eu sou um cara que passa por aí, invisível e impermeável. Eu passo e ao meu redor pessoas são estranhas e nada se parecem comigo, e eu sempre penso: E por que não  deveria ser assim?  Existe uma outra realidade paralela a realidade existente? Ou algumas pessoas chamam fugas de utopias e se deturpam no engôdo intelectual e depois choram no travesseiro, no escurinho do silêncio solitário e mórbido.
Eu busco o prazer, sim, eu busco o prazer sempre, mas como saber encontra-lo? O que é mesmo o prazer? Ou qual prazer se quer, ao se procurar o prazer? E é mesmo prazer o prazer encontrado? Com a vida eu vou firme rumo ao infinito e pago pra isso: não guardo remorsos nem sentimentos, apenas trabalho o corpo e alimento minha alma em gozos livres. Não me interessa a busca da felicidade, percebo os acontecimentos soltos, sem desencadeamentos, apenas fatos isolados construindo uma rede por uma fatalidade da própria existência da vida.
Eu sou um cara que passa por aí e sabe que é preciso reinventar estruturas, não confundir  mundos e que isso só é possível com pessoas que aceite este mundo como um único mundo, onde reina os encontros e os desencontros , é, desencontros, só assim pode ser, é o desencontro uma imposição saudável, vital.
Eu sou um cara em busca de pessoas estranhas, tristes e taciturnas, bom, devo repetir: triste. Mas é bom salientar, triste mas não derrotadas, eu sou um cara que não gosta de derrotados.
E às vezes, é lá nos escombros da minha memória, que eu encontro o caminho para as minhas trânsfugas em um contínuo corte do passado, em um confuso e constante estado latente com a dor, com o prazer, e a sonolência, pois afinal é na indiferença e no sofrimento, que eu encontro força, não como algo que eu conquiste, ganhe por ser bondoso, mas algo que está lá na vida, e é a vida.
Eu sou um cara que olha o passado sempre em imagens surrealistas, e esse fantástico recorte do meu passado, numa estrutura nova, é um sistema apodrecendo o sistema do meu dia a dia, pois o dia a dia tem que ser real e lógico, o sistema é fácil e todos podem compreender, mas eu não entendo essas coisas simples, eu não as entendo, pois eu sei, eu sei da dor nos sorrisos cínicos, eles sempre estão depositando no amanhã toda a sua fortuna, e eu sou um cara que sei que o devir não é o sucesso garantido, e eu só posso dar um sorriso amarelo e chama-los de tolos, eu sou um cara que olha por cima.
É eu sei que existe uma calada realidade, uma calada limitação, uma litúrgica e fúnebre morte imanente  em cada ser, e que cresce com ele e desaparece com ele e mais ainda, existe também,  como uma praga negando a minha impermeabilidade, em algum lugar da minha vida, como uma covardia, alguma esperança, que me mata lentamente.
E eu sou um cara que sei do meu devir: o nada. 
O nada restaurado e em sua plenitude, um nada repleto de uma longa vida depois de uma mais longa não vida. O nada que é um restabelecer. 
Nascemos para morrer e vivemos em busca deste sombrio e eternamente assustador nada.


http://www.grupoatoresdosol.blogspot.com.br/
R.B.Santana

9 comentários:

angelo freitas disse...

só o nada é completo e pode nos encher por completo.
valeu braga

Anônimo disse...

Grande poeta e Amigo Braga,
fostes longe indo no recôndito da memória trazer ao limbo tua percepção de luta,
bela prosa,
abraços,
Miguel Carneiro

Luciano Fraga disse...

Ronaldo,é exatamente com o nada que preenchemos o vazio de tudo que é e somos...Texto gratificante,de extrema beleza e profundidade.

anjobaldio disse...

Valeu Ronaldo, belo texto. Afinal, somos homens ocos.

ricardo almeida disse...

palavras duras para a verdade humana

antonio lucio disse...

o nada sempre foi mais que o contrário do nada, ele é mais, além de ser uma existencia que nos desnorteia, pois de repente o nada é alguma coisa.

joice disse...

texto intrigante e realmente cruel.

Lino castro disse...

o amor é um nada disfarçado do tudo

Fulana Miranda disse...

O que mais gostei, muito bom:
"(...)pois eu sei, eu sei da dor nos sorrisos cínicos, eles sempre estão depositando no amanhã toda a sua fortuna, e eu sou um cara que sei que o devir não é o sucesso garantido, e eu só posso dar um sorriso amarelo e chama-los de tolos, eu sou um cara que olha pra cima.
existe também, imanente à minha impermeabilidade, em algum lugar da minha vida, como uma covardia, alguma esperança, que me mata lentamente."

A sinceridade que há nos cínicos, Ronaldo!! Os verdadeiros cínicos são as criaturas verdadeiramente sinceras. Não falo do cinismo barato que forja acenos, sorrisos, saca meia-dúzia de elogios e frases insossas e quase-amáveis de tratamento. Os verdadeiramente cínicos serão os próximos santos, os mais puros de uma religião ainda por nascer...
Adorei!!Texto ótimo!!
Adorei sua mensagem lá no meu blog!!
Bom 2008!!