segunda-feira, novembro 12, 2007

o retratista 2

"Pra mim, pessoas mesmo são os loucos,
os que estão loucos pra viver, que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns,
mas queimam, queimam, queimam..."
J. Kerouac

Everaldo-“O Retratista”, às ordens. Era assim que gostava de ser chamado e reconhecido. O “Retratista”. Um cara pacato (“um cidadão comum como esses que se vê nas ruas”), cresceu,estudou e casou-se com uma amiga de infância com quem teve dois filhos, com muito sacrifício construiu um pequeno patrimônio (casa, carro, sítio e uma poupança),um milagre . Depois que incorporou o personagem (“O Retratista”), passou a cultivar um estranho ritual (se é que podemos denominar assim aquele hábito) noturno. Toda a sexta feira, antes de dormir, colocava sobre um altar improvisado, seu instrumento de trabalho (a máquina), acendia duas velas pretas (uma para Deus, dizia) e repetia inúmeras vezes as palavras-“ com você ficarei rico, amém”, obsessivamente,como um mantra,uma prece, religiosamente(??) repetia,- “com você...” em voz alta.
Visão. Tudo é questão de visão. O conteúdo, a forma, a causa e o efeito, o respeito e até os defeitos. Quem sabe, silencia, ou diz sem fazer alarde. Era assim que projetava o mundo.
“O Retratista” costumava gabar-se, dizia que retratava tudo: missas, bumba meu boi, casamentos, samba de roda, quadrilhas, brigas de galo, guerras de espadas, ,matanças de animais, times de futebol, carnes penduradas nos açougues, acidentes, defuntos, palhaços, artistas, o céu, a chuva, bocas, olhos, pés. Registrava o desespero na caça ao voto, a bajulação e a hipocrisia das madames em bairros pobres da periferia. As crianças sujas tocando-as como “deusas”, bêbados cuspindo próximo ao rosto, os saltos enterrando no barro em meio às” bostas” ( de gente,cachorros e porcos). A “cara de nojo” delas. Que nojo! Foi assim na inauguração de um pequeno chafariz (nunca jorrou água e as ”Marias” até hoje carregam suas latas e mágoas na cabeça) no bairro da “Bolívia”. Já os homens chegavam apertando as mãos, afagando as pobres mulheres, adentrando nos botequins (os botecos tem luz própria), despejavam cachaça. Queriam anestesiar aqueles senhores, fazendo com que os banguelas esquecessem que um dia sorriram com seus próprios dentes, embora o poeta insista que “Jesus não tem dentes no país de banguelas”.
Em meio ao pandemônio dos carros de som,da pagodearia erótica,do foguetório, “O Retratista” quebrou um pacto moralista e preconceituoso, retratar prostitutas. Uma delas aproximou-se (vestida de vermelho, a cor tradicional do casamento chinês), esfregando-se, implorando para que fosse retratada (como ele dizia), tão dengosa, olhar traiçoeiramente esverdeado, cabelos aloirados, molhados e cheirosos, um perfume tão inebriante que o arrastou para o abismo (??).Quando recobrou os sentidos estava entre quatro paredes de uma espelunca ao lado de uma estranha. Procurando as roupas, perguntou: - quem era ela?
–Lia, meu amor, melhor dizendo, Eliamor. Quero que me traga as” foto” logo, logo,bem lindas.
Não conseguia lembrar da sessão de fotos. Quando as recebeu reveladas percebeu aquela presença despida e despudorada em posições pornográficas bem “escrotas”. A necessidade de reencontrá-la o fez voltar numa tarde chuvosa. De dentro do bar ecoava um bolero à la Cauby ,casais dançavam, as mãos percorriam as partes mais íntimas,a testosterona minando pelos poros, num canto do salão, junto com dois homens( ??) estava Lia, que ao notar a presença surpreendente (quando o desprezo fazia parte da sua rotina), correu em sua direção, beijando-lhe. Sem jeito, com medo dos “caras”, foi arrastado - não se assuste,os dois são veados. Inexperiente nestas situações(tinha conhecido apenas uma mulher com a qual havia casado) foram para o quarto.
-Trouxe as ”foto” amor? Estou doida pra ver.
“O Retratista”, nervoso, suando (embora estivesse fazendo frio),abriu o envelope,mãos trêmulas.Ela, disfarçava dando saltinhos,gritos, dizendo:
-Linda, linda, maravilhosa...
Numa mistura de adrenalina, fogo, tensão, rolaram na cama por cima das fotos e dos envelopes, quase espatifando a máquina, treparam e ele louco gritava:- voltarei outras vezes, e ela dizia :-não ,não. Ele sempre repetia e repetia... Treparam como dois animais, espécies em extinção.
As estórias da vida impressionam pelo paralelismo, apenas pequenos detalhes as tornam diferentes, mas os fatos repetem-se em ciclos, até que o sangue escorra pelo chão, inunde os tapetes...
O envolvimento com Lia tornou-se intenso. “O Retratista” abandonou a família, insistiu que ela abandonasse aquele ambiente. A solidariedade é doce e farta quando precedida de sexo, uma conspiração cega do desejo. Lia, friamente, acariciando-lhe o rosto, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Eu sou uma mulher perigosa. Perigosa. É isto que mereço, nem mais, nem menos.
Todo estilhaçado com a resposta, forçou a barra até demovê-la da idéia.
Residindo no sítio, todo conforto para Lia, para a mulher e filhos, frieza. A aparência tornou-se postiça. A falta das algazarras, das farras, da esfregação com outros homens, da vida vadia, sentia-se nocauteada.
As discussões tornaram-se freqüentes, numa delas “O Retratista” perdeu o controle xingando-a de ” puta”, treze vezes.
– O que você quer alem de casa e comida sua porra?Estou arrependido do que fiz. Seu lugar é naquela pocilga...
Lia chorou a noite inteira, enquanto ele em frente ao altar improvisado repetia
“... com você...” era sexta-feira, “amém”.
Ao levantar-se bem cedo, Lia tomou um banho, maquiou-se(olhos inchados) e ficou esperando pelo “marido”.Ele achou estranho e comentou:- por que aquela pintura? Você pensa que vai sair?
- Não. Fiz para você amor, respondeu e o beijou na testa. A partir de hoje, vamos viver em paz, quero que você tire meu retrato todos os dias de diversas maneiras.Cada dia uma, será o registro do nosso amor eterno, tá certo?
- Ah!. Assim fica bem melhor, é um prazer, tirar retratos. É o meu fraco – respondeu com o rosto reluzente, vitorioso.
A “paz aparente e pálida” ia sobrevivendo, movida a retratos. Acorrentada na cama, na mesa, nos pilares da varanda, capinando o terreiro, amordaçada, sob a mira de armas, ajoelhada, encapuzada, varrendo o chão, lavando roupas... Tornou-se uma fonte de prazer, invariavelmente às sessões terminavam em sexo brutal.
“O Retratista” apanhou a máquina e ficou imaginando qual seria a fantasia do dia, embora sentisse um pressentimento, uma melodia fúnebre rolando por dentro. Subitamente Lia havia desaparecido. -Viajou? Fugiu? Suicidou-se?
Atordoado, pediu ajuda à Polícia, às amigas da “boite”, nenhuma notícia.
Passaram-se quinze dias sem comer, sem dormir, sem sorrir, sem praticar o ritual, apenas bebendo Domec.
-Pois não, Everaldo “ O Retratista”, atendeu completamente bêbado.
-Sou Elias,Oficial de Justiça,tenho uma intimação para o senhor.
“O Retratista” compareceu às audiências. Um velho gorducho, cabeça raspada, bigode cheio e pintado, anéis enormes nos polegares e ainda um par de brincos, fungava bastante, parecia muito doido. Dr. Salim era um rábula e amante de Lia. Sacou de uma pasta o envelope contendo a seqüência de fotos que o mesmo havia “retratado” em seu sítio, acusando-o de torturas, abuso sexual, estupro e outros crimes previstos em artigos, parágrafos e toda parafernália constante nas leis contra pessoas (direitos humanos) submissas.
A sentença, assinada com caneta de ouro determinou perda total do patrimônio (inclusive a máquina) e condenação à prisão por sete anos, três meses, vinte e cinco dias em regime fechado.
Na cadeia, após ser abusado pelos “companheiros” de cela, antes de cortar os pulsos até sangrar feito um porco, ainda teve tempo para ver as fotos e ler a manchete num jornal: ”PROSTITUTA MATA ADVOGADO”.
“Eu sou uma mulher perigosa...”. Lembrou-se, enquanto agonizava com os olhos enquadrados na lente de uma máquina de retrato...


Luciano Fraga

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