quarta-feira, novembro 21, 2007

A poesia de Luciano Fraga

PRURIDO


“... baixinha da vitória com seus loucos,
seus monstros e seus homens de verdade.” R. Braga



Defronte à grade
devotos
agitam as cabeleiras
feito palmeiras,ou
bandeiras
verdes
cartazes são pregados
PROCURADO:
apedrejou os telhados,
molestou as leis,
quebrou dentes e os
códigos sagrados
são como ruínas
que mancham lençóis
e nos deixam temerosos
ante o protesto dos asnos
impressos
nas páginas do último fólio.
Comendo peixes crus
a miséria ainda exporta
notas
pelo mundo exemplar (?).
Ah! Se pudesse ajudar
Che!
Momentos antes de morrer
no chão
cabeça de negro
vai rolar,
dizem:
tudo está certo,
em seu devido lugar,
não estão vendo?
Nunca dependa do inesperado.
Enquanto corro
atrás dos minguados
ouço latidos...
Cachorro cego na varanda
faz parte do meu cabedal...

Luciano Fraga

terça-feira, novembro 13, 2007

Herança

Fui calado e aos trancos
herdando de meu pai:
a dureza de um pau
o silêncio de um monge
amargura de um clown.
Quando negociei meu quinhão,
selado num cartório,
Meu pai estava morto
e só havia dois irmãos...

Miguel Carneiro

segunda-feira, novembro 12, 2007

o retratista 2

"Pra mim, pessoas mesmo são os loucos,
os que estão loucos pra viver, que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns,
mas queimam, queimam, queimam..."
J. Kerouac

Everaldo-“O Retratista”, às ordens. Era assim que gostava de ser chamado e reconhecido. O “Retratista”. Um cara pacato (“um cidadão comum como esses que se vê nas ruas”), cresceu,estudou e casou-se com uma amiga de infância com quem teve dois filhos, com muito sacrifício construiu um pequeno patrimônio (casa, carro, sítio e uma poupança),um milagre . Depois que incorporou o personagem (“O Retratista”), passou a cultivar um estranho ritual (se é que podemos denominar assim aquele hábito) noturno. Toda a sexta feira, antes de dormir, colocava sobre um altar improvisado, seu instrumento de trabalho (a máquina), acendia duas velas pretas (uma para Deus, dizia) e repetia inúmeras vezes as palavras-“ com você ficarei rico, amém”, obsessivamente,como um mantra,uma prece, religiosamente(??) repetia,- “com você...” em voz alta.
Visão. Tudo é questão de visão. O conteúdo, a forma, a causa e o efeito, o respeito e até os defeitos. Quem sabe, silencia, ou diz sem fazer alarde. Era assim que projetava o mundo.
“O Retratista” costumava gabar-se, dizia que retratava tudo: missas, bumba meu boi, casamentos, samba de roda, quadrilhas, brigas de galo, guerras de espadas, ,matanças de animais, times de futebol, carnes penduradas nos açougues, acidentes, defuntos, palhaços, artistas, o céu, a chuva, bocas, olhos, pés. Registrava o desespero na caça ao voto, a bajulação e a hipocrisia das madames em bairros pobres da periferia. As crianças sujas tocando-as como “deusas”, bêbados cuspindo próximo ao rosto, os saltos enterrando no barro em meio às” bostas” ( de gente,cachorros e porcos). A “cara de nojo” delas. Que nojo! Foi assim na inauguração de um pequeno chafariz (nunca jorrou água e as ”Marias” até hoje carregam suas latas e mágoas na cabeça) no bairro da “Bolívia”. Já os homens chegavam apertando as mãos, afagando as pobres mulheres, adentrando nos botequins (os botecos tem luz própria), despejavam cachaça. Queriam anestesiar aqueles senhores, fazendo com que os banguelas esquecessem que um dia sorriram com seus próprios dentes, embora o poeta insista que “Jesus não tem dentes no país de banguelas”.
Em meio ao pandemônio dos carros de som,da pagodearia erótica,do foguetório, “O Retratista” quebrou um pacto moralista e preconceituoso, retratar prostitutas. Uma delas aproximou-se (vestida de vermelho, a cor tradicional do casamento chinês), esfregando-se, implorando para que fosse retratada (como ele dizia), tão dengosa, olhar traiçoeiramente esverdeado, cabelos aloirados, molhados e cheirosos, um perfume tão inebriante que o arrastou para o abismo (??).Quando recobrou os sentidos estava entre quatro paredes de uma espelunca ao lado de uma estranha. Procurando as roupas, perguntou: - quem era ela?
–Lia, meu amor, melhor dizendo, Eliamor. Quero que me traga as” foto” logo, logo,bem lindas.
Não conseguia lembrar da sessão de fotos. Quando as recebeu reveladas percebeu aquela presença despida e despudorada em posições pornográficas bem “escrotas”. A necessidade de reencontrá-la o fez voltar numa tarde chuvosa. De dentro do bar ecoava um bolero à la Cauby ,casais dançavam, as mãos percorriam as partes mais íntimas,a testosterona minando pelos poros, num canto do salão, junto com dois homens( ??) estava Lia, que ao notar a presença surpreendente (quando o desprezo fazia parte da sua rotina), correu em sua direção, beijando-lhe. Sem jeito, com medo dos “caras”, foi arrastado - não se assuste,os dois são veados. Inexperiente nestas situações(tinha conhecido apenas uma mulher com a qual havia casado) foram para o quarto.
-Trouxe as ”foto” amor? Estou doida pra ver.
“O Retratista”, nervoso, suando (embora estivesse fazendo frio),abriu o envelope,mãos trêmulas.Ela, disfarçava dando saltinhos,gritos, dizendo:
-Linda, linda, maravilhosa...
Numa mistura de adrenalina, fogo, tensão, rolaram na cama por cima das fotos e dos envelopes, quase espatifando a máquina, treparam e ele louco gritava:- voltarei outras vezes, e ela dizia :-não ,não. Ele sempre repetia e repetia... Treparam como dois animais, espécies em extinção.
As estórias da vida impressionam pelo paralelismo, apenas pequenos detalhes as tornam diferentes, mas os fatos repetem-se em ciclos, até que o sangue escorra pelo chão, inunde os tapetes...
O envolvimento com Lia tornou-se intenso. “O Retratista” abandonou a família, insistiu que ela abandonasse aquele ambiente. A solidariedade é doce e farta quando precedida de sexo, uma conspiração cega do desejo. Lia, friamente, acariciando-lhe o rosto, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Eu sou uma mulher perigosa. Perigosa. É isto que mereço, nem mais, nem menos.
Todo estilhaçado com a resposta, forçou a barra até demovê-la da idéia.
Residindo no sítio, todo conforto para Lia, para a mulher e filhos, frieza. A aparência tornou-se postiça. A falta das algazarras, das farras, da esfregação com outros homens, da vida vadia, sentia-se nocauteada.
As discussões tornaram-se freqüentes, numa delas “O Retratista” perdeu o controle xingando-a de ” puta”, treze vezes.
– O que você quer alem de casa e comida sua porra?Estou arrependido do que fiz. Seu lugar é naquela pocilga...
Lia chorou a noite inteira, enquanto ele em frente ao altar improvisado repetia
“... com você...” era sexta-feira, “amém”.
Ao levantar-se bem cedo, Lia tomou um banho, maquiou-se(olhos inchados) e ficou esperando pelo “marido”.Ele achou estranho e comentou:- por que aquela pintura? Você pensa que vai sair?
- Não. Fiz para você amor, respondeu e o beijou na testa. A partir de hoje, vamos viver em paz, quero que você tire meu retrato todos os dias de diversas maneiras.Cada dia uma, será o registro do nosso amor eterno, tá certo?
- Ah!. Assim fica bem melhor, é um prazer, tirar retratos. É o meu fraco – respondeu com o rosto reluzente, vitorioso.
A “paz aparente e pálida” ia sobrevivendo, movida a retratos. Acorrentada na cama, na mesa, nos pilares da varanda, capinando o terreiro, amordaçada, sob a mira de armas, ajoelhada, encapuzada, varrendo o chão, lavando roupas... Tornou-se uma fonte de prazer, invariavelmente às sessões terminavam em sexo brutal.
“O Retratista” apanhou a máquina e ficou imaginando qual seria a fantasia do dia, embora sentisse um pressentimento, uma melodia fúnebre rolando por dentro. Subitamente Lia havia desaparecido. -Viajou? Fugiu? Suicidou-se?
Atordoado, pediu ajuda à Polícia, às amigas da “boite”, nenhuma notícia.
Passaram-se quinze dias sem comer, sem dormir, sem sorrir, sem praticar o ritual, apenas bebendo Domec.
-Pois não, Everaldo “ O Retratista”, atendeu completamente bêbado.
-Sou Elias,Oficial de Justiça,tenho uma intimação para o senhor.
“O Retratista” compareceu às audiências. Um velho gorducho, cabeça raspada, bigode cheio e pintado, anéis enormes nos polegares e ainda um par de brincos, fungava bastante, parecia muito doido. Dr. Salim era um rábula e amante de Lia. Sacou de uma pasta o envelope contendo a seqüência de fotos que o mesmo havia “retratado” em seu sítio, acusando-o de torturas, abuso sexual, estupro e outros crimes previstos em artigos, parágrafos e toda parafernália constante nas leis contra pessoas (direitos humanos) submissas.
A sentença, assinada com caneta de ouro determinou perda total do patrimônio (inclusive a máquina) e condenação à prisão por sete anos, três meses, vinte e cinco dias em regime fechado.
Na cadeia, após ser abusado pelos “companheiros” de cela, antes de cortar os pulsos até sangrar feito um porco, ainda teve tempo para ver as fotos e ler a manchete num jornal: ”PROSTITUTA MATA ADVOGADO”.
“Eu sou uma mulher perigosa...”. Lembrou-se, enquanto agonizava com os olhos enquadrados na lente de uma máquina de retrato...


Luciano Fraga

quarta-feira, novembro 07, 2007

escrever pra que?

Há tempos eu não escrevo, primeiro nada está me interessando, depois eu mesmo acho que a desilusão é apenas uma outra ilusão e eu escrevo porque sofro, e na verdade esse meu sofrimento não é um sofrimento cristão, não é um sofrimento pelo outro, não, o meu sofrimento é talvez estetico, ou talvez por eu me sentir como se eu fosse duas ou quatro pessoas ao mesmo tempo.
Já houve tempo que eu escrevia sobre as misérias do mundo, mas elas não me interessam mais, hoje é a minha propria miséria que me arrasta ou que me move. A fome, a violencia e o desemprego eu vejo como parte de uma ficção, onde os personagens se divertem por serem miseraveis. Eu me cansei de todo tipo de humildes, eles são a propria desgraça, eles são completamente anti-vida , eles são capazes de sofrerem, mas não mudam a forma de encarar o mundo. Eu não posso mais me inquietar pela vida de outros, é que eu não acredito em nenhum tipo de representação, eu não voto em nenhum candidato em eleições sejam proporcionais ou majoritárias, eu não acredito em sinceridade e muito menos em bondade, sou um egoista em busca de egoistas, nada mais.
Agora eu escrevo por me sentir completamente empanturrado e a escrita é o unico remedio que eu sei que vai melhorar o meu quadro, sei que não vou ficar de bom humor, mas tenho certeza que aquela maldita dor de cabeça vai me deixar. Escrever pra mim é como tomar comprimidos para dor, principalmente de cabeça. Antes eu escrevia pra me exibir, conquistar garotas e provar a mim mesmo que eu era um bom escritor, hoje escrevo pra expulsar anjos e demonios e, assim, talvez dormir em paz.

Ronaldo Braga

A poesia de miguel carneiro

Canto breve para a Poeta Carine Araújo

Faltam muitos versos
para consertar o mundo.
Nós, de voz embargada,
colocando nossas baladas,
em plena multidão.
Há ainda um irmão com fome,
um primo sem pão.
A poesia emergindo silenciosa,
esvaindo de nossas mãos.
Por isso, te afirmo, poeta:
Ainda é tempo de se fabricar o verso,
para enganar a sanha
demoníaca do Cão

Miguel Carneiro

terça-feira, novembro 06, 2007

A peça teatral Gentes, vem aí com força total. No centro cultural Dannemann
Estréia - 23 de novembro até 1 de dezembro (sempre às sextas e sabados)
Peça - GENTES
Direção - Ronaldo Braga
Texto - Criação coletiva
LOCAL- Centro cultural Dannemann - São Felix -Ba
horário- 20.30hs
Alunos- atores:
- Junior Costa Pinto (São Felix)
- Vanny Albuquerque (São Felix)
- Eliana Reis (Cachoeira)
- Leandro Bitencurt (São Felix)
- Angelica cerqueira (Muritiba)
- Magno do Rosário (São Felix)
- Uelton (Cachoeira)
- Elton (São felix)
- Gabriel (Cruz das Almas)
- Diogo Santos (São felix)
- Adoniram dos Santos(São Felix)
- Eduardo (São Felix)
- Kael ( Cachoeira)
- Carine (Cachoeira)


Sobre a peça:
Numa abordagem realista e direta mas sem abandonar a diversão, o espetáculo teatral GENTES traz para o debate a questão do relacionamento dos jovens com a escola, com a familia e com o mundo.
Com o principal objetivo de ser um catalizador, o espetaculo busca refletir a vida para que os jovens possam imprimirem na historia a sua propria pagina, escrevendo tambem a sua realidade não sendo somente um mero participante da vida.
Gentes é divertimento
Gentes é reflexão
Gentes é arte.

Gentes é resultado de um curso promovido pelo centro cultural Dannemann
para as comunidades do seu entorno.