quarta-feira, setembro 05, 2007

parte dois da entrevista do poeta Miguel Carneiro

abxz – Você não acha que ao publicar livros de pouco ou nenhum valor literário, conseqüentemente sem interesse maior algum, com o dinheiro público, o Estado, através do Selo Letras da Bahia, não está desvirtuando sua real função apenas para ficar na boa com um meio tão importante para a sociedade?
Miguel Carneiro - O problema da Coleção Selo Letras da Bahia é que, no governo Paulo Souto, havia gente como membro da comissão julgadora que não tinha nada a ver com a área literária. Eram estranhos no ninho. Tinha um que era filho de um influente jornalista baiano, já falecido, foi convidado para membro e ganhava o jeton. De literatura ele não entende nada. Outra coisa é que a comissão parecia um jogo de cumpadre. Só aprovava os livros se o sujeito fosse da curriola. Como eu briguei com um medíocre que fazia parte da comissão, resultado: dois livros que coloquei lá, foram rejeitados. Não havia um critério de qualidade, havia, sim, o jogo que é moda no meio literário baiano. Outra coisa é que se sua obra for menor, mas você ostenta um sobrenome de relevo, sua porcaria é aprovada em detrimento de inúmeras obras de autores baianos que lá voltam com aqueles pareceres vazios, sem nexo. Teve um amigo aqui na Bahia que aplicou um golpe nessa comissão do Selo Bahia. O poeta Zeca de Magalhães zanzava pela Academia de Letras e lá, através de Cunha, se aproximou do Prof. Waldir de Freitas Oliveira e disse ao mesmo que determinada obra que estava para ele analisar era de um poeta, parente de um famoso senador baiano do passado. A obra era de um iniciante, sem a menor qualidade. O professor, para homenagear a família do Senador, aprovou a porcaria do livrinho de poesia. Resultado, o cara tinha o sobrenome de um senador, mas jamais fora seu parente, pois tinha nascido num interior, numa cidadezinha perdida nos cafundós do Amazonas, nem ele sequer sabia da existência desse senador baiano. Zeca de Magalhães tinha essa faceta, de ser generoso, e entregar o próprio coração mesmo que a obra não prestasse. Agora eu só espero que no novo governo o critério e os membros sejam realmente imparciais e sérios. Obra de chapisco faz o leitor se afastar e pega mal para a Coleção, para o próprio Estado. Espero, e reitero novamente a minha preocupação, que esse governo atual não caia no mesmo rema-rema da gestão anterior. Nesse jogo escuso de protecionismo.
abxz – Houve um projeto de dissertação de mestrado sobre a sua obra, rejeitado pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), não foi?
MC – É, rolou essa história. Em outubro de 2003, a professora Edinage Silva, que é formada pelo próprio Departamento de Letras e Artes, apresentou um anteprojeto “O texto de Miguel Carneiro: um mediador entre o real e o imaginário”, mas foi rejeitado por parte da banca. Na UEFS, só se estuda Jorge Amado, José de Alencar, Machado de Assis, SÓ MORTO, é uma vergonha o que fazem com o dinheiro público.

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